A principal causa de baixa visão em pacientes diabéticos é o edema macular diabético (EMD). O EMD é uma exsudação que ocorre na mácula dos pacientes devido à ruptura da barreira hemato-retiniana por meio de danos aos pericitos do endotélio capilar da retina. As moléculas pró-inflamatórias, como, por exemplo, o fator de crescimento endotelial vascular (VEGF), desempenham papel fundamental na fisiopatologia dessa exsudação.
A terapia anti-VEGF para EMD, revolucionou o tratamento, proporcionando melhora drástica no prognóstico desses pacientes. O principal inconveniente do tratamento com anti-VEGF é a periodicidade das visitas e injeções intravítreas a cada 4–6 semanas, que acaba interferindo negativamente na rotina de cuidados dos pacientes diabéticos.
Recentemente, o Faricimab (Vabysmo®, Roche AG, Basel, Suíça) foi aprovado pela Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos e pela Agência Europeia de Medicamentos para o tratamento do EMD. O Faricimab é um novo agente biespecífico anti-VEGF e anti-angiopoietina-2 (Ang-2), ambas moléculas com papel importante no mecanismo de aumento da permeabilidade vascular.
Em retinas saudáveis, Ang-2 é expressa em níveis muito baixos no plexo vascular profundo. No entanto, a hipóxia e a hiperglicemia presente em diabéticos podem induzir um ambiente retiniano pró-inflamatório que promove a expressão de Ang-2.
Na presença de outras moléculas de sinalização pró-inflamatórias, a atividade de Ang-2 é aumentada, o que também leva à perda de pericitos e ao enfraquecimento das junções de células endoteliais. Ang-2 amplifica a resposta do VEGF à medida que os vasos retinianos se tornam mais sensíveis ao VEGF por meio da atividade de Ang-2.
Estudos experimentais mostram que a ausência de Ang-2 atenua a adesão de leucócitos induzida por citocina e o vazamento vascular induzido por VEGF. Essas descobertas pré-clínicas apoiam o papel fisiopatológico de Ang-2 no EMD e fornecem uma justificativa para uma duração mais longa da terapia com Faricimab.
A aprovação da FDA foi baseada nos dois ensaios de fase 3, YOSEMITE e RHINE, que compararam o Aflibercept (Eylia®) em um regime de dose fixa a cada oito semanas ao Faricimab em um regime de dose fixa a cada oito semanas e ao Faricimab em um regime de tratamento e extensão. Ambos os estudos demonstraram que o Faricimab em um regime de tratar e estender foi superior ao Aflibercept em um regime fixo.
O objetivo do estudo foi avaliar os resultados do tratamento com Faricimab no mundo real, uma vez que os resultados podem divergir daqueles que se enquadram nos critérios de elegibilidade rigorosos de ensaios clínicos.
Métodos
Realizada revisão sistemática de artigos publicados em inglês, em pacientes com EMD submetidos à terapia de injeção intravítrea usando Faricimabe 6 mg (0,05 mL). Todos os estudos publicados prospectivos ou retrospectivos com dados originais de evidências do mundo real foram incluídos. Também foram inclusos relatos de casos e resumos de conferências.
Resultado e Discussão
A revisão sistemática se deu baseada em dez estudos considerados elegíveis pelos autores. Os relatórios de evidências do mundo real compreenderam seis artigos originais de texto e seis resumos de conferências, que incluíram um total de 6.054 olhos de 5.167 pacientes.
A idade média variou entre 62 e 69 anos. A média de acompanhamento dos pacientes foi entre 55 dias e 12 meses. Assim, cinco estudos relataram resultados em uma população de olhos não tratados e previamente tratados, e cinco estudos relataram resultados exclusivamente em relação a olhos previamente tratados.
Os regimes de tratamento investigados em todos os estudos estavam sujeitos a uma grande variação, alguns estudos relataram resultados de uma única injeção, várias injeções consecutivas ou terapia conforme a necessidade em um período de acompanhamento mais longo.
O Faricimab, quando comparado com outras terapias anti-VEGF no tratamento do EMD, proporciona um nível semelhante de eficácia, ou seja, melhora da melhor acuidade visual corrigida e da espessura macular, porém com menos injeções intravítreas realizadas para alcançar o mesmo resultado.
A extensão do intervalo de tratamento foi possível em 61–81% dos olhos sem tratamento prévio e 36–78% dos olhos tratados anteriormente. Após um ano, o grupo de tratamento e extensão do Faricimab foi capaz de estender os intervalos de tratamento para cada 12 semanas em 20,1–21,0% dos casos e para cada 16 semanas em 51,0–52,8% dos casos.
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Limitações
- A revisão foi realizada com base em apenas dez estudos, com curto prazo de seguimento, e apenas um estudo forneceu insights sobre os resultados além de seis meses, e o acompanhamento mais longo foi de um ano. Além disso, cinco dos estudos são resumos de conferências, que não são revisados por pares.
- Os estudos apresentaram grande variabilidade da metodologia o que dificulta a interpretação dos dados.
- Alguns dos estudos selecionados, que abordaram pacientes que já estavam em vigência de terapia com anti-VEGF, não informaram as razões para a troca de terapia.
- Determinados estudos selecionados não relataram os dados da melhor acuidade visual corrigida antes e após o tratamento e não avaliaram a significância estatística das alterações.
Impactos na prática clínica
O Faricimab, quando comparado com outras terapias anti-VEGF no tratamento do EMD, proporciona um nível semelhante de eficácia, com um número menor de injeções intravítreas. Considerando que com o envelhecimento da população é esperado um aumento do número de casos de maculopatias exsudativas, soluções que diminuam o número de visitas são extremamente vantajosas não apenas para o paciente, mas também para diminuir a sobrecarga dos centros de saúde.
Conclusão
O Faricimab, quando comparado com outras terapias anti-VEGF no tratamento do EMD, proporciona um nível semelhante de eficácia, ou seja, melhora da melhor acuidade visual corrigida e da espessura macular, porém com menos injeções intravítreas realizadas para alcançar o mesmo resultado. Estudos no cenário de mundo real, com maior tempo de seguimento são necessários.
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