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Infectologia12 junho 2026

Tétano acidental: estudo revela alta gravidade e mortalidade

Estudo descreveu o perfil clínico, curso em UTI, gravidade, infecções associadas, microbiologia e desfechos de casos de tétano acidental
Por Raissa Moraes

O tétano é uma doença imunoprevenível causada pelo Clostridium tetani. Enquanto o diagnóstico de tétano materno e neonatal decresceu ao longo dos anos, graças às campanhas de vacinação, o de tétano acidental persiste como sério problema de saúde pública em diversos países de baixa e media renda, inclusive no Brasil.

Um estudo recente teve como objetivo descrever o perfil clínico, curso em UTI, gravidade, infecções associadas à assistência (IRAS), microbiologia e desfechos de pacientes com tétano acidental em um hospital de referência no Rio de Janeiro ao longo de 13 anos (2013–2025).

Tétano acidental: estudo revela alta gravidade e mortalidade

Foto microscópica do Clostridium tetani. Imagem de CDC/ Dr. Lillian V. Holdeman

Métodos do estudo

Trata-se de uma coorte retrospectiva realizada no Instituto Estadual de Infectologia São Sebastião (IEISS/HFSE), no Rio de Janeiro. Foram incluídos 30 pacientes consecutivos com diagnóstico de tétano acidental, segundo os critérios do sistema nacional de vigilância epidemiológica. Foram avaliadas características sociodemográficas, características da lesão de entrada, gravidade clínica, necessidade de suporte intensivo, infecções hospitalares, microbiologia e mortalidade.

Características da população estudada

A maioria dos pacientes era do sexo masculino (80%), com mediana de idade de 43 anos. Predominaram moradores de áreas urbanas e pacientes sem vacinação documentada ou com histórico vacinal incompleto. As lesões perfurantes em membros inferiores foram a principal porta de entrada da infecção. Os principais sinais clínicos foram trismo (83,3%), rigidez cervical (56,7%) e opistótono (36,7%). A maior parte dos pacientes apresentava formas graves da doença, sendo 60% classificados como Ablett IV.

Principais resultados clínicos e desfechos

O estudo evidenciou elevado consumo de recursos intensivos. A admissão em UTI ocorreu em 93,3% dos casos. Ventilação mecânica foi necessária em 83,3% dos pacientes e traqueostomia foi realizada em 80%. A mediana de permanência em UTI foi de 28 dias, com alguns pacientes permanecendo internados por mais de 70 dias.

As IRAS ocorreram em 70% dos pacientes. A principal complicação infecciosa foi pneumonia associada à ventilação mecânica (PAV), presente em 66,7% dos casos. Também foram observadas infecções de corrente sanguínea e infecções urinárias. Houve predomínio de Acinetobacter baumannii e Pseudomonas aeruginosa e Staphylococcus aureus. O estudo identificou frequência importante de microrganismos multirresistentes, incluindo cepas resistentes a carbapenêmicos.

A mortalidade hospitalar foi de 26,7%. Os óbitos concentraram-se principalmente em pacientes com idade ≥ 60 anos e naqueles com doença classificada como Ablett IV. Todos os pacientes que evoluíram para óbito necessitaram ventilação mecânica.

A imunoglobulina antitetânica humana foi utilizada na quase totalidade dos casos. Metronidazol e penicilina foram os principais antibióticos empregados para o tratamento do tétano.

Implicações para a prática clínica

Os autores destacam que o tétano continua sendo uma doença altamente grave e consumidora de recursos hospitalares, mesmo em centros especializados. O trabalho enfatiza a necessidade de protocolos estruturados de manejo de via aérea, estratégias padronizadas de traqueostomia, desmame ventilatório e implementação rigorosa de bundles de prevenção de PAV. Também reforça a importância do stewardship antimicrobiano diante da elevada frequência de infecções por bactérias multirresistentes.

Autoria

Foto de Raissa Moraes

Raissa Moraes

Editora médica de Infectologia da Afya ⦁ Médica do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas/FIOCRUZ ⦁ Mestrado em Pesquisa Clínica pelo Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas/FIOCRUZ ⦁ Infectologista pelo Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas/FIOCRUZ ⦁ Graduação em Medicina pela Universidade Federal Fluminense

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