O perfil do paciente submetido à artroplastia total de quadril (ATQ) mudou. Mais jovens, mais ativos e com expectativas cada vez maiores, eles querem saber não apenas se a cirurgia aliviará a dor, mas também se poderão voltar a correr, pedalar, jogar tênis ou esquiar. As recomendações tradicionais tendiam a desencorajar esportes de alto impacto, mas será que essa orientação reflete a realidade dos pacientes atuais? E a via de acesso cirúrgica: anterior, posterior ou lateral, influencia o retorno ao esporte?
Pesquisadores do Departamento de Cirurgia Ortopédica da NYU Langone Health, em Nova York, conduziram um estudo retrospectivo para responder a essas perguntas. Os autores analisaram dados de 1.115 pacientes ativos em pelo menos um esporte antes ou depois da ATQ, com idade média variando de 53 a 66 anos, submetidos à cirurgia entre 2011 e 2022.
Os pacientes foram divididos por via de acesso: posterior ( n = 519), anterior ( n = 556) e lateral ( n = 50). O objetivo principal foi avaliar as taxas de retorno ao esporte em um ano, comparando vias de acesso e tipos de esporte (baixo vs. alto impacto). O trabalho foi publicado em 2026 no Journal of Arthroplasty.
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Qual a taxa de retorno ao esporte após a ATQ?
Globalmente, 73,2% dos pacientes que praticavam esporte antes da cirurgia retornaram a alguma atividade em um ano. A taxa de participação geral foi de 45,2% no pré-operatório e 43,7% no pós-operatório, uma diferença pequena, porque 23,3% dos pacientes que não praticavam esportes antes da cirurgia começaram a praticar após o procedimento, compensando os 26,8% que abandonaram a atividade.
Os esportes de baixo impacto tiveram taxas de retorno significativamente mais altas do que os de alto impacto: 72,4% versus 50,0% (p < 0,001). Ciclismo e natação lideraram com cerca de 70% de retorno, enquanto corrida (40,5%) e esportes coletivos (43,9%) tiveram os piores índices.
A via de acesso cirúrgica influencia o retorno ao esporte?
Não de forma estatisticamente significativa. As taxas de retorno foram de 68,1% para a via posterior, 77,0% para a anterior e 81,8% para a lateral (p = 0,181). Embora a via anterior tenha apresentado resultados numericamente superiores, a diferença não foi significativa após correção para múltiplas comparações. Em esportes específicos, a via anterior mostrou vantagem no golfe (87,0% vs. 69,2%; p = 0,047) e no esqui (70,0% vs 42,3%; p = 0,031), mas esses achados devem ser interpretados com cautela, dadas as múltiplas comparações e o pequeno tamanho amostral em alguns subgrupos.
Os pacientes melhoram ou pioram o desempenho esportivo?
A maioria dos que retornaram ao esporte manteve ou melhorou seu desempenho. Corrida e jogging foram os esportes com maior proporção de pacientes que aumentaram a distância percorrida (39,5% e 45,6%, respectivamente). No ciclismo, 53,5% mantiveram a distância e 32% melhoraram a velocidade. A satisfação com o retorno foi alta em todos os esportes, com mais de 60% dos pacientes “muito satisfeitos” na maioria das modalidades.
Restrições para retornar ao esporte foram relatadas por cerca de um em cada cinco pacientes, sendo mais comuns na natação, ciclismo e esqui. A maioria das restrições foi imposta pelo cirurgião ou pelo próprio paciente (medo, insegurança), e não por limitações funcionais objetivas.
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Qual a mensagem prática para o ortopedista?
O estudo da NYU Langone oferece uma visão abrangente e encorajadora para os pacientes ativos: a maioria dos que praticavam esportes antes da ATQ retorna à atividade em um ano, e muitos daqueles que não praticavam passam a praticar. A via de acesso cirúrgica não parece ser um fator determinante para o sucesso do retorno ao esporte, o que sugere que a escolha da via deve ser guiada pela experiência do cirurgião e pelas características individuais do paciente, não por supostas vantagens atléticas.
Esportes de baixo impacto têm maior probabilidade de retorno, mas pacientes bem selecionados e motivados podem retornar com segurança a esportes de maior exigência, especialmente se tiverem experiência prévia na modalidade. A decisão deve ser compartilhada, com expectativas realistas e ênfase na reabilitação adequada.
Autoria

Rafael Erthal
Conteúdista médico na Afya. Médico formado na Universidade Federal Fluminense (UFF-RJ), especialista em Ortopedia e Cirugia do Joelho pelo Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (INTO-RJ), membro do grupo de cirurgia do joelho do INTO, membro titular da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) e da Sociedade Brasileira de Cirurgia do Joelho (SBCJ). Mestrado em ciências do Sistema Musculoesquelético pelo INTO. Delegado da Sociedade Brasileira de Cirurgia do Joelho (SBCJ) no Rio de Janeiro 2023-2024. Referência no atendimento à atletas profissionais de futebol do Rio de Janeiro, com atuação em clube da Série A desde 2021 como cirurgião de joelho. Responsável pelo retorno seguro ao esporte de atletas após lesões complexas de joelho.
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