A fila de espera para artroplastia total de joelho (ATJ) no sistema público de saúde brasileiro pode se estender por anos, período de sofrimento significativo para pacientes com osteoartrite avançada, que convivem com dor intensa e limitação funcional progressiva. Enquanto aguardam o procedimento definitivo, opções paliativas são necessárias. A radiofrequência (RF) dos nervos geniculares tem emergido como uma alternativa promissora, mas sua eficácia em pacientes com indicação formal de ATJ ainda é pouco explorada na literatura. Um recente estudo brasileiro veio preencher essa lacuna.
Pesquisadores do Serviço de Ortopedia e Traumatologia do Hospital Federal de Ipanema, no Rio de Janeiro, conduziram um estudo prospectivo comparativo para avaliar o uso paliativo da radiofrequência convencional em pacientes com osteoartrite de joelho aguardando ATJ.
Os autores acompanharam 71 joelhos (61 pacientes) entre janeiro de 2022 e dezembro de 2023. O grupo RF (51 joelhos) foi comparado a um grupo controle (20 joelhos) tratado com infiltração intra-articular de corticosteróide. O desfecho primário foi a resposta à dor pela escala visual analógica (EVA) em seis meses; os desfechos secundários incluíram as escalas funcionais WOMAC e KSS. O trabalho foi publicado em 2026 na Acta Ortopédica Brasileira.

A radiofrequência melhora a dor e a função em comparação ao corticosteroide?
Sim, e de forma consistente. Aos seis meses, o grupo RF apresentou sucesso na redução da dor (EVA) em 76,5% dos casos, contra apenas 35% no grupo corticosteroide (p < 0,0001). A EVA média caiu de 8,8 para 3,2 no grupo RF (redução de 63%), enquanto no grupo controle variou de 8,9 para 5,8 (redução de 35%). O risco relativo de sucesso com a RF foi de 2,18 em relação ao corticosteroide.
Na avaliação funcional, os resultados foram igualmente favoráveis à RF. A taxa de sucesso pelo WOMAC foi de 90,2% no grupo RF versus 70% no controle (p = 0,044). O KSS joelho (que avalia dor, estabilidade e amplitude de movimento) teve sucesso em 98% dos pacientes tratados com RF, contra 80% no grupo controle (p = 0,020). O KSS função (capacidade de caminhar e subir escadas) foi bem-sucedido em 78,4% versus 55% (p = 0,048). Os benefícios funcionais se mantiveram do primeiro ao sexto mês, sugerindo durabilidade do efeito.
Quais fatores influenciam o sucesso da radiofrequência?
O estudo identificou que a angulação do joelho em valgo está associada a pior resposta à RF em todos os desfechos avaliados (EVA, WOMAC total e subescala de dor). Os autores levantam a hipótese de que o valgo, por ser uma deformidade mais complexa e frequentemente associada a dor em compartimento lateral, pode não ser adequadamente abordado pela técnica que, no estudo, tratou apenas um ponto lateral (nervo genicular superior lateral), sem abordar o ramo recorrente do nervo fibular na tíbia lateral.
Por outro lado, a gravidade da osteoartrite, medida pelas classificações de Kellgren e Lawrence, e Ahlback, associou-se a melhor resposta no componente de rigidez do WOMAC, sugerindo que pacientes com artrose mais avançada podem se beneficiar particularmente da RF.
Curiosamente, o índice de massa corporal elevado (IMC > 30) apareceu inicialmente como fator de bom prognóstico, mas os autores notaram que os pacientes obesos tinham menor prevalência de joelho valgo, o que provavelmente explica o achado, e não o peso em si.
Qual a mensagem prática para o ortopedista?
O estudo traz evidência nacional de que a radiofrequência convencional dos nervos geniculares é uma opção paliativa eficaz para pacientes com osteoartrite grave de joelho que aguardam artroplastia. A técnica é segura (nenhuma complicação foi relatada) e proporciona melhora significativa da dor e da função por pelo menos seis meses, superando a infiltração com corticosteróide.
Para o ortopedista que atende na rede pública, a RF pode ser uma ferramenta valiosa no manejo da fila de espera, reduzindo o sofrimento do paciente e potencialmente melhorando seu estado funcional para o momento da cirurgia definitiva. Pacientes com joelho em varo ou neutro, com artrose avançada, parecem ser os melhores candidatos. Em joelhos valgos, a técnica pode precisar de aprimoramentos, como a abordagem de pontos adicionais na face lateral, para alcançar resultados equivalentes.
Autoria

Rafael Erthal
Conteúdista médico na Afya. Médico formado na Universidade Federal Fluminense (UFF-RJ), especialista em Ortopedia e Cirugia do Joelho pelo Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (INTO-RJ), membro do grupo de cirurgia do joelho do INTO, membro titular da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) e da Sociedade Brasileira de Cirurgia do Joelho (SBCJ). Mestrado em ciências do Sistema Musculoesquelético pelo INTO. Delegado da Sociedade Brasileira de Cirurgia do Joelho (SBCJ) no Rio de Janeiro 2023-2024. Referência no atendimento à atletas profissionais de futebol do Rio de Janeiro, com atuação em clube da Série A desde 2021 como cirurgião de joelho. Responsável pelo retorno seguro ao esporte de atletas após lesões complexas de joelho.
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