Desde o início dos anos 2000 com o advento das placas volares bloqueadas, os principais tratamentos para fraturas de rádio se dividem entre esse e o conservador com imobilização gessada com ambos atingindo bons resultados e chegando à função próxima a normal cerca de 1 ano após o tratamento.
Métodos objetivos são importantes para complementar as medidas de desfecho relatadas pelo paciente (PROMs), amplamente utilizadas para avaliar a recuperação subjetiva após fratura do rádio distal.

O que é a tecnologia “wearable”?
Tecnologias vestíveis (*wearables*) oferecem medidas válidas de atividade física, embora as evidências sobre a mensuração da atividade dos membros superiores em populações ortopédicas ainda sejam limitadas. Dispositivos vestíveis de pulso, como acelerômetros, podem mensurar o uso do braço, o que é relevante após lesão ou cirurgia e não estão sujeitas a questões subjetivas como as PROMs.
Diante disso, foi publicado na revista “Acta Orthopaedica” um estudo com o objetivo principal comparar a atividade de alta intensidade dos membros superiores 12 meses após o tratamento cirúrgico versus não cirúrgico de fraturas do rádio distal desviadas, utilizando acelerômetros. Os objetivos secundários foram avaliar o impacto do alinhamento da fratura na atividade de alta intensidade e comparar os níveis de atividade com aqueles observados em indivíduos saudáveis.
Análise secundária do “Distal Radius Fracture Trial”
O estudo foi uma análise secundária do “Distal Radius Fracture Trial”, um ensaio clínico controlado, randomizado e multicêntrico de 2025. Participantes com fratura do rádio distal que não mantiveram um alinhamento aceitável após a redução fechada foram alocados aleatoriamente, na proporção de 1:1, para receber tratamento não cirúrgico ou tratamento cirúrgico com placa volar bloqueada.
Os pacientes que apresentaram alinhamento aceitável após a redução fechada foram monitorados quanto a um possível desvio precoce. Caso houvesse perda de alinhamento entre 5 e 10 dias de acompanhamento, os pacientes eram randomizados, na proporção de 1:1, para continuar o tratamento não cirúrgico ou submeter-se ao tratamento cirúrgico com placa volar bloqueada.
Os pacientes que apresentaram alinhamento aceitável após a redução fechada e o mantiveram entre 5 e 10 dias de acompanhamento seguiram o protocolo padrão de consultas de acompanhamento para tratamento não cirúrgico. Esses pacientes constituíram o grupo de fraturas do rádio distal com alinhamento adequado.
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Quais foram os grupos do estudo?
O estudo contou com três grupos de participantes: (i) pacientes com fratura do rádio distal com desvio (randomizados para tratamento não cirúrgico ou cirúrgico), (ii) pacientes com fratura do rádio distal bem alinhada e (iii) indivíduos saudáveis. Os dois grupos de pacientes tinham 65 anos ou mais, apresentavam fratura do rádio distal e foram recrutados no Hospital Universitário de Tampere (Finlândia), no Hospital Central da Finlândia Nova (Finlândia) e no Hospital Regional de Viborg (Dinamarca).
Os critérios de inclusão foram fratura do rádio distal de baixa energia, intra ou extra-articular, com desvio dorsal, diagnosticada por meio de radiografias em incidências lateral e posteroanterior, inclinação dorsal superior a 10° e/ou degrau articular superior a 2 mm e/ou encurtamento superior a 3 mm nas radiografias.
Os critérios de exclusão do estudo foram: recusa em participar da pesquisa, fratura exposta classificada acima do grau 1 de Gustilo; fraturas do tipo Chauffeur, Barton ou Smith, incapacidade de compreender orientações escritas e verbais nos idiomas locais e fratura patológica ou fratura prévia no mesmo punho ou antebraço.
Sensores acelerômetros (AX3, Axivity Ltd, Newcastle, Reino Unido) foram utilizados para medir a atividade de alta intensidade dos membros superiores de forma contínua (24 horas por dia, 7 dias por semana) por pelo menos 3 dias consecutivos, 3 e 12 meses após o início do tratamento da fratura.
O que demonstrou o estudo?
Ao todo, 157 pacientes e 59 controles saudáveis forneceram dados válidos de acelerometria. Aos 12 meses, pacientes com fraturas desalinhadas tratadas cirurgicamente apresentaram níveis significativamente mais altos de atividade de alta intensidade no membro superior afetado do que aqueles tratados de forma não cirúrgica (37 vs. 28 min/dia; diferença ajustada de 8,5 min/dia; intervalo de confiança [IC] de 95%: 0,3–17).
O alinhamento da fratura não apresentou associação significativa com a atividade. Em comparação com indivíduos saudáveis, os pacientes tratados cirurgicamente não apresentaram diferença clara (2,7 min/dia; IC: -8,3 a 14), ao passo que os pacientes tratados de forma não cirúrgica demonstraram níveis de atividade mais baixos (12 min/dia; IC: 4,4–20).
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Qual mensagem podemos levar para a prática?
O estudo é interessante por utilizar uma nova tecnologia para avaliação mais objetiva dos resultados em comparação com as PROMs. Apesar do tratamento cirúrgico se associar a um maior nível de atividade de alta intensidade dos membros superiores aos 12 meses em comparação com o tratamento não cirúrgico, o estudo se limitou a idosos maiores de 65 anos. Talvez essas informações seriam mais interessantes se avaliadas em pacientes jovens de maior demanda para avaliação de retorno ao esporte.
Autoria

Giovanni Vilardo Cerqueira Guedes
Editor médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), em 2016. Ortopedista, Cirurgião de Mão e Microcirurgião formado pelo Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (INTO). Mestre em Ciências Aplicadas ao Sistema Musculoesquelético. Atua como Staff do serviço de Cirurgia de Mão do INTO e Professor Substituto de Cirurgia de Mão na Universidade Federal Fluminense (UFF).
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