A reconstrução do ligamento cruzado anterior (LCA) é um dos procedimentos ortopédicos mais realizados no mundo, com cerca de 100 a 130 mil cirurgias anuais apenas nos Estados Unidos.
A reabilitação pós-operatória é reconhecidamente tão importante quanto a técnica cirúrgica para o sucesso do tratamento, mas um ponto permanece controverso: o uso de joelheira articulada ajustável nas primeiras semanas após a cirurgia. Será que esse dispositivo oferece benefícios reais ou é apenas um hábito baseado em crenças e tradição?
Pesquisadores do Rush University Medical Center e de outras instituições, conduziram uma revisão sistemática com metanálise de ensaios clínicos randomizados (nível I de evidência) para determinar se o uso de joelheira articulada ajustável no período pós-operatório precoce oferece benefícios mensuráveis em comparação à ausência de órtese.
Foram incluídos seis estudos, totalizando 384 pacientes, com seguimento médio de 21 meses (variando de 3 a 60 meses). O trabalho foi publicado em 2026 no Arthroscopy: The Journal of Arthroscopic and Related Surgery.

A joelheira melhora os escores funcionais e a qualidade de vida?
Não. A metanálise dos escores de Lysholm (presentes em todos os seis estudos) não demonstrou diferença significativa entre os grupos com e sem joelheira (diferença média de -0,48; p = 0,72). A heterogeneidade entre os estudos foi alta (I² = 79%), refletindo variações nas populações e protocolos, mas o resultado global é consistente: a órtese não trouxe benefício funcional.
Os escores de atividade de Tegner, embora não tenham sido submetidos a metanálise devido à sua natureza ordinal, também não mostraram tendência consistente favorável a qualquer um dos grupos.
A joelheira melhora a estabilidade do joelho?
Aqui houve uma diferença estatisticamente significativa, mas de magnitude duvidosa. A análise da diferença lado a lado (STSD) na translação tibial anterior, medida por artrômetros como o KT-1000, mostrou uma diferença de apenas -0,20 mm favorável ao grupo com joelheira (IC95% -0,36 a -0,04; p = 0,01).
A literatura considera que diferenças inferiores a 3 mm não têm significado clínico. Em outras palavras, a joelheira melhorou a estabilidade medida em laboratório, mas essa melhora é tão pequena que provavelmente não faz diferença na vida do paciente.
A joelheira influencia a força muscular ou a amplitude de movimento?
Não. As metanálises do torque isocinético de extensão (diferença média de 0,06%; p = 0,97) e de flexão (diferença média de 2,15%; p = 0,30) não mostraram diferenças significativas. A amplitude de movimento também foi comparável entre os grupos. Esses dados refutam o argumento de que a joelheira poderia comprometer a recuperação muscular ou a mobilidade, mas também mostram que ela não ajuda.
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A joelheira reduz o risco de rerruptura ou reoperação?
Não. As taxas de rerruptura foram semelhantes (2,9% no grupo com joelheira versus 3,6% no grupo sem). A taxa de reoperação, avaliada em três estudos, também não mostrou diferença significativa (OR 0,61; IC95% 0,29-1,26; p = 0,18). É importante notar que as reoperações relatadas foram procedimentos menores (debridamento de cartilagem, remoção de parafusos, artroscopia para dor persistente) e não revisões do enxerto.
A joelheira acelera o retorno ao esporte?
Dois estudos avaliaram o retorno ao esporte. O escore ACL-RSI (que mede o preparo psicológico para o retorno) foi semelhante entre os grupos (72,5 no grupo com joelheira versus 70,4 no grupo sem). O tempo médio para retorno ao esporte variou de 22 a 33 semanas, sem diferença estatística. Aparentemente, a confiança do paciente em voltar a jogar não depende da joelheira.
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Qual a mensagem prática para o cirurgião e o fisioterapeuta?
A metanálise avaliada é a mais rigorosa até o momento sobre o tema, ao restringir-se a estudos randomizados de nível I e a um único tipo de órtese (articulada ajustável). Os achados são claros: a joelheira não oferece benefícios clínicos relevantes em termos de função, força, amplitude de movimento, retorno ao esporte ou proteção contra rerruptura. A diferença mínima na estabilidade medida (0,20 mm) não tem impacto prático.
Para o paciente submetido a reconstrução isolada do LCA, sem lesões meniscais ou cartilagíneas associadas que exijam proteção específica, a joelheira articulada ajustável pode ser omitida sem prejuízo. Isso simplifica a reabilitação, reduz custos e evita o desconforto e a dependência de um dispositivo que, na melhor das hipóteses, oferece benefício psicológico, não físico.
Em casos com procedimentos concomitantes (sutura meniscal, enxerto osteocondral), a decisão deve ser individualizada, guiada pela necessidade de proteção das estruturas reparadas. Mas para a grande maioria dos pacientes, a evidência atual sugere que “menos é mais”.
Autoria

Rafael Erthal
Conteúdista médico na Afya. Médico formado na Universidade Federal Fluminense (UFF-RJ), especialista em Ortopedia e Cirugia do Joelho pelo Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (INTO-RJ), membro do grupo de cirurgia do joelho do INTO, membro titular da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) e da Sociedade Brasileira de Cirurgia do Joelho (SBCJ). Mestrado em ciências do Sistema Musculoesquelético pelo INTO. Delegado da Sociedade Brasileira de Cirurgia do Joelho (SBCJ) no Rio de Janeiro 2023-2024. Referência no atendimento à atletas profissionais de futebol do Rio de Janeiro, com atuação em clube da Série A desde 2021 como cirurgião de joelho. Responsável pelo retorno seguro ao esporte de atletas após lesões complexas de joelho.
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