Pesquisadores da Unesp e de instituições de Alagoas identificaram um padrão atípico de desenvolvimento auditivo e linguístico em crianças com microcefalia por zika. O estudo, publicado em junho de 2026 no Brazilian Journal of Otorhinolaryngology, avaliou o potencial evocado auditivo cortical e o desenvolvimento da linguagem. As alterações encontradas se associaram a pior desempenho comunicativo.
A pesquisa transversal, realizada no Nordeste, comparou dez crianças com microcefalia e quadro clínico compatível com provável síndrome congênita pelo vírus Zika a dez controles pareados por faixa etária e sexo. Os estímulos foram as sílabas “ba” e “da” e a linguagem foi medida pela Early Language Milestone Scale (ELM). Avaliadores cegos ao grupo marcaram os picos das ondas, para reduzir o risco de viés na análise.

Potencial evocado auditivo cortical revela latências prolongadas em N1 e P2
O complexo P1-N1-P2 apareceu em todas as crianças, achado compatível com a decodificação de informação silábica. No grupo com microcefalia por zika, porém, N1 e P2 tiveram latências mais longas e N1 teve amplitude maior. A diferença em relação aos controles foi significativa, independentemente da sílaba e da orelha.
Para os autores, a alteração no componente N1 pode indicar comprometimento do mecanismo cortical automático envolvido na detecção da transição entre silêncio e som. Esse componente é essencial para perceber pausas e diferenças acústicas sutis da fala.
Como o desenvolvimento da linguagem se relaciona com a resposta cortical?
Na escala ELM, o grupo com com microcefalia associada ao Zika falhou em todos os itens receptivos e expressivos, enquanto todos os controles foram aprovados. Os autores consideram o resultado compatível com atraso no desenvolvimento auditivo e de linguagem.
Escores menores na escala acompanharam latências mais longas de N1 e P2, segundo a análise de correlação. Para os autores, o resultado mostra a ligação entre aspectos neurofisiológicos e comportamentais da audição e da linguagem.
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Transmissão na via auditiva fica reduzida no grupo com zika
Os pesquisadores também usaram o Smart Tools EP, software de análise automatizada, para aplicar a transformada rápida de Fourier (FFT) aos registros. No grupo com microcefalia associada ao Zika, a resposta teve característica espectral muito inferior à dos controles. O achado indica prejuízo na transmissão da informação acústica da fala pela via auditiva.
Os autores defendem novos estudos para estabelecer critérios normativos para essas medidas. Esses parâmetros devem ajudar o clínico a diferenciar padrões típicos, variantes normais e alterações patológicas na via auditiva de crianças com microcefalia por zika.
Evidências ainda pedem cautela
Para a médica de Família e Comunidade Giovanna Tiemy, os resultados devem ser interpretados considerando o número reduzido de participantes, com apenas dez crianças em cada grupo, e o delineamento transversal. Embora tenham sido identificadas associações entre as respostas corticais e o desempenho linguístico, o estudo não permite estabelecer relações causais nem definir critérios diagnósticos para aplicação dessas medidas na prática clínica.
Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão da Equipe Afya.
Autoria

Luciano Lucas
Editor de conteúdo da Afya. Jornalista formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
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