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Neurologia24 julho 2026

Oxigênio conservador após parada cardíaca não melhora desfechos

Estudo avaliou os efeitos do controle da a exposição ao oxigênio em pacientes irresponsivos após a ressuscitação de uma parada cardíaca
Por Danielle Calil

A hipótese de que restringir a exposição ao oxigênio após parada cardíaca poderia proteger o cérebro contra a lesão de reperfusão ganhou força nos últimos anos, embasada em dados de estudos animais e análises secundárias de ensaios clínicos.

Contudo, a evidência direta em pacientes de UTI ainda era escassa. Para preencher essa lacuna, o New England Journal of Medicine publica em junho de 2026 o trial LOGICAL (Low Oxygen Intervention for Cardiac Arrest Injury Limitation), o maior ensaio clínico randomizado desenhado especificamente para esse questionamento.

Oxigênio conservador após parada cardíaca não melhora desfechos

Imagem de magnific

Metodologia do estudo

Trata-se de ensaio clínico randomizado, multicêntrico, aberto e com avaliação cega de desfechos, conduzido em 53 centros de terapia intensiva da Austrália, Nova Zelândia e Irlanda, entre setembro de 2021 e junho de 2024.

Foram elegíveis adultos (≥ 18 anos) em ventilação mecânica na UTI após parada cardíaca com suspeita de encefalopatia hipóxico-isquêmica. A randomização ocorreu em até 12 horas após o preenchimento dos critérios, com os participantes alocados em dois grupos:

  • Grupo oxigênio conservador: alarme de saturação de oxigênio (SpO₂) ativado a partir de 95%; fração inspirada de oxigênio (FiO₂) reduzida a 0,21 sempre que a saturação estivesse acima do limite inferior (90%).
  • Grupo oxigênio liberal: sem limite superior de SpO₂; FiO₂ mínima de 0,3 durante a ventilação mecânica.

Em ambos os grupos, o limite inferior de SpO₂ foi fixado em 90%.

O desfecho primário foi sobrevida com desfecho funcional favorável em 180 dias, definido como escore ≥ 5 na Extended Glasgow Outcome Scale (GOS-E), correspondente a “incapacidade moderada leve” ou melhor.

Já os desfechos secundários incluíram mortalidade por todas as causas e por causa específica em 180 dias, duração da sobrevida até o último seguimento, qualidade de vida e cognição em 180 dias — avaliadas pelo EuroQol 5D-5L (EQ-5D-5L) e pelo Montreal Cognitive Assessment versão blind (MoCA-blind), respectivamente, duração de ventilação mecânica, tempo de internação em UTI e hospitalar, e taxa de alta diretamente para domicílio.

Resultados

A população por intenção de tratar incluiu 1.821 pacientes (873 no grupo conservador e 948 no liberal), com grupos bem equilibrados nas características basais de idade média de 60 anos, ~71% do sexo masculino, ~74% com parada extra-hospitalar.

A separação entre os grupos em termos de exposição ao oxigênio foi real e relevante: pacientes no grupo conservador permaneceram com SpO₂ ≥ 97% em mediana de 21,2% das horas monitoradas versus 53% no grupo liberal. A FiO₂ de 0,21 foi utilizada em 38,8% das horas no grupo conservador, comparada a praticamente zero no liberal.

Apesar dessa diferença de exposição, o desfecho primário não diferiu entre os grupos:

  • Grupo conservador: 38,2% com desfecho favorável (GOS-E ≥ 5) em 180 dias (313/819 pacientes)
  • Grupo liberal: 39,7% (353/890 pacientes)

Portanto, risco relativo: 0,97 (IC 95%: 0,87–1,09; p = 0,65) — resultado compatível com ausência de efeito, uma vez que o intervalo de confiança cruza 1,0 e o p-valor está muito acima do limiar de significância.

Quanto aos desfechos secundários, os resultados também foram semelhantes: mortalidade em 180 dias (~51% em ambos os grupos), qualidade de vida, cognição avaliada pelo MoCA-blind, tempo de ventilação mecânica, dias de UTI e de hospital, e taxa de alta para domicílio. Nenhum evento adverso foi atribuído ao protocolo. A análise de subgrupos, estratificada por local da parada, ritmo inicial, causa e tempo até randomização, foi consistente com o resultado principal.

Comentários

O LOGICAL demonstra, em uma amostra expressiva e com separação real de exposição entre os grupos, que a restrição de oxigênio na UTI não se traduz em benefício clínico para pacientes irresponsivos após parada cardíaca. Esse resultado é consistente com dados de estudos prévios e reforça que o momento de início da estratégia conservadora tampouco parece modificar o desfecho.

Entre as limitações apontadas pelos autores, destaca-se a ocorrência de desvios de protocolo em 26,3% dos pacientes do grupo conservador, nos quais a FiO₂ não foi adequadamente reduzida quando a SpO₂ estava ≥ 95% — o que pode ter atenuado a separação entre os grupos. Além disso, o estudo foi conduzido em países com sistemas de saúde similares (Austrália, Nova Zelândia e Irlanda), o que limita a generalização para outros contextos de infraestrutura.

Leia também: Oxigênio na ventilação mecânica – Estratégia conservadora versus liberal

Mensagem final

O ensaio clínico LOGICAL não encontrou benefício da oxigenioterapia conservadora em relação à liberal para pacientes irresponsivos após parada cardíaca na UTI. Na prática, isso significa que:

  • Evitar hipoxemia (SpO₂ < 90%) permanece a meta principal, pois não há evidência para perseguir uma faixa ainda mais restrita de saturação como estratégia neuroprotetora;
  • Não há respaldo para reduzir ativamente a FiO₂ com o objetivo de limitar a SpO₂ abaixo de 95% nesses pacientes;
  • Os dados disponíveis, incluindo o LOGICAL, sugerem que a estratégia de oxigenação, seja conservadora ou liberal, não é o fator determinante do desfecho neurológico pós-PCR na UTI.

Autoria

Foto de Danielle Calil

Danielle Calil

Conteudista médica na Afya. Formada em medicina pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com residência médica em Neurologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Fellow em Neurologia Cognitiva e Anormalidades do Movimento pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Mestre no Programa de Pós Graduação em Ciências Aplicadas à Saúde do Adulto na UFMG e, atualmente, cursando o doutorado na mesma instituição. Além da atuação na Afya, também atende em consultório particular e em rede secundária no SUS.

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