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Neurologia27 março 2026

Cannabis e canabinoides: evidências terapêuticas e riscos na prática clínica 

Antes de considerar o uso medicinal da cannabis ou de canabinoides, profissionais de saúde devem consultar a legislação aplicável

O uso de cannabis para fins medicinais deixou de ser um tema marginal e passou a ocupar o centro das consultas médicas. Estima-se que 27% dos adultos nos EUA e Canadá já tenham usado cannabis com objetivo terapêutico, e mais de 10% da população relata uso de canabidiol (CBD) para tratar sintomas diversos. O problema é que a popularização avançou muito mais rápido do que a evidência científica. 

Uma revisão abrangente publicada no JAMA em 2026, assinada por especialistas em psiquiatria, neurologia e medicina da dependência, fez algo essencial: separou claramente o que tem evidência do que é crença, marketing ou extrapolação perigosa . 

Cannabis e canabinoides: o primeiro erro conceitual 

O artigo começa desfazendo uma confusão comum, inclusive entre médicos: 

  • Cannabis: planta inteira ou extratos, com dezenas de compostos ativos 
  • Canabinoides: substâncias específicas (THC, CBD, dronabinol, nabilona), incluindo formas farmacêuticas padronizadas 

Mensagem-chave:Produto de dispensário não é equivalente a canabinoide aprovado em ensaio clínico. 

Onde há aprovação regulatória (evidência real) 

Atualmente, pouquíssimas indicações contam com aprovação baseada em ensaios clínicos randomizados: 

Indicações aprovadas 

  • Náuseas e vômitos induzidos por quimioterapia 

(dronabinol, nabilona) 

  • Anorexia associada ao HIV/AIDS 
  • Epilepsias pediátricas específicas 

(Dravet, Lennox-Gastaut, esclerose tuberosa – CBD farmacêutico) 

Meta-análises mostram: 

  • Redução modesta, porém estatisticamente significativa, de náuseas e vômitos 
  • Redução moderada da frequência de crises epilépticas em síndromes específicas da infância 

Fora desses cenários, o nível de evidência cai drasticamente. 

Espasticidade associada à EM 

  • Essa é a única indicação neurológica em EM para a qual existe algum nível de evidência consistente. 
  • Nabiximols: aprovado para espasticidade da EM em alguns países (Europa, Canadá) 
  • O benefício é de pequeno a moderado 
  • Melhora é mais perceptiva (autorrelato) do que objetiva em escalas motoras 
  • Não aprovado pelo FDA 

Onde NÃO há evidência suficiente (apesar da fama) 

A revisão é categórica ao afirmar que não há suporte robusto para o uso de cannabis ou canabinoides em: 

  • Dor aguda 
  • Insônia 
  • Demência 
  • Parkinson 
  • Glaucoma 
  • Transtornos psiquiátricos (ansiedade, depressão, PTSD) 

Mesmo em dor crônica, os benefícios são pequenos, inconsistentes e frequentemente não superam os riscos, especialmente com produtos inalados ou de alta potência. 

Frase dura, mas honesta do artigo: “Evidence is insufficient for the use of cannabis or cannabinoids for most medical indications.” (As evidências são insuficientes para o uso de cannabis ou canabinoides na maioria das indicações médicas)

Alta potência: onde mora o maior perigo 

Um dos pontos mais relevantes do artigo é o alerta contra cannabis de alta potência (≥ 10% de THC): 

Comparado a produtos de baixa potência, o uso de alta potência está associado a: 

  • Mais sintomas psicóticos (12,4% vs 7,1%) 
  • Mais transtorno de ansiedade generalizada (19,1% vs 11,6%) 
  • Maior risco de dependência 

E um dado que costuma chocar pacientes: 29% dos usuários de cannabis medicinal preenchem critérios para transtorno por uso de cannabis.  

Risco cardiovascular: subestimado e real 

A revisão compila dados observacionais robustos mostrando associação entre cannabis e: 

  • Infarto do miocárdio 
  • AVC 
  • Arritmias 
  • Doença coronariana 

O risco é maior com: 

  • Uso diário 
  • Produtos inalados 
  • Alta concentração de THC

Mensagem práticaCannabis não é “neutra” para o coração — especialmente em pacientes com fatores de risco. 

Cannabis e canabinoides: evidências terapêuticas e riscos na prática clínica 

Neurologia e psiquiatria: atenção máxima 

As sociedades psiquiátricas são diretas: 

  • Não recomendam cannabis para tratar nenhum transtorno psiquiátrico 
  • Pode precipitar psicose, piorar depressão e aumentar risco de suicídio 

Em neurologia: 

  • Epilepsia: apenas CBD farmacêutico, em síndromes específicas 
  • Esclerose múltipla: nabiximols pode ajudar espasticidade em alguns países, mas não é consenso global 
  • Cognição: uso crônico associa-se a déficits em atenção, memória e função executiva 

Interações medicamentosas: a armadilha invisível 

O artigo destaca interações clinicamente relevantes: 

  • CBD inibe CYP2C19 e CYP3A4 

→ ↑ níveis de clobazam, valproato, ISRS, warfarina, imunossupressores 

  • THC pode interferir em anticoagulação e sedativos 

Erro comum: considerar CBD como “natural e inofensivo”. 

Quem NÃO deve usar 

As diretrizes são claras ao recomendar evitar cannabis ou canabinoides em: 

  • Gestantes e lactantes 
  • Crianças, adolescentes e jovens < 25 anos 
  • Pessoas com esquizofrenia ou transtornos psicóticos 
  • Pacientes com doença cardiovascular significativa 
  • Pessoas com histórico de dependência química 

Redução de danos: quando o paciente já usa 

Para pacientes que já fazem uso, o papel do médico não é moralizar, e sim reduzir riscos: 

  • Preferir baixa potência 
  • Evitar formas inaladas 
  • Não associar a álcool ou benzodiazepínicos 
  • Não dirigir após o uso 
  • Monitorar interações medicamentosas 
  • Avaliar sinais de dependência 

Conclusão 

A revisão do JAMA cumpre um papel essencial: trazer a conversa da cannabis de volta para o terreno da medicina baseada em evidências. 

  • Para a maioria das indicações, o entusiasmo supera os dados. 
  • Para algumas poucas condições, os canabinoides farmacêuticos têm lugar claro. 
  • E para todas as situações, o risco precisa ser discutido com a mesma ênfase que o possível benefício. 

O papel do médico é exatamente esse: clareza, ciência e responsabilidade — mesmo quando o tema está cercado de expectativas e pressões externas.

Autoria

Foto de Thiago Nascimento

Thiago Nascimento

Formado em Medicina pela Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF) em 2015. Residência Médica em Neurologia no Hospital Geral Roberto Santos (HGRS) Salvador - Bahia (2016-2019). Membro titular da Academia Brasileira de Neurologia (ABN). Mestrando em Ciências da Saúde pela UFBA (PPGCs - UFBA). Preceptor da Residência de Neurologia do HU- UFS - (Ebserh - Aracaju- SE). Médico Neurologista - Membro do Ambulatório de Neuroimunologia do HU- UFS - (Ebserh - Aracaju- SE). Professor na Afya Educação Médica.

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