O hantavírus é um patógeno envelopado, de material genético RNA, pertencente ao gênero Orthohantavirus e à família Hantaviridae. Ele é o agente etiológico da hantavirose, uma zoonose viral de distribuição mundial, cujo reservatório natural é constituído, notadamente, por roedores silvestres. Sua transmissão ocorre, na maioria dos casos, através da inalação de partículas contaminadas (excretas e saliva) eliminadas por animais infectados, além da ingestão de alimentos eivados ou do contato direto com o vírus (mucosas, percutânea). Apesar de rara e ocasional, a transmissão interpessoal pode ocorrer durante o período de transmissibilidade (que ainda não foi totalmente definido), quando em contato próximo e prolongado com indivíduo infectado (caracteristicamente pela cepa Andes).

Quadro clínico
Após um período de incubação de cerca de 1 a 5 semanas, a hantavirose pode se manifestar clinicamente sob diferentes formas e graus, variando desde quadros assintomáticos/oligossintomáticos até evoluções críticas — como a síndrome cardiopulmonar por hantavírus (SCPH) — forma grave mais comum em nosso continente.
Na fase prodrômica da SCPH, sinais e sintomas inespecíficos, com duração de 1 a 6 dias (em média), como febre, astenia, mialgias, artralgias, dor dorsal/lombar, dor abdominal, cefaleia e sintomas gastrointestinais (ex.: náuseas, vômitos, diarreia) podem ocorrer.
Já o início da etapa mais severa, a fase cardiopulmonar, é caracterizada pela tosse seca (que pode ser produtiva), associada a taquicardia, taquidispneia e hipoxemia, que podem evoluir rápida e progressivamente para um edema pulmonar não cardiogênico, hipotensão arterial e choque circulatório.
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Diagnóstico laboratorial específico
Os principais exames disponíveis para investigação laboratorial de casos suspeitos são constituídos pelos métodos sorológicos (principalmente ELISA para a detecção de anticorpos IgM e IgG), de imuno-histoquímica, e de biologia molecular (RT-PCR), cada qual com suas aplicabilidades e indicações.
- Anticorpos IgM: avaliados, geralmente, por ELISA (ensaio imunoenzimático), os anticorpos séricos específicos do tipo IgM apresentam positividade em cerca de 95% dos pacientes com SCPH já na fase inicial – junto ao início dos sintomas – permanecendo circulantes por até 60 dias. Dessa forma, ele é um dos testes mais utilizados e considerado um método efetivo para o diagnóstico da hantavirose aguda/recente;
- Anticorpos IgG: reservados notadamente para estudos epidemiológicos, a fim de avaliar infecção prévia em humanos ou do reservatório natural (roedores silvestres).
- Imuno-histoquímica: técnica que detecta e localiza proteínas específicas do hantavírus em amostras de tecidos, utilizada principalmente para a investigação de óbitos quando não foi possível a realização do diagnóstico imunológico in vivo;
- Reação em cadeia da polimerase de transcrição reversa (RT-PCR): detecta com alta acurácia o material genético viral, bem como o seu genótipo, por meio de técnicas de biologia molecular. Pode ser utilizada para pesquisar o RNA do hantavírus em diversos materiais biológicos (ex.: soro, plasma, sangue total, fragmentos de órgãos), sendo considerado um exame complementar nos casos em que restam dúvidas diagnósticas, para fins de pesquisa, ou para identificação do genótipo viral em roedores com anticorpos IgG reagentes.
Mensagem prática
Como, inicialmente, os sinais e sintomas da hantavirose são inespecíficos, os testes laboratoriais são, muitas vezes, fundamentais para o seu diagnóstico (ou de sua exclusão).
Em nosso meio, segundo os protocolos do Ministério da Saúde e dos laboratórios de referência, o exame inicial de preferência para a confirmação do diagnóstico in vivo em humanos é composto pela pesquisa de anticorpos séricos do tipo IgM pela metodologia de ELISA. Em casos selecionados, a realização da RT-PCR está indicada.
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Autoria

Pedro Morales
Editor médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Gama Filho (UGF), com residência médica em Patologia Clínica/Medicina Laboratorial pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Além da atuação na Afya, é o responsável técnico do Laboratório Morales, é médico patologista clínico do Laboratório Central do Hospital Universitário Antônio Pedro (HUAP-UFF) e membro do corpo clínico do Instituto Estadual de Doenças do Tórax Ary Parreiras (IETAP - SES/RJ).
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