A ataxia de Friedreich (AF) é uma doença genética rara e progressiva que afeta a coordenação motora e diversas funções corporais. Neste videocast, exploraremos uma abordagem multidisciplinar para o tratamento da AF, destacando a importância de um diagnóstico precoce e um cuidado integrado.1,2
O que são ataxias?
As ataxias são caracterizadas pela incoordenação de movimentos na ausência de fraqueza muscular significativa. Elas resultam da disfunção de vias cerebelares, vestibulares ou somatossensitivas, levando a sintomas, como alteração do equilíbrio, instabilidade postural, desajeitamento dos membros e disartria. O diagnóstico clínico é feito através de um exame físico detalhado.2,3
Investigação
É preciso identificar as condições tratáveis que podem causar ataxia isolada em adultos. Isso inclui etiologias vasculares, imuno-mediadas, desmielinizantes, tóxico-metabólicas, infecciosas, neoplásicas, endocrinológicas, degenerativas e carenciais. A investigação básica inclui exames laboratoriais, ressonância magnética do crânio, exame do líquido cefalorraquiano, eletroneuromiografia e rastreio neoplásico.4
Um quadro de instalação lenta e evolução progressiva, que a investigação para causas adquiridas foi inequívoca, é a principal pista para se considerar uma ataxia hereditária. A AF é a ataxia hereditária mais comum, causada por uma expansão patológica de repetições GAA no gene FXN, resultando na redução da expressão da frataxina. Os sintomas típicos incluem ataxia mista, hipo/arreflexia de membros inferiores, cardiomiopatia, diabetes mellitus, escoliose e pés cavos. Em casos de início tardio (comumente, o quadro clínico é iniciado antes dos 25 anos de idade), a apresentação clínica pode ser diferente, com predominância de espasticidade e preservação de reflexos. Além disso, tipicamente, a ressonância evidencia uma atrofia em medula cervical.5-10
Abordagem multidisciplinar
O manejo da AF requer uma abordagem interdisciplinar, envolvendo cardiologistas, ortopedistas, endocrinologistas, oftalmologistas, geneticistas, fonoaudiólogos, fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais. A fisioterapia é essencial para manter a força muscular e flexibilidade, enquanto medicações como gabapentina e duloxetina ajudam no controle da dor neuropática. O uso de bloqueadores beta é indicado para cardiomiopatia hipertrófica e hipertensão, e insulina pode ser necessária para diabetes. Cuidados de enfermagem, suporte nutricional e suplementação de vitaminas são fundamentais para evitar complicações.11
Caso clínico: importância do diagnóstico precoce
Para confirmar o diagnóstico, é fundamental realizar um teste genético que detecte a expansão repetida do trinucleotídeo GAA no gene FXN, não bastando o sequenciamento genômico.12,15
Um caso clínico ilustra a importância do diagnóstico precoce. Dois irmãos, institucionalizados devido à tetraparesia incompleta, apresentaram sintomas de AF desde a adolescência. A falta de testes moleculares até 1996 levou a um diagnóstico tardio, resultando em progressão significativa dos sintomas e incapacidade funcional. A abordagem multidisciplinar melhorou a qualidade de vida dos pacientes, destacando a necessidade de um cuidado integrado.13,14
Avanços no tratamento
Recentemente, a omaveloxolona, um ativador da via NrF2, foi aprovada para o tratamento da AF em adolescentes e adultos. Estudos clínicos mostraram melhora neurológica significativa, destacando a importância de novas terapias para essa condição.16,17
A ataxia de Friedreich é uma doença complexa que requer um diagnóstico precoce e uma abordagem multidisciplinar para melhorar os desfechos dos pacientes. A colaboração entre diferentes especialidades é essencial para proporcionar um cuidado eficaz e integrado, garantindo uma melhor qualidade de vida para aqueles que vivem com essa condição.
Autoria

Marcelo Gobbo
Editor médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), com residência médica em Medicina de Família e Comunidade pelo Hospital de Amor - Barretos e mestrado em psicologia pela UFU. Além da atuação na Afya também é professor de comunicação clínica e atende em consultório particular.
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