O uso de cannabis para fins medicinais deixou de ser um tema marginal e passou a ocupar o centro das consultas médicas. Estima-se que 27% dos adultos nos EUA e Canadá já tenham usado cannabis com objetivo terapêutico, e mais de 10% da população relata uso de canabidiol (CBD) para tratar sintomas diversos. O problema é que a popularização avançou muito mais rápido do que a evidência científica.
Uma revisão abrangente publicada no JAMA em 2026, assinada por especialistas em psiquiatria, neurologia e medicina da dependência, fez algo essencial: separou claramente o que tem evidência do que é crença, marketing ou extrapolação perigosa .
Cannabis e canabinoides: o primeiro erro conceitual
O artigo começa desfazendo uma confusão comum, inclusive entre médicos:
- Cannabis: planta inteira ou extratos, com dezenas de compostos ativos
- Canabinoides: substâncias específicas (THC, CBD, dronabinol, nabilona), incluindo formas farmacêuticas padronizadas
Mensagem-chave:Produto de dispensário não é equivalente a canabinoide aprovado em ensaio clínico.
Onde há aprovação regulatória (evidência real)
Atualmente, pouquíssimas indicações contam com aprovação baseada em ensaios clínicos randomizados:
Indicações aprovadas
- Náuseas e vômitos induzidos por quimioterapia
(dronabinol, nabilona)
- Anorexia associada ao HIV/AIDS
- Epilepsias pediátricas específicas
(Dravet, Lennox-Gastaut, esclerose tuberosa – CBD farmacêutico)
Meta-análises mostram:
- Redução modesta, porém estatisticamente significativa, de náuseas e vômitos
- Redução moderada da frequência de crises epilépticas em síndromes específicas da infância
Fora desses cenários, o nível de evidência cai drasticamente.
Espasticidade associada à EM
- Essa é a única indicação neurológica em EM para a qual existe algum nível de evidência consistente.
- Nabiximols: aprovado para espasticidade da EM em alguns países (Europa, Canadá)
- O benefício é de pequeno a moderado
- Melhora é mais perceptiva (autorrelato) do que objetiva em escalas motoras
- Não aprovado pelo FDA
Onde NÃO há evidência suficiente (apesar da fama)
A revisão é categórica ao afirmar que não há suporte robusto para o uso de cannabis ou canabinoides em:
- Dor aguda
- Insônia
- Demência
- Parkinson
- Glaucoma
- Transtornos psiquiátricos (ansiedade, depressão, PTSD)
Mesmo em dor crônica, os benefícios são pequenos, inconsistentes e frequentemente não superam os riscos, especialmente com produtos inalados ou de alta potência.
Frase dura, mas honesta do artigo: “Evidence is insufficient for the use of cannabis or cannabinoids for most medical indications.” (As evidências são insuficientes para o uso de cannabis ou canabinoides na maioria das indicações médicas)
Alta potência: onde mora o maior perigo
Um dos pontos mais relevantes do artigo é o alerta contra cannabis de alta potência (≥ 10% de THC):
Comparado a produtos de baixa potência, o uso de alta potência está associado a:
- Mais sintomas psicóticos (12,4% vs 7,1%)
- Mais transtorno de ansiedade generalizada (19,1% vs 11,6%)
- Maior risco de dependência
E um dado que costuma chocar pacientes: 29% dos usuários de cannabis medicinal preenchem critérios para transtorno por uso de cannabis.
Risco cardiovascular: subestimado e real
A revisão compila dados observacionais robustos mostrando associação entre cannabis e:
- Infarto do miocárdio
- AVC
- Arritmias
- Doença coronariana
O risco é maior com:
- Uso diário
- Produtos inalados
- Alta concentração de THC
Mensagem prática: Cannabis não é “neutra” para o coração — especialmente em pacientes com fatores de risco.

Neurologia e psiquiatria: atenção máxima
As sociedades psiquiátricas são diretas:
- Não recomendam cannabis para tratar nenhum transtorno psiquiátrico
- Pode precipitar psicose, piorar depressão e aumentar risco de suicídio
Em neurologia:
- Epilepsia: apenas CBD farmacêutico, em síndromes específicas
- Esclerose múltipla: nabiximols pode ajudar espasticidade em alguns países, mas não é consenso global
- Cognição: uso crônico associa-se a déficits em atenção, memória e função executiva
Interações medicamentosas: a armadilha invisível
O artigo destaca interações clinicamente relevantes:
- CBD inibe CYP2C19 e CYP3A4
→ ↑ níveis de clobazam, valproato, ISRS, warfarina, imunossupressores
- THC pode interferir em anticoagulação e sedativos
Erro comum: considerar CBD como “natural e inofensivo”.
Quem NÃO deve usar
As diretrizes são claras ao recomendar evitar cannabis ou canabinoides em:
- Gestantes e lactantes
- Crianças, adolescentes e jovens < 25 anos
- Pessoas com esquizofrenia ou transtornos psicóticos
- Pacientes com doença cardiovascular significativa
- Pessoas com histórico de dependência química
Redução de danos: quando o paciente já usa
Para pacientes que já fazem uso, o papel do médico não é moralizar, e sim reduzir riscos:
- Preferir baixa potência
- Evitar formas inaladas
- Não associar a álcool ou benzodiazepínicos
- Não dirigir após o uso
- Monitorar interações medicamentosas
- Avaliar sinais de dependência
Conclusão
A revisão do JAMA cumpre um papel essencial: trazer a conversa da cannabis de volta para o terreno da medicina baseada em evidências.
- Para a maioria das indicações, o entusiasmo supera os dados.
- Para algumas poucas condições, os canabinoides farmacêuticos têm lugar claro.
- E para todas as situações, o risco precisa ser discutido com a mesma ênfase que o possível benefício.
O papel do médico é exatamente esse: clareza, ciência e responsabilidade — mesmo quando o tema está cercado de expectativas e pressões externas.
Autoria

Thiago Nascimento
Formado em Medicina pela Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF) em 2015. Residência Médica em Neurologia no Hospital Geral Roberto Santos (HGRS) Salvador - Bahia (2016-2019). Membro titular da Academia Brasileira de Neurologia (ABN). Mestrando em Ciências da Saúde pela UFBA (PPGCs - UFBA). Preceptor da Residência de Neurologia do HU- UFS - (Ebserh - Aracaju- SE). Médico Neurologista - Membro do Ambulatório de Neuroimunologia do HU- UFS - (Ebserh - Aracaju- SE). Professor na Afya Educação Médica.
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