Logotipo Afya
Anúncio
Ortopedia22 janeiro 2026

Controle da dor após reconstrução do LCA: o papel da infiltração local

Ensaio clínico mostra que infiltração local multimodal reduz dor e uso de opioides após reconstrução do LCA.
Por Rafael Erthal

A lesão do ligamento cruzado anterior (LCA) embora possa ser tratada de modo conservador em alguns pacientes, frequentemente requer cirurgia, especialmente em pacientes jovens e ativos. A técnica cirúrgica utilizada consiste em obter enxertos tendinosos para realizar uma reconstrução ligamentar. Diferentes tendões podem servir como enxertos, mas o uso dos tendões isquiotibiais (grácil e semitendíneo) é o mais popular em nosso meio. No pós-operatório é comum o relato de dor no sítio da retirada do enxerto tendinoso.  

O pós-operatório imediato, especialmente o controle da dor, exerce influência direta sobre a mobilização precoce, a adesão à fisioterapia e a percepção global do tratamento pelo paciente. Ainda assim, não existe consenso absoluto sobre a melhor estratégia analgésica a ser utilizada, sobretudo quando o enxerto utilizado é o dos isquiotibiais, frequentemente associado a dor adicional na face posterior da coxa. 

Esse cenário que um grupo de pesquisadores em Bangkok na Tailândia a investigar uma abordagem mais abrangente para analgesia pós-operatória. O estudo foi publicado em 2025 no “Journal of ISAKOS.” Trata-se de um ensaio clínico randomizado, duplo-cego, com alto nível metodológico, voltado a responder uma pergunta prática e extremamente relevante para a rotina do cirurgião do joelho. 

reconstrução do LCA

O que os autores buscaram responder?

O objetivo principal do estudo foi avaliar se a combinação de uma injeção local multimodal aplicada na região periarticular do joelho e na área posterior da coxa no trajeto dos isquiotibiais, associada ao bloqueio do canal do adutor, seria mais eficaz no controle da dor pós-operatória do que o bloqueio isolado. O foco esteve no período inicial após a cirurgia, com ênfase especial na dor medida 12 horas após o procedimento. 

Como o estudo foi realizado?

Entre junho de 2021 e setembro de 2023, quarenta pacientes entre 18 e 50 anos, todos submetidos à reconstrução artroscópica do LCA com enxerto autólogo dos isquiotibiais, foram incluídos no estudo. Os participantes foram randomizados em dois grupos. Um deles recebeu apenas o bloqueio do canal do adutor, técnica já amplamente utilizada. O outro grupo recebeu, além do bloqueio, uma injeção multimodal composta por anestésico local, anti-inflamatório e adrenalina, aplicada tanto ao redor do joelho quanto no trajeto de retirada dos tendões isquiotibiais. 

Todo o protocolo analgésico pós-operatório foi padronizado, assim como o programa de reabilitação, o que permitiu uma comparação mais precisa entre os grupos. 

O que os resultados mostraram na prática?

Os pacientes que receberam a infiltração multimodal apresentaram menores escores de dor nas primeiras 6, 12 e 24 horas, tanto em repouso quanto durante o movimento. Um dado particularmente relevante foi a redução significativa da dor na região póstero-medial da coxa, área frequentemente negligenciada, mas que impacta de forma importante o conforto do paciente nas primeiras horas após a cirurgia. 

Além disso, houve menor consumo de morfina no grupo que recebeu a injeção multimodal, assim como menor incidência de náuseas e vômitos no pós-operatório imediato. Esses resultados reforçam o potencial dessa abordagem em reduzir a dependência de opioides, um tema cada vez mais sensível na prática médica atual. 

E quanto à função do joelho?

Um ponto importante é que a melhora no controle da dor não se traduziu em prejuízo funcional. Na avaliação de seis semanas, não houve diferenças significativas entre os grupos quanto à amplitude de movimento ou aos escores funcionais, como IKDC e Lysholm. Isso sugere que o benefício analgésico ocorre principalmente no período inicial, sem interferir negativamente na recuperação funcional de curto prazo. 

Qual a mensagem final?

Este estudo reforça a ideia de que o controle da dor após a reconstrução do LCA pode ser pensado de forma mais ampla. A associação de injeções periarticulares e no sítio da retirada do enxerto mostrou-se eficaz e segura, embora estudos maiores e com seguimento mais prolongado ainda sejam necessários, os dados sugerem que essa estratégia pode ser promissora no controle da dor nas cirurgias de reconstrução do LCA. 

Autoria

Foto de Rafael Erthal

Rafael Erthal

Conteudista do Afya Whitebook desde 2017 ⦁  Residência em Ortopedia e Traumatologia pelo INTO ⦁  Especialista em cirurgia de joelho ⦁  Graduação em Medicina pela Universidade Federal Fluminense (UFF)

Como você avalia este conteúdo?

Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.

Compartilhar artigo

Referências bibliográficas

Newsletter

Aproveite o benefício de manter-se atualizado sem esforço.

Anúncio

Leia também em Ortopedia