Abscessos e fístulas perianais sempre fizeram parte do cotidiano pediátrico, geralmente percebidos como eventos cirúrgicos simples, resolvidos com drenagem e pouco impacto na saúde geral da criança. No entanto, evidências recentes mostram que essa visão precisa ser atualizada, especialmente quando o paciente tem mais de seis anos. Um estudo multicêntrico holandês, avaliando crianças de 2 a 18 anos ao longo de quase duas décadas, revelou que essas manifestações podem ser o primeiro sinal de abertura de uma doença inflamatória intestinal (DII), especialmente a doença de Crohn (DC). Trata-se de um alerta que muda a interpretação tradicional desses quadros, exigindo maior vigilância por parte dos pediatras diante de apresentações perianais que antes eram consideradas de baixa complexidade.
Dados robustos revelam um risco que cresce com a idade
A força desse trabalho está no acompanhamento longo (mediana de 6,2 anos) e na estratificação por idade, permitindo observar tendências evolutivas com clareza. Entre as 152 crianças incluídas, mais de 21% evoluíram para DC, mas o dado mais relevante é a clara dependência do risco em relação à idade. Enquanto crianças menores de seis anos apresentaram risco muito baixo (3,6%), esse percentual avançou para 15,1% entre 6 e 12 anos e atingiu impressionantes 32,4% entre adolescentes. Além disso, o tipo de apresentação inicial influenciou de forma marcante, sendo que a presença de fístula, isolada ou associada a abscesso, aumentou mais de quatro vezes o risco de DC em comparação ao abscesso isolado. Recorrência de eventos perianais também se mostrou um marcador clínico poderoso, triplicando o risco e antecipando o diagnóstico. Mesmo assim, sintomas gastrointestinais nem sempre estavam presentes no início, e a evolução para DC pôde ocorrer meses ou até anos após o evento perianal, reforçando que a ausência de queixas gastrointetinais clássicas de uma DII não elimina o risco.
Biomarcadores e acompanhamento: ferramentas que mudam o desfecho
A calprotectina fecal, ainda que avaliada em um subgrupo, emergiu como ferramenta determinante na diferenciação entre evolução benigna e risco de DII. Crianças que posteriormente receberam diagnóstico de DC apresentaram valores médios de 1212 µg/g, enquanto aquelas que não evoluíram exibiram valores discretos, em torno de 22,5 µg/g. O fato de todos os pacientes que evoluíram para DC terem níveis acima de 150 µg/g reforça que esse é um exame simples, acessível e altamente informativo, devendo ser incorporado precocemente na propedêutica de qualquer criança acima de seis anos com abscessos e fístulas perianais. É necessário acompanhamento clínico ativo, com atenção a sintomas sutis, mudanças no padrão intestinal, alterações de crescimento e marcadores inflamatórios.
Um novo chamado para a prática do pediatra brasileiro
No Brasil, o fluxo de cuidado para abscessos e fístulas perianais ainda é predominantemente cirúrgico, sobretudo em prontos-socorros, o que leva muitos casos a serem tratados como intercorrências isoladas, sem reavaliação clínica estruturada. O pediatra precisa assumir papel central após o manejo agudo, incorporando investigação sistemática, incluindo calprotectina fecal, história familiar de DII e sinais clínicos de alerta. Casos de fístula ou recorrência merecem especial atenção e encaminhamento precoce para gastroenterologia pediátrica.
Para evitar atrasos no diagnóstico, é essencial que cirurgiões, pediatras e gastroenterologistas atuem de forma integrada, com protocolos compartilhados que permitam vigilância prolongada e estratégias coordenadas de investigação. Assim, abscessos e fístulas perianais deixam de ser meras intercorrências locais e passam a ser verdadeiras janelas de oportunidade para detectar precocemente doença de Crohn, reduzindo complicações e melhorando o prognóstico desses pacientes.
Autoria

Jôbert Neves
Médico do Departamento de Pediatria e Puericultura da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (ISCMSP), Pediatria e Gastroenterologia Pediátrica pela ISCMSP, Título de Especialista em Gastroenterologia Pediátrica pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Médico formado pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Coordenador Young LASPGHAN do grupo de trabalho de probióticos e microbiota da Sociedade Latino-Americana de Gastroenterologia, Hepatologia e Nutrição Pediátrica (LASPGHAN).
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