A dependência de álcool é uma das principais causas evitáveis de morbidade e mortalidade no mundo, estando associada a mais de 200 doenças e contribuindo com mais de 2,6 milhões de mortes por ano. Ainda assim, menos de 10% das pessoas com transtorno por uso de álcool (TUA) buscam tratamento e menos de 2% utilizam medicamentos específicos. Entre os desafios enfrentados para a ampliação do tratamento está o pequeno número de opções farmacológicas aprovadas, bem como o estigma e o desconhecimento sobre a condição. Nesse sentido, a semaglutida, agonista do receptor de GLP-1, atualmente aprovada para uso na diabetes tipo 2 e na obesidade, tem sido associada a relatos de redução do consumo de álcool, o que motivou a realização de um ensaio clínico randomizado, publicado em fevereiro de 2025 no periódico JAMA Psychiatry, para avaliar os seus efeitos no TUA.
O estudo
O estudo consiste em um ensaio clínico de fase 2, duplo-cego e randomizado, conduzido na Universidade da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, entre setembro de 2022 e fevereiro de 2024. Foram recrutados adultos de 21 a 65 anos de idade, com diagnóstico de TUA segundo critérios do DSM-5, que não estavam em busca ativa de tratamento e relataram consumo de risco nas últimas semanas (mais de 14 doses semanais para homens e mais de 7 para mulheres, além de, pelo menos, dois episódios de binge drinking).
Os participantes foram randomizados para receber dose semanal de semaglutida ou placebo por nove semanas, com escalonamento progressivo até 1,0 mg por semana. O desfecho primário foi a auto-administração de álcool em laboratório antes e após o tratamento. Esse método consiste em uma tarefa padronizada na qual os participantes, em ambiente controlado, podem escolher quando e quanto álcool consumir, permitindo avaliar de forma objetiva o efeito da intervenção sobre o comportamento de beber. Desfechos secundários incluíram consumo semanal e craving alcoólico.
A semaglutida, na dose de 0,5 mg/semana, reduziu significativamente o consumo de álcool no desfecho de auto-administração em laboratório, com tamanho de efeito moderado a grande para a quantidade consumida (β = –0,48; IC 95% –0,85 a –0,11; p = 0,01) e para a concentração máxima e média de álcool expirado (β = –0,46; IC 95% –0,87 a –0,06; p = 0,03 e β = –0,48; IC 95% –0,87 a –0,09; p = 0,02, respectivamente). Esses achados sugerem um efeito da medicação sobre o comportamento de consumo imediato.
No seguimento semanal, não houve diferença significativa no número médio de doses por dia, mas observou-se uma redução no número de doses por dia em que houve consumo alcoólico (β = –0,41; IC 95% –0,73 a –0,09; p = 0,04), indicando que os participantes mantiveram o hábito de beber, mas em menores quantidades. O craving alcoólico semanal também foi significativamente menor no grupo semaglutida (β = –0,39; IC 95% –0,73 a –0,06; p = 0,01). O número de dias de consumo pesado também caiu mais pronunciada no grupo intervenção(β = 0,84; IC 95% 0,71 a 0,99; p = 0,04), com aumento significativo da proporção de indivíduos que atingiram zero dias de binge drinking entre as semanas 5 a 8 (0,5 mg/semana), comparado às semanas 1 a 4.
Curiosamente, entre os 13 participantes fumantes, a semaglutida foi associada a uma redução significativa do número diário de cigarros (β = –0,10; IC 95% –0,16 a –0,03; p = 0,005), achado que alinha-se a estudos pré-clínicos sugerindo ação desses agonistas sobre o circuito de recompensa comum ao álcool e nicotina. Este efeito, ainda que não comprovado no momento, pode representar um benefício adicional principalmente em pacientes com comorbidades.
Com relação aos efeitos adversos, os mais frequentes no grupo semaglutida foram náuseas e perda de peso, como esperado. Houve redução média de 5% no peso corporal ao final do tratamento, sem eventos adversos graves ou interações negativas com o álcool. Pressão arterial, níveis de hemoglobina glicada e sintomas depressivos permaneceram estáveis. A retenção foi elevada (88% até a semana 9), e não houve diferenças significativas de adesão entre os grupos.
Esses resultados representam o primeiro ensaio clínico controlado a demonstrar que a semaglutida, mesmo em doses inferiores às utilizadas para obesidade, pode reduzir o craving alcoólico e o consumo em laboratório e em ambiente real. Os tamanhos de efeito observados para os principais desfechos — especialmente para consumo em binge e craving — foram comparáveis ou superiores aos de fármacos aprovados para TUA, como a naltrexona, que apresentam efeitos discretos em alguns estudos clínicos.
Ainda que o estudo tenha limitações importantes, os resultados abrem caminho para pesquisas de fase 3 que explorem doses maiores, efeitos em longo prazo e eficácia em populações mais representativas da prática clínica. Outro ponto que merece investigação futura é a aplicabilidade desses achados em contextos clínicos de atenção primária, onde se concentra a maior parte dos usuários potenciais desses medicamentos.
Leia também: Semaglutida versus saúde mental: existe alguma associação?
Considerações finais
Portanto, o estudo traz evidências preliminares, mas promissoras, de que a semaglutida pode representar uma alternativa farmacológica no manejo do transtorno por uso de álcool. Embora não tenha promovido abstinência, a medicação mostrou-se eficaz na redução da quantidade de álcool consumido e no desejo de beber, efeitos que, em larga escala, podem contribuir para a diminuição dos problemas associados ao uso nocivo de álcool. O cenário atual de rápida expansão do uso de agonistas do receptor GLP-1 pode favorecer sua integração ao cuidado de pessoas com TUA, especialmente em contextos onde a abordagem farmacológica é subutilizada. No entanto, novos estudos são necessários para confirmar essa eficácia e definir esquemas posológicos, bem como assegurar a sua segurança em diferentes perfis de pacientes.
Como você avalia este conteúdo?
Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.