A doença de Parkinson (DP) é conhecida pelos sintomas motores, relacionados com disfunção dopaminérgica nigroestriatal. Tal degeneração dopaminérgica leva ao surgimento de sintomas motores como bradicinesia, rigidez, tremor de repouso e alteração de marcha. Entretanto, a DP apresenta gama de sintomas não motores, os quais geram incapacidades e piora de qualidade de vida. É o caso das alucinações visuais, presentes em fases mais avançadas da doença e relacionadas ao avanço da neurodegeneração, com piora clínica e de qualidade de vida.
A fisiopatologia das alucinações visuais ainda é incerta, porém acredita-se que haja envolvimento direto do sistema colinérgico em sua gênese, como discutido no artigo em questão.
Quais são as estruturas colinérgicas envolvidas nas alucinações visuais na DP?
O núcleo basal de Meynert é um núcleo com limites neuroanatômicos pouco precisos, porém sabe-se que é rico em neurônios colinérgicos, com conexões direcionadas a todo o córtex. Acredita-se que o acúmulo de corpos de Lewy em sua topografia favoreça o aparecimento de disfunções colinérgicas tanto em produção quanto no funcionamento correto das sinapses. Uma hipótese é de que os corpos de Lewy depositados levam a disfunção de enzimas necessárias para a produção de acetilcolina.
Outro núcleo possivelmente envolvido é o pedúnculo pontino, o qual exerce função relacionada a conexões corticais e vias de auxílio na marcha, regulação de sono REM e aprendizado. Além disso, pode haver comprometimento da amígdala, importante no processamento e armazenamento de memória e processamento de atenção. O núcleo talâmico intralaminar também pode estar envolvido.
As estruturas corticais responsáveis pelo processamento visual e interpretação costumam ser acometidas pela disfunção sináptica colinérgica, com redução de densidade de substância cinzenta occipital, parietal e temporal.
Quais teorias são postuladas na gênese das alucinações visuais na DP?
- Excitação anormal cortical, levando a interpretação errônea de estímulos sensoriais, além de alterações em sono-vigília, com intrusão de imagens oníricas (provenientes do sono) em estado de consciência e flutuação de consciência;
- Processamento visual, o qual pode estar alterado mediante disfunção colinérgica, com perda de estímulo talâmico para vias de processamento visual;
- Memória comprometida, por disfunção hipocampal e frontal, alterando o armazenamento da memória visual de forma correta;
- Atenção prejudicada, a qual interfere no direcionamento do foco e formação correta da memória.
Tais teorias apontam o papel da disfunção colinérgica nas estruturas de associação relacionadas ao ciclo sono-vigília, processamento de atenção e memória, interpretação sensorial e ativação cortical. A conjunção de tais alterações promove a formação, interpretação e armazenamento de um conteúdo visual distorcido, presente nas alucinações visuais. Um dado interessante do ponto de vista patológico é o fato de que maior patologia coincidente de Aβ (patologia presente na doença de Alzheimer) pode representar um fenótipo colinérgico de DP associado a um perfil sintomático cognitivo e neuropsiquiátrico mais grave, reforçando o papel da copatologia nessas doenças.
Do ponto de vista terapêutico, há enfoque em restabelecer o equilíbrio colinérgico para melhora de tais sintomas, podendo ser utilizado inibidores da acetilcolinesterase, como a donepezila, por exemplo.
Mensagens práticas
- A doença de Parkinson é condição neurodegenerativa cada vez mais comum na população. Sintomas motores e não motores comprometem a vida dos pacientes de forma significativa;
- Por ser uma doença complexa, envolve outros sistemas e neurotransmissores além da dopamina, sendo a acetilcolina e a via colinérgica crucial nesses processos;
- Do ponto de vista clínico, quando presente, as alucinações visuais impactam de forma negativa a vida do paciente, sendo o tratamento desses sintomas desafiador.
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