Logotipo Afya
Anúncio
Neurologia25 agosto 2026

Doença de Creutzfeldt-Jakob: avanços no diagnóstico e perspectivas terapêuticas

Neste artigo trazemos o que há de mais atual sobre a doença de Creutzfeldt-Jakob, doença neurodegenerativa rara e rapidamente progressiva
Por Johnatan Felipe

A doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ) é uma doença neurodegenerativa rara, rapidamente progressiva e fatal, pertencente ao grupo das doenças priônicas. Diferentemente de outras doenças neurodegenerativas, sua fisiopatologia está relacionada à alteração conformacional de uma proteína normalmente presente no organismo, a proteína priônica celular (PrP^C), que passa a assumir uma conformação anormal e capaz de induzir o mesmo processo em outras moléculas.

Embora rara, a DCJ ocupa posição importante entre os diagnósticos diferenciais das síndromes demenciais rapidamente progressivas. Além de sua evolução clínica particularmente agressiva, os avanços das últimas décadas modificaram substancialmente a possibilidade de diagnóstico em vida. Métodos como a ressonância magnética com sequências de difusão e, principalmente, o real-time quaking-induced conversion (RT-QuIC) permitiram substituir uma abordagem predominantemente baseada em marcadores indiretos de lesão neuronal por técnicas capazes de demonstrar atividade de semeadura da própria proteína priônica anormal.

Mais recentemente, o campo começa a atravessar uma segunda transformação. Biomarcadores periféricos e estudos em indivíduos pré-sintomáticos estão sendo desenvolvidos paralelamente às primeiras estratégias terapêuticas direcionadas à redução da produção de proteína priônica, levantando a possibilidade futura de intervenção modificadora da doença.

Leia também: Alzheimer de início precoce: por que o diagnóstico exige um olhar diferente?

Doença de Creutzfeldt-Jakob: avanços no diagnóstico e novas perspectivas terapêuticas

Imagem de kjpargeter/freepik

Da proteína normal à propagação priônica

A base da fisiopatologia das doenças priônicas é a conversão da proteína priônica celular normalmente dobrada, PrPᶜ, em formas patológicas, habitualmente denominadas PrPˢᶜ. Essas proteínas anormais passam a recrutar moléculas adicionais de PrPᶜ, favorecendo sua conversão e formação de agregados.

A presença da PrPᶜ é fundamental para esse processo. Modelos experimentais deficientes nessa proteína são resistentes à infecção priônica e a redução da expressão do gene PRNP, responsável por sua produção, prolonga o período de incubação e retarda o desenvolvimento da doença. Esse achado tem importância que ultrapassa a compreensão fisiopatológica, de forma que é justamente a base das estratégias terapêuticas mais promissoras atualmente em desenvolvimento.

Neuropatologicamente, ocorre degeneração espongiforme, perda neuronal, astrogliose e ativação microglial, associadas à deposição da proteína priônica anormal. A distribuição das alterações pode envolver córtex cerebral, cerebelo, tálamo e núcleos da base, variando de acordo com a forma e o subtipo molecular da doença.

Epidemiologia e diferentes formas da doença

A forma esporádica corresponde a aproximadamente 85% das doenças priônicas humanas, apresentando incidência estimada em aproximadamente 1 a 2 casos por milhão de habitantes ao ano. Habitualmente acomete indivíduos acima dos 60 anos, com pico de incidência na sétima década de vida. O curso é particularmente agressivo, com mediana de sobrevida em torno de cinco meses após o início dos sintomas.

As formas genéticas representam aproximadamente 10–15% das doenças priônicas humanas e estão associadas a variantes patogênicas no gene PRNP, com padrão de herança predominantemente autossômico dominante e penetrância variável. Nesse grupo encontram-se a DCJ genética, a síndrome de Gerstmann-Sträussler-Scheinker e a insônia familiar fatal.

As formas adquiridas são atualmente muito menos frequentes e incluem a DCJ iatrogênica, a variante da DCJ associada historicamente à encefalopatia espongiforme bovina e o kuru. A redução das formas iatrogênicas reflete principalmente avanços nas práticas médicas, no reconhecimento dos riscos de transmissão e nas estratégias de vigilância epidemiológica.

Saiba mais: Papel dos agonistas do receptor GLP-1 em doenças neurodegenerativas

Quando suspeitar de doença de Creutzfeldt-Jakob?

A apresentação clássica envolve uma síndrome neuropsiquiátrica rapidamente progressiva, frequentemente dominada por declínio cognitivo acompanhado de diferentes combinações de:

  • Mioclonias;
  • Ataxia ou alterações visuais;
  • Sinais piramidais (fraqueza e espasticidade) ou extrapiramidais;
  • Alterações comportamentais ou psiquiátricas;
  • Mutismo acinético em estágios mais avançados.

Entretanto, a heterogeneidade clínica é importante. Diferentes subtipos moleculares da DCJ esporádica podem apresentar velocidade de progressão, manifestações iniciais e desempenho de biomarcadores distintos.

Por isso, a suspeita deve surgir menos pela presença isolada de uma manifestação específica e mais pela combinação de uma síndrome neurológica progressiva, multifocal e de evolução excepcionalmente rápida.

Esse ponto também exige cautela. Entre pacientes inicialmente considerados suspeitos de doença priônica em centros de referência, estudos neuropatológicos encontraram outros diagnósticos em aproximadamente 32–47% dos casos, inclusive condições potencialmente tratáveis, como encefalites. Dessa forma, a investigação de uma demência rapidamente progressiva nunca deve ser interrompida apenas porque a hipótese de DCJ parece provável.

Ressonância magnética: um dos pilares do diagnóstico da Doença de Creutzfeldt-Jakob

A ressonância magnética cerebral tem papel central na avaliação da doença de Creutzfeldt-Jakob. O achado mais característico consiste em áreas de hipersinal e restrição à difusão envolvendo o córtex cerebral, o chamado cortical ribboning, e/ou núcleos da base.

As sequências ponderadas em difusão (DWI) e os mapas de coeficiente aparente de difusão (ADC) são particularmente importantes. Os critérios tradicionais valorizam o acometimento cortical e de caudado e putâmen, embora critérios mais recentes tenham ampliado a interpretação dos padrões de imagem.

Em centros especializados, a sensibilidade da interpretação da RM pode ser extremamente elevada. A revisão da Lancet Neurology de 2026 destaca, inclusive, diferenças relevantes entre a leitura realizada em centros especializados e aquela realizada fora desses contextos, reforçando a importância da experiência do avaliador.

A ressonância também pode contribuir para a classificação molecular e prognóstica da DCJ esporádica. A associação entre o padrão de lesões em DWI e o genótipo do códon 129 de PRNP, por exemplo, pode auxiliar na identificação ante mortem de diferentes subtipos da doença.

RT-QuIC: a principal transformação no diagnóstico

Historicamente, o diagnóstico da doença de Creutzfeldt-Jakob utilizou marcadores indiretos de dano neuronal, como a proteína 14-3-3 e a proteína tau no líquido cefalorraquidiano. Embora continuem úteis em contextos apropriados, esses marcadores não são específicos para doença priônica.

O RT-QuIC representou uma mudança conceitual importante. O método explora a capacidade de pequenas quantidades de proteína priônica anormal presentes na amostra de induzir a conversão e agregação de proteína priônica recombinante utilizada como substrato. Essa reação é amplificada e acompanhada por sinal fluorescente.

Diferentemente da proteína 14-3-3 ou da tau, portanto, o RT-QuIC está relacionado diretamente à atividade de semeadura priônica, e não simplesmente ao grau de lesão neuronal.

Estudos com RT-QuIC de segunda geração demonstraram sensibilidades que podem alcançar aproximadamente 92–97%, enquanto a especificidade nos principais estudos prospectivos situa-se próxima de 99–100%. O desempenho pode, entretanto, variar entre os diferentes subtipos moleculares da doença. Atualmente, a positividade do RT-QuIC em um paciente com síndrome neuropsiquiátrica progressiva permite classificar o quadro como DCJ provável dentro dos critérios diagnósticos atuais.

Entenda: Como é a progressão da doença de Parkinson? 

E qual o papel da proteína 14-3-3, tau e EEG?

Apesar do avanço do RT-QuIC, os marcadores tradicionais não perderam completamente sua utilidade.

A proteína 14-3-3 e a tau total refletem principalmente a intensidade da lesão neuronal. Elevações expressivas podem apoiar o diagnóstico no contexto clínico adequado, mas podem ocorrer em outras condições associadas a dano cerebral rapidamente progressivo, incluindo encefalites, crises epilépticas, doenças vasculares e outras doenças neurodegenerativas.

O EEG pode demonstrar complexos periódicos de ondas agudas, mas apresenta sensibilidade limitada e seu papel diagnóstico tornou-se proporcionalmente menor diante do desenvolvimento da RM e do RT-QuIC.

Na prática, portanto, o diagnóstico moderno é construído principalmente pela integração entre fenótipo clínico + RM cerebral + RT-QuIC, utilizando os demais biomarcadores como elementos de suporte e, paralelamente, realizando investigação adequada das causas tratáveis de deterioração neurológica rapidamente progressiva.

Biomarcadores: para além do diagnóstico da doença sintomática

Uma das mudanças mais interessantes na pesquisa atual em doenças priônicas é a tentativa de deslocar os biomarcadores do diagnóstico da doença já estabelecida para a identificação de fases cada vez mais precoces.

Estão sendo estudados marcadores em sangue, urina, mucosa olfatória, pele, lágrimas e saliva. Além da detecção da própria atividade de semeadura priônica, moléculas associadas à neurodegeneração, como neurofilamento de cadeia leve (NfL), GFAP, diferentes formas de tau e beta-sinucleína, têm sido avaliadas como marcadores diagnósticos, prognósticos ou de progressão.

Na doença genética, esse campo é especialmente relevante. Elevações de NfL no plasma e no líquido cefalorraquidiano já foram demonstradas até aproximadamente dois anos antes da conversão clínica em alguns portadores de variantes patogênicas de PRNP.

A revisão da Lancet Neurology de 2026 propõe, inclusive, uma mudança de paradigma semelhante à que ocorreu em outras doenças neurodegenerativas: pensar a doença priônica como um contínuo que inclui indivíduos em risco, fases pré-clínicas, estágios prodrômicos e doença sintomática estabelecida. Esse conceito poderá ser particularmente importante caso tratamentos modificadores da doença se tornem disponíveis.

Tratamento atual para Doença de Creutzfeldt-Jakob

Até o momento, não existe tratamento modificador comprovadamente eficaz para a doença de Creutzfeldt-Jakob. A abordagem permanece essencialmente de suporte, buscando controle de sintomas, conforto, manutenção da qualidade de vida e suporte aos familiares e cuidadores.

Diante da velocidade de progressão da doença, aspectos relacionados a cuidados paliativos, planejamento antecipado de cuidados, controle de mioclonias, agitação, dor, disfagia e outras complicações devem ser discutidos precocemente.

O impacto sobre os cuidadores também não deve ser subestimado. A doença apresenta elevada carga familiar, e informações equivocadas relacionadas ao caráter “contagioso” da DCJ podem gerar sofrimento adicional. A transmissão não ocorre por contato social habitual; circunstâncias capazes de transmitir príons são específicas e exigem protocolos próprios, especialmente no contexto de determinados procedimentos envolvendo tecidos de alto risco.

Perspectivas futuras: reduzir a proteína priônica pode modificar a doença de Creutzfeldt-Jakob?

Entre as abordagens terapêuticas atualmente em desenvolvimento, uma das mais promissoras parte de um princípio fisiopatológico simples: a propagação do príon depende da disponibilidade de PrP normal. Se a produção de PrP puder ser reduzida, haverá menos substrato disponível para sua conversão à forma patológica.

Duas estratégias chegaram recentemente aos estudos em humanos e merecem destaque.

ION717: terapia antisense direcionada ao PRNP

O ION717 é uma terapia experimental baseada em oligonucleotídeo antisense desenvolvida para reduzir a produção de proteína priônica.

O estudo PrProfile (NCT06153966) é um ensaio multicêntrico, first-in-human, fase 1/2a, que avalia a administração intratecal do ION717 em pacientes com doença priônica em estágio inicial. O programa avalia diferentes doses e inclui períodos de tratamento e extensão aberta.

Segundo a atualização do ClinicalTrials.gov de agosto de 2026, os dois primeiros regimes encontram-se completamente recrutados, enquanto um terceiro regime, aberto, permanece recrutando pacientes elegíveis. A inclusão estimada atual é de 76 participantes. O desfecho primário é segurança, enquanto entre os desfechos farmacodinâmicos está a variação percentual da concentração de proteína priônica no líquido cefalorraquidiano. Não há, até o momento, demonstração publicada de eficácia clínica do medicamento.

A importância do estudo vai além da molécula em si. Demonstrar que é possível reduzir de maneira segura a PrP no sistema nervoso humano representaria uma validação direta do principal alvo terapêutico proposto atualmente para as doenças priônicas.

PRiSM: silenciamento por siRNA

Uma segunda estratégia iniciou sua avaliação clínica em 2026. O estudo PRiSM (PrP-targeting siRNA Safety & Mechanism Study) testa um pequeno RNA interferente, ou siRNA, desenvolvido pelo Broad Institute e pela University of Massachusetts Chan Medical School.

A molécula é um siRNA divalente, formado por duas unidades conectadas, projetado para alcançar distribuição mais ampla no cérebro e promover degradação do RNA mensageiro que codifica a proteína priônica. Como consequência, a célula passa a produzir menos PrP.

O estudo de fase 1 prevê inicialmente 15 pacientes sintomáticos tratados com uma única administração por punção lombar em esquema de escalonamento de dose, além de um braço observacional com outros 15 participantes. O objetivo inicial é estabelecer segurança, tolerabilidade, dose e evidências de atividade biológica, não necessariamente comprovar eficácia clínica.

A base pré-clínica é particularmente interessante. Em modelo animal, uma dose do siRNA divalente reduziu a proteína priônica cerebral em aproximadamente 49% e esteve associada a aumento de cerca de 64% na sobrevida, mesmo quando administrada após o aparecimento dos sintomas. Esses resultados foram suficientes para justificar a translação para o primeiro estudo em humanos, mas não devem ser interpretados como expectativa direta de benefício semelhante nos pacientes.

Um novo paradigma terapêutico

Embora utilizem tecnologias distintas, ION717 e PRiSM convergem sobre o mesmo alvo:

PRNP → RNA mensageiro → proteína priônica → propagação da doença.

Em vez de tentar eliminar agregados já formados, ambas as estratégias buscam diminuir a quantidade de proteína normal disponível para perpetuar a conversão priônica.

Esse conceito pode ser ainda mais relevante se combinado ao desenvolvimento de biomarcadores capazes de detectar a doença antes de dano neuronal extenso. O avanço paralelo de terapias redutoras de PrP e biomarcadores pré-sintomáticos pode, no futuro, deslocar o tratamento para fases anteriores da doença, particularmente nas formas genéticas, nas quais é possível identificar previamente indivíduos sob risco.

O que muda na prática?

A doença de Creutzfeldt-Jakob continua sendo uma condição rara e sem tratamento modificador estabelecido, mas sua abordagem diagnóstica mudou substancialmente.

Diante de deterioração cognitiva ou neurológica rapidamente progressiva, alguns pontos devem ser priorizados:

  • Reconhecer precocemente a possibilidade de uma demência rapidamente progressiva;
  • Solicitar RM cerebral com particular atenção às sequências de difusão e ADC;
  • Utilizar o rt-quic como principal biomarcador específico para doença priônica quando disponível;
  • Interpretar 14-3-3 e tau como marcadores de dano neuronal, e não como testes específicos para DCJ;
  • Manter investigação paralela de causas potencialmente tratáveis, especialmente doenças inflamatórias, infecciosas, epilépticas, metabólicas e vasculares;
  • Considerar análise de PRNP nos casos apropriados, inclusive porque variantes patogênicas podem ocorrer mesmo sem história familiar evidente;
  • Discutir precocemente prognóstico, cuidados de suporte e necessidades da família.

A combinação entre RM e biomarcadores no líquido cefalorraquidiano permite atualmente elevada acurácia diagnóstica e, em muitos pacientes, torna possível um diagnóstico clínico robusto sem necessidade de procedimentos invasivos.

Limitações e perspectivas para Doença de Creutzfeldt-Jakob

Apesar dos avanços, desafios importantes permanecem. A raridade da doença, sua rápida progressão e a heterogeneidade dos diferentes subtipos dificultam o recrutamento e a definição de desfechos adequados para ensaios clínicos.

Biomarcadores sanguíneos e outros métodos menos invasivos ainda precisam de validação antes de substituírem estratégias já estabelecidas. Da mesma forma, os estudos com ION717 e siRNA encontram-se em fases iniciais e devem ser apresentados como terapias experimentais, sem evidência atual de benefício clínico comprovado.

Entretanto, a associação entre diagnóstico molecular cada vez mais precoce, biomarcadores de progressão e estratégias direcionadas diretamente à produção de PrP representa uma mudança relevante após décadas de poucas perspectivas terapêuticas.

Mensagem prática

A doença de Creutzfeldt-Jakob deve ser lembrada diante de síndromes neurológicas rapidamente progressivas, especialmente quando declínio cognitivo se associa a mioclonias, ataxia, alterações visuais ou sinais piramidais e extrapiramidais.

O diagnóstico moderno se apoia principalmente na combinação de avaliação clínica, ressonância magnética com difusão e RT-QuIC, enquanto 14-3-3 e tau permanecem como marcadores auxiliares de neurodegeneração.

Ainda não existe tratamento modificador comprovadamente eficaz. Entretanto, os primeiros estudos em humanos direcionados à redução da produção de proteína priônica, utilizando oligonucleotídeos antisense ou siRNA, representam uma das mudanças mais importantes no campo nos últimos anos e podem inaugurar uma nova fase na pesquisa terapêutica das doenças priônicas.

Autoria

Foto de Johnatan Felipe

Johnatan Felipe

Editor médico na Afya. Médico formado pela Universidade Federal Fluminense (UFF) com residência médica em Neurologia pela mesma instituição. Fellow em Neuroimunologia no Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás.

Como você avalia este conteúdo?

Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.

Compartilhar artigo

Referências bibliográficas

Newsletter

Aproveite o benefício de manter-se atualizado sem esforço.

Anúncio

Leia também em Neurologia