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Infectologia18 julho 2026

Infecção por Clostridioides difficile: nova diretriz da AGA 2026

Nova diretriz da AGA traz recomendações práticas sobre diagnóstico, prevenção e tratamento da infecção por Clostridioides difficile em adultos
Por Leandro Lima

A infecção por C. difficile (ICD) é uma das principais causas de diarreia associada a antibióticos, com cerca de 365.200 casos diagnosticados anualmente nos Estados Unidos. O quadro pode evoluir com múltiplas recorrências e progredir para formas graves e fulminantes.

Infecção por Clostridioides difficile: nova diretriz da AGA 2026

Testagem em etapas

O diagnóstico da ICD é clínico e laboratorial, dependendo da presença de diarreia aguda inexplicada, geralmente após uso de antibióticos ou na presença de fatores de fatores de risco, como idade avançada, imunossupressão ou doença inflamatória intestinal; com amparo da testagem fecal.

A triagem inicial deve ser realizada pela dosagem fecal de glutamato desidrogenase (GDH) ou reação em cadeia da polimerase (PCR), seguida por imunoensaio para as toxina A e B.

A positividade isolada do GDH ou PCR pode se dever somente à colonização assintomática, situação presente em 4-15% dos adultos saudáveis e que chega a 50% em residentes de instituições de longa permanência. Em casos de resultados discordantes (GDH ou PCR positivos, com toxina negativa) o tratamento não deve ser postergado quando a suspeita clínica for alta.

Saiba mais: Clostridiodes difficile: os principais equívocos

Estabelecendo a gravidade da infecção

Cenário clínicoCaracterísticasAntibioticoterapia
LeveAusência dos elementos abaixo;Fidaxomicina VO 200 mg 12/12h (10 dias)

Ou

Vancomicina VO 125 mg 6/6h (10 dias)

GraveLeucocitose > 15.000/mm³ ou Creatinina > 1,5 mg/dL ou ↑1,5 vezes o valor basalVancomicina VO 125 mg 6/6h (10 dias)
FulminanteChoque séptico, íleo ou megacólon tóxicoVancomicina VO/SNE/VR 500 mg 6/6h (10 dias)
+ Metronidazol EV 500 mg 8/8h (10 dias)

As formas graves e fulminantes cursam com maior risco de recorrência e desfechos desfavoráveis. A mortalidade pode ultrapassar os 40% nos quadros fulminantes com demanda por intervenção cirúrgica ou múltiplas comorbidades.

Vancomicina vs. fidaxomicina

Para a infecção não fulminante, a fidaxomicina, na dose de 200 mg por via oral a cada 12 horas por 10 dias, é a terapia de primeira escolha por seu espectro mais estreito e menor taxa de recorrência em relação à vancomicina, com redução do risco entre 6-11%. A vancomicina oral, 125 mg quatro vezes ao dia por 10 dias, continua sendo uma alternativa aceitável, especialmente diante de considerações práticas de custo e acesso. Em uma revisão da Cochrane, a fidaxomicina foi mais efetiva do que a vancomicina em alcançar cura sintomática sem implicar em recorrência em 1 mês (71% vs. 61%, IC 95%: 1,07-1,27)

O metronidazol não deve mais ser utilizado fora do contexto da doença fulminante, quando é associado à vancomicina em altas doses. Nesses casos, a administração do metronidazol deve ser endovenosa, na dose de 500 mg de 8/8h; e a vancomicina deve ser administrada na dose de 500 mg 6/6h, seja por via oral, enteral ou, nos casos de íleo, pela via retal.

A diretriz também recomenda avaliar a resposta clínica, definida como redução de ao menos 50% no número de evacuações líquidas diárias, dentro de 3 a 5 dias de tratamento, seja com fidaxomicina ou vancomicina oral. Na ausência de resposta terapêutica, diagnósticos alternativos devem ser avaliados

Manejo da infecção recorrente e indicação do transplante de microbiota fecal

A primeira recorrência, definida como novo episódio dentro de 8 semanas após o término do tratamento, deve ser tratada com um agente diferente do utilizado inicialmente, por meio de esquemas de desmame ou pulso de vancomicina (125 mg 6/6h por 14 dias à 125 mg 12/12h por 14 dias à 125 mg 24/24h por 14 dias à 125 mg 3/3 dias por 14 dias), ou do protocolo estendido com fidaxomicina (200 mg 12/12h por 5 dias; 200 mg/dia, em dias alternados, por 20 dias adicionais).

As terapias baseadas em microbiota fecal, incluindo o transplante convencional, devem ser oferecidas após a segunda recorrência (3° episódio em diante), podendo ser antecipadas em pacientes de alto risco ou com quadros iniciais graves. Em pacientes que não são candidatos a essas terapias, a vancomicina oral em baixa dose (125 mg, 1x/dia) prolongada pode ser considerada como profilaxia secundária, embora o risco de recorrência após a suspensão ainda seja significativo. O acesso às terapias pautadas em microbiotas pode ser pleiteado junto a bancos de fezes, geralmente vinculados às instituições federais de ensino.

O uso de inibidores de bomba de prótons (IBPs) é um fator de risco para infecção por C. difficile. Portanto, a indicação terapêutica deve ser criteriosamente avaliada, com manutenção da classe somente nos casos pertinentes.

Saiba mais: Anticorpo monoclonal pode prevenir infecção recorrente por Clostridioides difficile?

Na infecção fulminante, o manejo multidisciplinar é essencial, incluindo gastroenterologista, cirurgião do aparelho digestivo, infectologista, intensivistas e nutrólogos, com vancomicina em altas doses (500 mg VO, SNE ou VR 6/6h) associada ao metronidazol intravenoso (500 mg EV 8/8h).

O transplante de microbiota fecal por múltiplas doses, via endoscopia baixa, deve ser considerado nos casos refratários à terapia medicamentosa otimizada, com dados observacionais sugerindo redução de mortalidade nesse cenário.

Mensagem prática

  • A fidaxomicina é a primeira opção nos casos não graves de infecção por C. difficile. No contexto brasileiro, diante da indisponibilidade da droga, a alternativa aceita é a vancomicina oral. Em casos tratados ambulatorialmente, o acesso à vancomicina pode ser obtido por meio de algumas clínicas de gastroenterologia ou farmácias dedicadas. O metronidazol somente deve ser utilizado enquanto adjuvante da vancomicina em doses altas no cenário da infecção fulminante.
  • Os probióticos não devem ser indicados para a prevenção primária ou secundária de infecção por C. difficile; e os IBPs devem ser suspensos na ausência de indicação clara. sem indicação clara.
  • Não há indicação de teste de cura de rotina nas fezes, sendo a resposta terapêutica pautada na redução da frequência da diarreia em 3 dias, bem como na melhora de parâmetros infecciosos clínicos e laboratoriais.

Este artigo foi elaborado com auxílio de IA e revisado pela equipe médica do Portal Afya.

Autoria

Foto de Leandro Lima

Leandro Lima

Editor médico na Afya. Médico pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Residência em Clínica Médica e Gastroenterologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG - 2018). Endoscopia digestiva pela UFJF (2019). Preceptor do Serviço de Medicina Interna do Hospital Universitário da UFJF (HU-UFJF) e membro do corpo clínico do Hospital Monte Sinai desde 2019.

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Referências bibliográficas

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