Logotipo Afya
Anúncio
Oncologia31 maio 2026

ASCO 2026: Atualizações no câncer de próstata localizado

Maior momento de destaque do congresso americano (ASCO 2026) traz novidades importantes no tratamento perioperatório no segundo dia
Por Thiago Branco

Hoje iniciamos a plenária da ASCO! Trata-se de um dos momentos mais aguardamos na oncologia mundial, onde artigos com máximo potencial de mudança da prática clínica são divulgados. Vamos cobrir os 5 estudos selecionados, discutindo suas qualidades e potenciais desvantagens. 

O primeiro estudo da sessão foi o PROTEUS. Um artigo bastante ansiado no mundo da uro-oncologia, onde se avaliou a estratégia de tratamento perioperatória no câncer de próstata alto risco com deprivação androgênica associada aos novos inibidores orais. 

Vamos discutir os dados!  

Saiba mais: ASCO 2026: Câncer de próstata metastático: estudos com PARP

Apalutamida perioperatória no câncer de próstata localizado de alto risco: resultados do estudo PROTEUS 

O estudo PROTEUS foi desenvolvido para avaliar se a intensificação do tratamento perioperatório com apalutamida associada à terapia de privação androgênica (ADT) poderia melhorar os desfechos oncológicos no câncer de próstata localizado. Trata-se de um estudo fase III, multicêntrico, randomizado, duplo-cego e controlado por placebo. Foram incluídos pacientes com adenocarcinoma de próstata recém-diagnosticado, localizado de alto risco ou localmente avançado, candidatos à prostatectomia radical com linfadenectomia pélvica. 

Os participantes foram randomizados na proporção de 1:1 para receber ADT associada à apalutamida (240 mg ao dia) ou ADT associada a placebo. O tratamento foi administrado por seis ciclos de 28 dias antes da cirurgia e seis ciclos após a cirurgia, totalizando aproximadamente um ano de tratamento perioperatório. 

Entre julho de 2019 e junho de 2022, foram randomizados 2.109 pacientes, sendo 1.057 alocados para o grupo apalutamida e 1.052 para o grupo placebo. O seguimento mediano foi de 61,7 meses. A população estudada apresentava características de alto risco, com 95,8% dos pacientes exibindo escore de Gleason ≥8, 35,5% com estágio clínico T3 ou T4 e 12,3% com acometimento linfonodal regional ao diagnóstico. A mediana do PSA basal foi de 14,8 ng/mL.  

O estudo possuía dois desfechos primários. O primeiro foi a taxa de resposta patológica completa ou doença residual mínima após o tratamento neoadjuvante. Esse objetivo foi alcançado em 8,9% dos pacientes tratados com apalutamida associada à ADT, em comparação com apenas 1,0% daqueles que receberam ADT e placebo (OR 10,17; IC95% 5,27–19,64; p<0,001). Resposta patológica completa (ypT0) foi observada em 5,1% dos pacientes do grupo apalutamida e em 0,4% do grupo placebo. Além disso, margens cirúrgicas positivas ocorreram em 20,9% dos pacientes tratados com apalutamida, comparativamente a 42,7% no grupo controle.  

O segundo desfecho primário foi a sobrevida livre de metástases. A probabilidade de sobrevida livre de metástases em cinco anos foi de 78,2% no grupo experimental e de 73,5% no grupo placebo, representando uma redução de risco de 20% (HR 0,80; IC95% 0,67–0,96; p=0,02).  

A sobrevida livre de eventos apresentou mediana de 57,1 meses com apalutamida versus 38,4 meses com placebo (HR 0,71; IC95% 0,63–0,80; p<0,001). O tempo até o primeiro tratamento subsequente local ou sistêmico também favoreceu a estratégia experimental, com medianas de 74,2 e 41,5 meses, respectivamente. A recuperação dos níveis de testosterona após o tratamento foi semelhante entre os grupos. Os dados de sobrevida global permanecem imaturos. 

Quanto à segurança, eventos adversos de qualquer grau ocorreram em 98,8% dos pacientes tratados com apalutamida e em 97,8% daqueles que receberam placebo. Eventos adversos grau 3 ou 4 foram observados em 39,6% e 31,0% dos pacientes, respectivamente. Os eventos mais frequentes incluíram ondas de calor, incontinência urinária, disfunção erétil, fadiga, artralgia e rash cutâneo.  

rash foi significativamente mais comum no grupo apalutamida (21,2% versus 10,0%) e representou a principal diferença de toxicidade entre os grupos. Eventos adversos levaram à descontinuação do tratamento em 7,4% dos pacientes tratados com apalutamida e em 2,7% dos que receberam placebo. Eventos adversos fatais durante o período de tratamento ocorreram em 1,3% e 0,5% dos pacientes, respectivamente.  

Comentários 

O câncer de próstata localizado de alto risco ou localmente avançado apresenta elevada probabilidade de recorrência mesmo após tratamento com intenção curativa, com até 50% de recaída nos primeiros cinco anos com prostatectomia radical.  

PROTEUS demonstra uma estratégia de impacto em sobrevida livre de metástases, mantendo eficácia com um perfil de eventos adversos compatível com a prática clínica. É importante ressaltar que este dado é um desfecho substituto aceitável para sobrevida global, que permanece imatura.  

Por outro lado, devemos considerar críticas ao grupo controle, pois ADT perioperatório não é a prática clínica habitual, a qual muitos desses pacientes fariam período maior de bloqueio androgênico de forma adjuvante, eventualmente associado a antiandrogênico oral. 

Vamos aguardar mais maturidade de dados para avaliar se o benefício da intensificação do tratamento inicial suplanta o tratamento exclusivamente adjuvante ou a intensificação dos tratamentos realizados no resgate, como na recidiva bioquímica ou local. 

Autoria

Foto de Thiago Branco

Thiago Branco

Thiago Branco é médico formado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), com residência em Clínica Médica pela mesma instituição e em Oncologia pelo Instituto Nacional do Câncer (INCA) ⦁ Contato profissional: profissional [email protected] ⦁ Instagram: @Branco_T

Como você avalia este conteúdo?

Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.

Compartilhar artigo

Referências bibliográficas

Newsletter

Aproveite o benefício de manter-se atualizado sem esforço.

Anúncio

Leia também em Oncologia