O segundo dia da ASCO 2026 trouxe discussões relevantes sobre novos tratamentos para o câncer de próstata metastático, com destaque para estratégias relacionadas a alterações nos mecanismos de reparo do DNA. As apresentações reforçaram o interesse crescente da uro-oncologia pela incorporação da avaliação oncogenômica ao tratamento da doença, em associação às terapias hormonais já utilizadas há décadas nesse cenário.
Entre os dados apresentados, dois estudos chamaram atenção: o TALAPRO-3, no câncer de próstata metastático castração-sensível com alterações em genes de reparo do DNA, e o FUZUPRO, em primeira linha do câncer de próstata metastático resistente à castração.
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TALAPRO-3 avaliou talazoparibe associado à enzalutamida
O estudo fase III TALAPRO-3 avaliou a combinação de talazoparibe, um inibidor da PARP, com enzalutamida em pacientes com câncer de próstata metastático castração-sensível (mCSPC) e alterações em genes envolvidos na reparação por recombinação homóloga (HRR).
O racional do estudo partiu de resultados observados previamente no cenário resistente à castração, no TALAPRO-2, em que a combinação de um inibidor da PARP com terapia antiandrogênica demonstrou benefício clínico, especialmente em pacientes com alterações em BRCA1 e BRCA2.
Foram randomizados 599 pacientes para receber talazoparibe 0,5 mg associado à enzalutamida 160 mg ao dia ou placebo associado à enzalutamida. Todos os participantes recebiam terapia de privação androgênica concomitante. O desfecho primário foi sobrevida livre de progressão radiográfica (rPFS), avaliada pelo investigador.
Os grupos estavam bem balanceados. Aproximadamente um terço dos pacientes apresentava mutações em BRCA1 ou BRCA2, enquanto os demais tinham alterações em outros genes de reparo do DNA, incluindo ATM, CDK12, CHEK2, PALB2 e FANCA.
A combinação de talazoparibe e enzalutamida reduziu em 52% o risco de progressão radiográfica ou morte quando comparada à enzalutamida isolada (HR 0,48; IC95% 0,35–0,67; p<0,0001). A mediana de rPFS ainda não havia sido alcançada no braço experimental, enquanto foi de 27,0 meses no grupo controle.
O benefício foi descrito em praticamente todos os subgrupos pré-especificados avaliados. A análise interina de sobrevida global mostrou tendência favorável ao tratamento combinado (HR 0,77), mas os dados ainda eram imaturos. Também houve prolongamento significativo do tempo até progressão do PSA, maior taxa de resposta bioquímica e maior duração de resposta em pacientes com doença mensurável.
Os eventos adversos mais frequentes foram anemia, fadiga, neutropenia e leucopenia. Eventos hematológicos levaram com frequência a reduções de dose, mas cerca de 5% dos pacientes descontinuaram definitivamente o talazoparibe devido à anemia.
FUZUPRO analisou fuzuloparibe com abiraterona e prednisona
O estudo FUZUPRO avaliou a eficácia do fuzuloparibe, outro inibidor oral da PARP, combinado à abiraterona e prednisona (AA-P) como tratamento de primeira linha para pacientes com câncer de próstata metastático resistente à castração (mCRPC), independentemente do status de deficiência de recombinação homóloga (DRH).
Trata-se de um estudo internacional, randomizado e duplo-cego. Foram incluídos 466 pacientes, randomizados para receber fuzuloparibe associado à abiraterona e prednisona ou placebo associado ao mesmo tratamento hormonal. O desfecho primário foi sobrevida livre de progressão radiográfica.
Na análise interina, a combinação contendo fuzuloparibe prolongou significativamente a rPFS em comparação ao tratamento padrão com abiraterona e prednisona. O benefício foi observado na população global e mostrou-se particularmente pronunciado em pacientes com DRH, especialmente naqueles com mutações em BRCA1 e BRCA2, como observado em outros estudos com inibidores de PARP.
A análise de sobrevida global ainda não demonstrou vantagem significativa. Outros desfechos secundários, incluindo tempo para progressão do PSA e necessidade de terapias subsequentes, favoreceram a combinação contendo fuzuloparibe.
O perfil de toxicidade foi considerado compatível com a classe terapêutica. Os eventos adversos mais frequentes foram hematológicos, incluindo anemia, trombocitopenia e neutropenia. Eventos adversos grau 3 ou superior foram mais comuns no braço experimental, sem identificação de novos sinais de segurança.
Comentários sobre os estudos
Os inibidores de PARP seguem ganhando espaço no tratamento do câncer de próstata metastático, especialmente em subgrupos com alterações em genes de reparo do DNA. No entanto, os dados apresentados também mantêm pontos de discussão relevantes para a prática clínica.
Mais uma vez, chama atenção a ausência de benefício claro em pacientes sem deficiência em mecanismos de reparo do DNA. Além disso, os dados de benefício em sobrevida para mutações não BRCA1 e BRCA2 permanecem conflitantes.
No TALAPRO-3, a ausência, até o momento, de demonstração de ganho em sobrevida global mantém em aberto a discussão sobre o melhor momento de incorporação da medicação: no cenário castração-sensível ou resistente à castração.
Considerando os efeitos colaterais, especialmente hematológicos, os dados ainda favorecem uma análise cautelosa sobre tempo de exposição, seleção de pacientes e impacto clínico dos desfechos observados. A maturidade dos dados de sobrevida global e novos estudos poderão ajudar a esclarecer melhor o papel dessas combinações na sequência terapêutica do câncer de próstata metastático.
Autoria

Thiago Branco
Thiago Branco é médico formado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), com residência em Clínica Médica pela mesma instituição e em Oncologia pelo Instituto Nacional do Câncer (INCA) ⦁ Contato profissional: profissional [email protected] ⦁ Instagram: @Branco_T
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