A sessão de Hot Topics do Annual Meeting da American Academy of Neurology (AAN 2026) consolidou uma transição que vem se estruturando de forma consistente na última década: o deslocamento da neurologia de uma abordagem predominantemente fenomenológica para um paradigma progressivamente biológico e preventivo.
Historicamente, grande parte dos diagnósticos neurológicos dependia da manifestação clínica estabelecida de sinais e sintomas. No entanto, as apresentações deste ano reforçam que aguardar a expressão plena da doença para iniciar investigação ou tratamento pode ser insuficiente e potencialmente deletério.

As atualizações concentraram-se em três eixos principais
- O avanço dos biomarcadores plasmáticos na Doença de Alzheimer;
- Revisão dos critérios de McDonald para Esclerose Múltipla;
- Novas evidências sobre vacinação contra Herpes Zoster como estratégia potencial de modificação de risco para demência.
Sob a ótica clínica, discutir esses temas implica mais do que revisar fluxogramas. Trata-se de incorporar ao raciocínio neurológico o conceito de que a doença biológica frequentemente precede a doença clínica em anos e que intervenções precoces podem alterar de forma significativa a trajetória dos pacientes.
A revolução dos biomarcadores plasmáticos na Doença de Alzheimer
O diagnóstico clínico da Doença de Alzheimer (DA) carrega limitações conhecidas. Mesmo após avaliação neuropsicológica estruturada, a etiologia do comprometimento cognitivo permanece incerta em uma parcela relevante dos casos, com taxas de erro diagnóstico estimadas em 30–40% na prática clínica geral.
Nesse contexto, a apresentação de Dra. Suzanne Schindler (MD, PhD, Washington University) enfatizou que os biomarcadores deixaram de ser ferramentas restritas à pesquisa e passaram a ocupar papel central na definição da presença de patologia Alzheimer, sobretudo em um cenário em que terapias modificadoras de doença direcionadas ao amiloide (como Lecanemab e Donanemab) exigem confirmação biológica para elegibilidade.
Entre os avanços recentes, os biomarcadores sanguíneos atingiram um grau de maturidade clínica significativo. O p-au217 plasmático emerge como um dos marcadores com melhor desempenho para identificação de patologia amiloide e tau, com áreas sob a curva frequentemente superiores a 0,90 em estudos recentes.
Do ponto de vista fisiopatológico, embora seja um marcador de tau, o p-au217 reflete precocemente a deposição amiloide cerebral, antecipando alterações que precedem a taupatia disseminada. Isso o posiciona como um biomarcador com potencial utilidade tanto para detecção quanto para estadiamento dentro do modelo de classificação ATN.
Apesar do entusiasmo, sua aplicação clínica requer cautela. Fatores sistêmicos como função renal, índice de massa corporal e variabilidade entre ensaios laboratoriais influenciam os níveis plasmáticos, criando zonas intermediárias de interpretação. Assim, seu uso deve ser integrado ao contexto clínico e, quando necessário, complementado por métodos estabelecidos como PET amiloide ou análise de LCR.
Esclerose múltipla: os critérios de McDonald 2024
A atualização dos critérios de McDonald (2024), apresentada por Dra. Olga Ciccarelli (UCL Institute of Neurology), reflete de forma clara a transição para um modelo mais sensível de diagnóstico da Esclerose Múltipla (EM), com foco na identificação precoce da doença.
A EM passa a ser compreendida de maneira mais explícita como um contínuo biológico de neuroinflamação crônica, frequentemente ativo antes da manifestação clínica clássica.
Entre as principais mudanças
A aplicação dos critérios torna-se mais flexível, permitindo sua utilização em contextos além da apresentação clínica típica, incluindo indivíduos com Síndrome Radiológica Isolada (RIS). Dados longitudinais demonstram risco significativo de conversão clínica nesses pacientes, reforçando o conceito de doença subclínica.
O nervo óptico foi incorporado como quinta topografia lesional, refletindo melhor a biologia da doença. Esse avanço foi possível graças à maior disponibilidade de biomarcadores que auxiliam no diagnóstico diferencial, especialmente em relação às doenças do espectro da neuromielite óptica e MOGAD.
A dependência de disseminação no tempo foi reduzida, seguindo a tendência já iniciada com a incorporação das bandas oligoclonais e também com a equivalência prática do índice de cadeias leves livres Kappa (κ-FLC). Biomarcadores e achados estruturais passam a ter maior peso na confirmação diagnóstica em um único momento.
Além disso, marcadores avançados de neuroimagem foram formalmente incorporados. O Central Vein Sign (CVS) aumenta a especificidade para EM ao refletir a natureza perivenular das lesões, enquanto as Paramagnetic Rim Lesions (PRLs) representam inflamação crônica ativa, associando-se a pior prognóstico e maior risco de progressão.
Ainda assim, a interpretação dos critérios permanece dependente de correlação clínica e exclusão rigorosa de diagnósticos diferenciais.
Vacinação contra Zoster e modificação de risco para demência
Um dos temas mais impactantes da sessão foi a associação entre vacinação contra Herpes Zoster e redução do risco de demência, tópico apresentado por Dr. Pascal Geldsetzer (Stanford University). Estudos observacionais nesse campo são tradicionalmente limitados pelo chamado “viés do usuário saudável”. Para contornar esse problema, foi apresentado um experimento natural no Reino Unido, no qual a elegibilidade vacinal foi definida por um ponto de corte etário rígido. Essa estratégia criou grupos comparáveis em risco basal, diferindo essencialmente pela exposição à vacina.
Os resultados demonstraram uma redução de aproximadamente 17% no risco de novos diagnósticos de demência ao longo de sete anos nos indivíduos elegíveis à vacinação.
O mecanismo biológico permanece em investigação. Hipóteses incluem o papel de vírus neurotrópicos como o VZV e HSV-1 na indução de inflamação crônica e disfunção microglial. A resposta imune sustentada poderia contribuir para a deposição de beta-amiloide, possivelmente como parte de uma resposta imune inata.
Além disso, análises recentes sugerem que a vacina recombinante adjuvada (Shingrix) pode estar associada a maior tempo livre de demência quando comparada à vacina viva atenuada, reforçando a possibilidade de um efeito imunomodulador específico.
Apesar desses achados, trata-se de uma associação robusta, porém ainda não definitiva em termos de causalidade. A vacinação contra Zoster deve ser vista, no momento, como uma estratégia promissora de prevenção populacional com potencial impacto neurológico.
Caso clínico: Doença de Alzheimer [vídeo]
Mensagem prática
A neurologia contemporânea caminha rapidamente para um modelo de precisão biológica.
A incorporação de biomarcadores plasmáticos na avaliação da Doença de Alzheimer, a aplicação mais sensível dos critérios de McDonald 2024 e a emergência de estratégias de prevenção populacional (como a vacinação contra Zoster) refletem essa transformação.
O papel do neurologista deve ser não apenas reconhecer e descrever a doença em sua fase clínica, mas identificar suas assinaturas biológicas precoces e atuar sobre fatores modificáveis antes da instalação de dano irreversível.
Autoria

Johnatan Felipe Ferreira da Conceicao
Revisor médico do Portal Afya. Graduado em Medicina pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Contato: [email protected] Instagram: @johnatanfelipef
Como você avalia este conteúdo?
Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.