As fraturas fisárias representam de 15% a 30% de todas as lesões ósseas na infância e são particularmente temidas pelo potencial de causar alterações no crescimento envolvendo desde deformidades angulares até discrepâncias de comprimento dos membros.
A classificação de Salter-Harris (SH), com seus cinco tipos, é a mais utilizada globalmente para classificar essas. No entanto, apesar de ser simples e já estabelecida, ela não contempla todos os padrões de fratura fisária. A classificação de Peterson, menos conhecida, inclui dois tipos adicionais: a fratura transmetafisária (predominante no rádio distal) e a lesão com perda parcial da fis, padrões que a SH não descreve. Mas será que a Peterson é tão confiável quanto a SH na prática clínica?
Pesquisadores do Hospital de Traumatologia e Ortopedia 21, do Instituto Mexicano de Seguro Social (IMSS), em Monterrey, México, conduziram um estudo transversal para comparar a consistência intra e interobservador das classificações de SH e Peterson. Os autores selecionaram 100 radiografias de lesões fisárias em crianças de 2 a 16 anos, atendidas no serviço de emergência pediátrica entre 2023 e 2024.
Ao todo, dez avaliadores incluindo cinco cirurgiões ortopédicos pediátricos com mais de cinco anos de experiência e cinco residentes de terceiro e quarto ano classificaram as fraturas segundo ambos os sistemas em duas rodadas independentes, com intervalo de oito semanas. O objetivo foi comparar a reprodutibilidade intra e interobservador entre as duas classificações. O trabalho foi publicado em 2026 no periódico Injury.
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As duas classificações são igualmente reprodutíveis?
Sim, com níveis de concordância muito semelhantes. Na avaliação intraobservador, o kappa de Fleiss para SH foi de 0,66 entre os especialistas e 0,61 entre os residentes; para Peterson, os valores foram 0,67 e 0,61, respectivamente, todos classificados como concordância “substancial” (0,61-0,80) para os especialistas e “moderada a substancial” para os residentes. A porcentagem média de concordância foi de 84,5% para SH e 83,9% para Peterson (p = 0,8), sem diferença estatisticamente significativa.
Na análise interobservador global (somando todas as avaliações), a SH apresentou kappa de 0,61 e a Peterson, 0,61, novamente, valores praticamente idênticos e na faixa de concordância substancial. Esses achados indicam que ambas as classificações são igualmente confiáveis, independentemente da experiência do avaliador.
A Peterson acrescenta algo à SH?
Sim, e esse é seu principal valor. A Peterson inclui tipos de fratura não descritos pela SH, como a lesão transmetafisária (tipo I de Peterson), que pode ser erroneamente classificada como SH tipo II, e a lesão com perda parcial da fise (tipo V de Peterson), que não tem correspondente na SH. No estudo, 13% das lesões seriam enquadradas como Peterson tipo I ou II, ampliando a capacidade diagnóstica e permitindo uma caracterização mais precisa de fraturas que poderiam passar despercebidas ou ser subestimadas pela SH.
Os autores ressaltam que, embora a SH seja mais difundida e simples, a Peterson oferece vantagens prognósticas, pois seu sistema inclui uma gradação de gravidade que pode auxiliar na predição do risco de parada fisária, algo que a SH não faz de forma direta. A associação das duas classificações poderia, portanto, melhorar a comunicação clínica e o planejamento terapêutico.
A experiência do observador influencia a concordância?
Pouco. Embora os especialistas tenham apresentado kappas ligeiramente superiores aos dos residentes, a diferença foi modesta. Na segunda rodada de avaliações, os residentes melhoraram seu desempenho, alcançando concordância substancial (kappa 0,65 para SH e 0,63 para Peterson), aproximando-se do nível dos especialistas. Isso sugere que ambas as classificações são de fácil aprendizado e aplicação, mesmo para profissionais em formação, e que a curva de aprendizado é curta.
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Qual a mensagem prática do estudo?
O estudo mexicano demonstra que a classificação de Peterson é tão confiável quanto a de Salter-Harris, com índices de concordância intra e interobservador equivalentes. Embora a SH continue sendo a mais utilizada por sua simplicidade e universalidade, a Peterson oferece informações adicionais sobre padrões de fratura não contemplados pela SH e pode contribuir para uma melhor avaliação prognóstica.
Os autores sugerem que ambas as classificações possam ser utilizadas de forma complementar na prática clínica, a SH para a comunicação inicial e a Peterson para a caracterização mais detalhada de lesões atípicas ou com potencial de desfecho desfavorável. A padronização do ensino e o uso combinado dos sistemas podem melhorar a precisão diagnóstica e, potencialmente, os desfechos dos pacientes.
Autoria

Rafael Erthal
Conteúdista médico na Afya. Médico formado na Universidade Federal Fluminense (UFF-RJ), especialista em Ortopedia e Cirugia do Joelho pelo Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (INTO-RJ), membro do grupo de cirurgia do joelho do INTO, membro titular da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) e da Sociedade Brasileira de Cirurgia do Joelho (SBCJ). Mestrado em ciências do Sistema Musculoesquelético pelo INTO. Delegado da Sociedade Brasileira de Cirurgia do Joelho (SBCJ) no Rio de Janeiro 2023-2024. Referência no atendimento à atletas profissionais de futebol do Rio de Janeiro, com atuação em clube da Série A desde 2021 como cirurgião de joelho. Responsável pelo retorno seguro ao esporte de atletas após lesões complexas de joelho.
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