A doença pelo vírus Ebola é uma infecção febril hemorrágica aguda de alta letalidade (variando entre 80% e 90%), causada pelo vírus do gênero Orthoebolavirus, endêmico principalmente na África Subsaariana, com elevado potencial de transposição de fronteiras devido a viagens internacionais e trabalhos de campo. Diante disso, o foco dos profissionais de saúde deve voltar para suspeita clínica precoce, isolamento seguro, manejo de suporte e notificação compulsória imediata, mesmo em países não endêmicos.
Recentemente, a República Democrática do Congo declarou um novo surto da doença na província de Ituri, no nordeste do país. A rápida evolução do cenário levou a Organização Mundial da Saúde (OMS) a classificar a situação como uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (ESPII). Até o momento, 82 pessoas foram contaminadas e há sete mortes, mas os números podem ser maiores. Há cerca de 750 casos não confirmados e 177 mortes suspeitas, também segundo a OMS.

Epidemiologia e transmissão do vírus Ebola
A transmissão do vírus ocorre por contato direto com sangue, secreções, órgãos ou fluidos corporais de pessoas infectadas, bem como por meio de fômites e superfícies contaminadas. Os morcegos frugívoros são os reservatórios naturais do vírus, cuja circulação é historicamente documentada em regiões rurais e com infraestrutura de saúde limitada na República Democrática do Congo, Guiné, Serra Leoa e Libéria.
Para o médico atuando no Brasil ou em outras áreas não endêmicas, a anamnese epidemiológica é a ferramenta mais valiosa: deve-se investigar ativamente história recente de viagem ou contato com animais ou indivíduos oriundos das zonas afetadas pelo surto.
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Apresentação clínica e evolução da doença
O período de incubação varia entre 2 e 21 dias. O quadro clínico inicial caracteriza-se por febre aguda de início súbito, acompanhada de mialgia intensa, prostração, cefaleia, vômitos e diarreia. Em fases tardias, a doença evolui para formas graves com desidratação severa, hipotensão refratária, manifestações hemorrágicas (mucosas, cutâneas ou viscerais), exantema maculopapular, sinais de coagulopatia e disfunção hepatorrenal progressiva.
Em cenários onde outras febres tropicais são prevalentes (como malária, dengue, leptospirose e febre amarela), o diagnóstico diferencial de Ebola deve ser obrigatoriamente evocado em pacientes que apresentem a tríade de febre, desidratação profunda e sangramentos atípicos, especialmente se houver refratariedade à terapêutica empírica inicial.
Atendimento inicial ao caso suspeito de Ebola e confirmação diagnóstica
Ao identificar um caso suspeito, a conduta imediata consiste no isolamento em quarto privativo com acesso restrito e equipe dedicada. É mandatória a utilização de Equipamentos de Proteção Individual para qualquer interação ou manipulação de fluidos.
O diagnóstico de certeza baseia-se em testes moleculares (RT-PCR) e sorológicos (ELISA) para a identificação do subtipo do vírus, processados em laboratórios de referência com nível de biossegurança adequado. Exames laboratoriais de rotina evidenciam a gravidade do quadro, com presença de leucopenia, trombocitopenia, elevação de transaminases, distúrbios hidroeletrolíticos e distúrbios coagulação, auxiliando no manejo clínico, embora não substituam a confirmação etiológica.
Manejo clínico e tratamento da doença pelo vírus Ebola
O tratamento permanece predominantemente como de suporte. Infecções bacterianas ou parasitárias secundárias devem ser triadas e tratadas concomitantemente. Até o momento, não há vacina específica aprovada para a espécie Bundibugyo orthoebolavirus, responsável pelo surto atual em Ituri. As duas vacinas disponíveis conferem proteção imunológica exclusiva contra a espécie mais comum, o Zaire orthoebolavirus (antigo vírus Zaire), responsável pela epidemia na África Ocidental entre 2014 e 2016.
Autoria

Camila Rangel
Médica graduada pela Universidade Federal de Juiz de Fora em 2018. Infectologista pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais de 2019 a 2022. Mestra pela Faculdade de Medicina da UFMG em 2025. Infectologista do Controle de Infecção Hospitalar do HC-UFMG e Auditora Médica da Unimed Federação Minas.
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