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Meningites e encefalites são emergências médicas bastante frequentes na prática clínica. O reconhecimento precoce e a pronta instituição de tratamento adequado são, portanto, fundamentais na redução da morbimortalidade associada a tais condições.
Apesar de poderem ocorrer ao mesmo tempo, estas doenças não são necessariamente iguais e têm etiologias diversas que implicam diretamente no tratamento e consequente prognóstico.
Definição e como diferenciar:
Encefalite:
É um diagnóstico patológico, a encefalite é definida como uma inflamação do parênquima cerebral associada com disfunção neurológica. Para facilitar o diagnóstico à beira leito, porém, o International Encephalitis Consortium definiu alguns critérios clínicos que são:
- Estado mental alterado: alteração do nível de consciência, letargia ou mudança de personalidade.
Pelo menos 2 dos seguintes critérios: - Febre (> 38 ° C dentro de 72 horas da apresentação);
- Crise epiléptica não atribuível a transtorno epiléptico preexistente;
- Novo déficit neurológico focal;
- Pleocitose no líquido cefalorraquidiano (LCR);
- Imagem e/ou EEG consistente com encefalite.
Meningite:
É um processo inflamatório que acomete as meninges. Os sinais clínicos de meningite incluem febre, cefaleia, rigidez de nuca e vômitos com ou sem fotofobia. Nem todos os pacientes apresentam todos os sinais e sintomas cardinais.
Dicas:
- O paciente com meningite sem encefalite pode estar desconfortável ou distraído pela cefaleia, mas com função cerebral normal;
- Crise convulsiva pode ocorrer em qualquer um dos casos, porém, geralmente são manifestações tardias na meningite;
- Encefalopatia é o termo clínico para um estado confusional sem localização de déficit neurológico e não implica etiologia, podendo muitas vezes ser secundária a uma doença sistêmica.
Classificação e etiologias
Podemos classificar os quadros de meningoencefalite de diferentes formas, destacando-se a abordagem em relação à etiologia e ao tempo.
1. Infecciosa X Não infecciosa:
->Infecciosa: Ex. viral (CMV, EBV, HIV, HSV, VZV, etc), bacteriana (como Streptococcus pneumoniae e Neisseria meningitidis), por tuberculose, fúngica, por protozoários.
-> Não infecciosa:
Ex. Meningite medicamentosa, meningite carcinomatosa;
Encefalite mediada por anticorpos com alvos específicos para o SNC (VGKC, NMDA…), doenças autoimunes sistêmicas que podem se apresentar como encefalite viral, ADEM.
2. Aguda X Crônica:
->Aguda: Duração inferior a 4 semanas.
->Crônica: Duração superior a 4 semanas.
->Não existe um consenso quanto ao prazo específico para o termo subaguda, mas duraria mais do que a aguda (dias) e menos que a crônica (4 semanas).
Dicas:
- Meningite asséptica se refere a pacientes com evidência clínica e laboratorial de um processo inflamatório meníngeo, porém sem identificação do agente. A causa mais comum são enterovírus; o prognóstico é, em geral, bom (diferente da encefalite viral não tratada ou tratada tardiamente);
- A meningite asséptica pode ocorrer de forma recorrente (Meningite recorrente de Mollaret);
- As alterações de imagem na encefalite podem se associar a etiologias específicas (Ex. Envolvimento do lobo temporal -> sugere encefalite por HSV; envolvimento do tálamo e núcleos da base -> doença de Creutzfeld-Jacob, arbovirus e tuberculose; presença de hidrocefalia pode sugerir infecção não viral -> bactérias, fungos e parasitas).
Meningite bacteriana aguda x encefalite viral. Por que diferenciar?
Estima-se que ocorram cerca de 500 mil casos/ano de meningite bacteriana em todo o mundo, dos quais mais de 1/3 morrem (170mil) e muitos sobreviventes ficam com sequelas neurológicas. Diante desse quadro, o início precoce de antibiótico empírico e, muitas vezes, o tratamento com corticosteroides são críticos na gestão dos pacientes.
Leia mais: Como diagnosticar encefalites auto-imunes?
A cobertura com antibióticos deve levar em consideração a idade do paciente, realização de procedimentos neurocirúrgicos, história de otite/sinusite, imunocompetência. Porém, além da meningite bacteriana aguda, sabe-se que a encefalite por HSV-1 é a causa mais comum identificada de encefalite fatal esporádica, representando aproximadamente 10% de todos os casos nos Estados Unidos, por exemplo.
O reconhecimento precoce é importante porque a eficácia do tratamento antiviral com Aciclovir na redução da morbidade e mortalidade diminui à medida que a doença neurológica progride. Portanto, diante da suspeita de quadro agudo infeccioso do SNC, deve-se sempre questionar se há encefalite isolada ou associadamente e, do mesmo modo que para o quadro bacteriano, se houver quadro clínico compatível temos que iniciar empiricamente o uso de Aciclovir endovenoso.
Dicas:
- LCR e culturas devem, a priori, sempre ser colhidos nesses pacientes, porém não devemos esperar o resultado para iniciar a terapia em casos suspeitos;
- Avaliar se há contraindicação à coleta do LCR antes do procedimento;
- Após o resultado dos exames e, a depender da resposta clínica ao tratamento medicamentoso, avalie a necessidade de complementar a investigação em busca de outras etiologias não infecciosas, como síndromes paraneoplásicas, ou infecciosas menos comuns, como tuberculose ou fungos (normalmente evolução subaguda ou crônica, mas o início pode ser similar às agudas).
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Referências:
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- Giovane, R A; Lavender, PD. Central Nervous System Infections. Prim Care Clin Office Pract – (2018).
Piquet, A L; Lyons, J L. Infectious Meningitis and Encephalitis. Semin Neurol 2016;36:367–372. - Richie, M B; Josephson, A. A Practical Approach to Meningitis and Encephalitis. Semin Neurol 2015;35:611–620.
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