A avaliação dos movimentos oculares em pacientes comatosos fornece informações valiosas para localização topográfica da lesão e diferenciação entre causas estruturais e metabólicas. A análise sistemática inclui posição ocular em repouso, movimentos espontâneos, reflexos oculocefálico e oculovestibular.
Padrões de movimentos oculares e correlação topográfica:
- Movimentosoculares espontâneos
- Movimentos erráticos (roving): Movimentos lentos, conjugados e horizontais indicam tronco encefálico intacto, sugerindo lesão supratentorial ou encefalopatia metabólica/tóxica.
- Ocular bobbing: Movimento rápido para baixo seguido de retorno lento à posição média. Classicamente associado a lesões pontinas, mas pode ocorrer em hemorragia cerebelar com compressão pontina, não sendo específico para lesão intrapontina.
- Ocular bobbing reverso: Movimento lento para baixo com retorno rápido para cima, associado a lesões pontinas ou encefalopatia metabólica.
- Ocular dipping: Movimento lento para baixo com retorno lento, visto em encefalopatia anóxica difusa.
- Desvioconjugado do olhar
- Desvio ipsilateral à hemiparesia: Sugere lesão hemisférica frontal (campos oculares frontais) – “os olhos olham para a lesão”.
- Desvio contralateral à hemiparesia: Sugere lesão pontina (PPRF) – “os olhos olham para a hemiparesia”.
- Desvio contralateral durante crise epiléptica: Os olhos desviam para o lado oposto ao foco ictal.
- Skew deviation (desalinhamento vertical)
- Indica fortemente lesão de tronco encefálico ou cerebelo, resultante de desequilíbrio vestibular central.
- Lesões pontobulbares caudais: Olho ipsilateral mais baixo (ipsiversivo).
- Lesões pontomesencefálicas rostrais: Olho contralateral mais baixo (contraversivo).
- Paralisias do olhar conjugado
- Paralisia horizontal unilateral: Lesão da formação reticular pontina paramediana (PPRF) ou núcleo do VI nervo ipsilateral – perda de sacadas horizontais ipsilaterais.
- Paralisia vertical: Lesão mesencefálica (núcleo intersticial rostral do FLM para sacadas verticais, núcleo intersticial de Cajal ou comissura posterior).
- Oftalmoplegia internuclear: Lesão do fascículo longitudinal medial (FLM) – adução ipsilateral comprometida com nistagmo do olho em abdução.
- Síndrome um-e-meio: Lesão pontina envolvendo PPRF/núcleo do VI + FLM ipsilateral.
- Reflexosoculocefálico e oculovestibular
- Reflexo oculocefálico preservado (olhos de boneca): Indica tronco encefálico intacto (mesencéfalo e ponte); sugere lesão supratentorial ou encefalopatia metabólica.
- Reflexo oculovestibular (calórico) preservado: Desvio tônico dos olhos para o lado irrigado com água gelada confirma integridade do tronco baixo. Ausência de nistagmo (fase rápida) é esperada no coma verdadeiro; presença de nistagmo sugere coma psicogênico.
- Reflexos abolidos: Indica lesão estrutural de tronco encefálico ou morte encefálica. A combinação de reflexo oculovestibular abolido + reflexo pupilar abolido prediz desfecho negativo em 100% dos casos.
Diferenciação entre coma estrutural e metabólico:
Valor prognóstico
A preservação do reflexo oculovestibular está associada a melhor prognóstico, independentemente da causa do coma, com até 67% de desfecho favorável. A abolição dos reflexos oculovestibular e pupilar combinados prediz mortalidade em 92-100% dos casos.
Autoria

Victor Fiorini
Médico formado pela Escola Paulista de Medicina/UNIFESP. Residência de Clinica Médica pela UNIFESP. Residência de Neurologia Clínica pelo HCFMUSP. Professor de Neurologia na Afya Educação Médica. Professor de Urgências e Emergências do Hospital Israelita Albert Einstein. Professor de Neurologia do Curso de Medicina do Centro Universitário São Camilo (2013-2024). Autor de capítulos de Livros na Área de Neurologia. Médico do Corpo Clínico dos Hospitais Albert Einstein, Sírio-Libanês e Vila Nova Star.
Como você avalia este conteúdo?
Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.
