O tratamento atual recomendado para infecções ósseas e articulares envolve procedimentos cirúrgicos e antibioticoterapia prolongada, a qual frequentemente está associada ao desenvolvimento de eventos adversos.
A combinação de sulfametoxazol-trimetoprim, também conhecida como cotrimoxazol, é uma opção para o tratamento de osteomielite e artrite séptica, possuindo uma apresentação oral com boa biodisponibilidade e ação contra bactérias Gram-positivas e Gram-negativas.
Um estudo publicado na Journal of Antimicrobial Chemotherapy procurou comparar o desfecho de pacientes com infecções ósseas e articulares relacionadas a dispositivos tratados com esquemas com e sem cotrimoxazol.

Materiais e métodos
Trata-se de um estudo de caso-controle retrospectivo conduzido a partir de dados de pacientes de quatro hospitais universitários franceses. A triagem dos pacientes foi feita por meio da base de dados do “Registro francês de infecções complexas de osso e articulações”, considerando todos os registros consecutivos de adultos com o diagnóstico de infecções ósseas e articulares entre os anos de 2011 e 2012.
Indivíduos foram incluídos se eles preenchiam critérios para o diagnóstico de infecção óssea ou articular aguda associada a dispositivo confirmado por equipe multidisciplinar. O diagnóstico foi baseado na presença de sinais e sintomas associados a uma cultura positiva coletada em procedimento cirúrgico. Os pacientes tratados com cotrimoxazol deveriam ter pelo menos um microrganismo isolado em cultura com sensibilidade a esse antibiótico.
Critérios de exclusão incluíram ausência de cirurgia, infecções não relacionadas a dispositivo, recorrência de infecção anterior, ausência de documentação microbiológica, gestação, infecção neurológica ou meníngea, infecção de pele e partes moles e tratamento paliativo.
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Todos os indivíduos incluídos que receberam pelo menos uma dose de cotrimoxazol foram alocados no grupo de cotrimoxazol e foram pareados com dois outros indivíduos em tratamento com outros esquemas antibióticos. O pareamento foi estratificado por idade e por etiologia (estafilocócica vs. outros tipos de infecção).
Em todos os centros recrutadores, o esquema antibiótico inicial seguiu o protocolo de piperacilina/tazobactam e linezolida intravenosos. O tratamento definitivo foi decidido pela equipe assistente após os resultados de microbiologia.
O desfecho primário foi morte ou falha terapêutica durante o acompanhamento, sendo a última definida como persistência ou recorrência de sinais de infecção e/ou cirurgia com sinais de infecção no perioperatório e/ou cultura de tecido positiva após tratamento. Desfechos secundários avaliados incluíram óbito, falha terapêutica, cura com sequelas funcionais maiores (definidas como amputação ou artrodese), eventos adversos e descontinuação prematura do esquema devido à presença de eventos adversos.
Resultados
Foram incluídos 150 participantes: 50 no grupo de cotrimoxazol e 100 no grupo controle. Os grupos eram semelhantes na distribuição por idade, sexo e comorbidades. Infecções de prótese articular corresponderam a 42% dos casos e infecções relacionadas a material de osteossíntese, a 58%.
Os principais agentes etiológicos identificados foram Staphylococcus aureus (40,1%), seguidos de bacilos Gram-negativos (29,3%), os quais foram mais frequentes no grupo do cotrimoxazol. Infecções polimicrobianas estavam presentes em 27% dos casos. Todos os participantes foram tratados cirurgicamente antes do início de antibioticoterapia e a mediana de tempo de seguimento foi de 22,4 meses (12,8 – 30,2).
Para as infecções com prótese articular, em 60% dos casos houve troca de dispositivo, com desbridamento e retenção de prótese em 32%. Já para as infecções relacionadas com osteossíntese, 48% necessitaram de retirada de material e 30%, de desbridamento. Em ambos os grupos, a maioria dos pacientes recebeu antibioticoterapia combinada como tratamento definitivo.
A taxa de ocorrência do desfecho primário (óbito ou falha terapêutica) foi de 18% no grupo de cotrimoxazol e de 21% no grupo controle (p = 0,66). Não houve diferenças nas taxas de desfecho primário dentro do grupo de cotrimoxazol de acordo com a posologia e nem de acordo com classes de antibióticos concomitantes (fluoroquinolonas vs. outros antibióticos). Análise por subgrupos (infecções estafilocócicas e retenção de prótese articular) não mostrou diferença no desfecho primário entre os grupos de cotrimoxazol e controle.
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Não houve diferença entre os grupos na análise dos desfechos secundários, exceto pela ocorrência de eventos adversos (34% no grupo do cotrimoxazol e 18% no grupo controle). Entretanto, não houve diferença significativa na taxa de interrupção de tratamento. Somente um participante em cada grupo desenvolveu evento adverso grave necessitando de hospitalização.
Para o grupo que recebeu cotrimoxazol, os eventos adversos foram mais frequentes com doses mais elevadas. Os mais comuns foram mielotoxicidade (18%), rash cutâneo (8%) e disfunção renal (8%) e se desenvolveram após uma mediana de 4 semanas de tratamento.
Mensagens finais
- Cotrimoxazol se mostrou uma opção eficaz para o tratamento de infecções ósseas e articulares relacionadas a dispositivos.
- Apesar de estar relacionado com uma maior frequência de eventos adversos, o uso de cotrimoxazol não levou a maiores taxas de descontinuação de tratamento.
- A ocorrência de eventos adversos esteve associada a maiores dosagens de cotrimoxazol.
- Importante notar que a maioria dos participantes incluídos no estudo, em ambos os grupos, recebeu terapia antibiótica combinada. Outro ponto importante é que cotrimoxazol foi frequentemente utilizado no tratamento de infecções polimicrobianas.
Autoria

Isabel Cristina Melo Mendes
Editora médica na Afya. Formada em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com residência médica em Infectologia pela mesma instituição (2020). Além da atuação na Afya, é médica no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (UFRJ) e no Centro de Saúde Escola Germano Sinval Faria, na Escola Nacional de Saúde Pública/Fiocruz.
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