O sarampo é uma doença altamente contagiosa, mas com possibilidade de controle por meio de vacinação. Entretanto, estima-se que, para que se alcance imunidade de rebanho, seja necessária uma cobertura vacinal acima de 90% de uma população.
Nos últimos anos, diversos países do mundo têm vivenciado aumentos no número de casos de sarampo, especialmente nos com cobertura vacinal subótima. Além disso, a potencial perda de imunidade vacinal ao longo do tempo pode contribuir para a ocorrência de surtos.
Em avaliação laboratorial, um valor de anticorpos neutralizantes > 120 mUI/mL é considerado como correlato de imunidade e uma queda no nível de anticorpos pode estar associado a perda de proteção. Contudo, avaliação adequada da imunidade obtida por vacinação é difícil, uma vez que envolve tanto o braço humoral quanto o celular da resposta imune. Além disso, indivíduos vacinados podem ter transmissibilidade diminuída, o que contribui para a proteção coletiva.
Um estudo finlandês procurou avaliar a imunidade de rebanho e a proporção da população que precisa estar imune para sustentá-la em um local com baixa transmissão sustentada.

Como o estudo foi realizado
Dados longitudinais de uma coorte finlandesa de indivíduos vacinados contra sarampo com a vacina MMR foram usados para estimar a queda nos títulos de anticorpos ao longo do tempo em uma população sem circulação do vírus do sarampo.
A análise seguiu 167 participantes inicialmente soronegativos para sarampo após a segunda dose de vacina, com coleta de sangue para avaliação aos 6, 7, 10, 13, 16, 21, 26 e 31 anos.
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Quais foram os principais resultados
Dos 167 participantes elegíveis, 157 tinham pelo menos uma amostra de soro coletada no período de seguimento entre 6 e 31 anos, após a segunda dose de MMR aos 6 anos. A mediana de seguimento foi de mais de 20 anos.
A concentração de anticorpos avaliada pelo método de inibição por hemaglutinação (HI) mostrou queda na dosagem de anticorpos de uma concentração média geométrica (GMC) de 4859 mUI/mL após a dose de booster para 430 um/mL aos 21 anos. Ensaios com imunoensaio enzimático para IgG (EIA) mostraram uma redução posterior de 390 mUI/mL aos 21 anos para 331 mUI/mL aos 31. Nas amostras coletadas com maior tempo de seguimento, uma proporção maior mostrou níveis < 120 mUI/mL, mas o número absoluto de amostras abaixo desse valor de corte foi pequeno.
Por modelagem matemática, os autores estimaram os níveis de anticorpos por idade e a proporção da população com anticorpos acima dos níveis considerados protetores ao longo do tempo. Assumindo o valor de 120 mUI/mL como corte, a proporção de indivíduos acima desse valor permanece acima de 90% até as idades de 55 a 80 anos, permanecendo acima de 70% após. Em uma análise que considera que a cinética de anticorpos apresente uma queda mais lenta, a proporção permanece acima de 90% em todas as idades.
Mensagens para a prática clínica
- Os resultados sugerem proteção duradoura para toda a vida contra a transmissão de sarampo, mesmo em uma população pouco exposta.
- As estimativas mostram um declínio mais intenso nos primeiros 10 anos, com reduções mais lentas posteriormente.
- Os autores discutem também que, se a cinética de anticorpos seguir as modelagens utilizadas, a ausência de surtos de sarampo na Finlândia sugere que o corte necessário para interromper a transmissão deve ser muito menor do que 120 mUI/mL.
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Autoria

Isabel Melo
Editora médica na Afya. Formada em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com residência médica em Infectologia pela mesma instituição (2020). Além da atuação na Afya, é médica no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (UFRJ) e no Centro de Saúde Escola Germano Sinval Faria, na Escola Nacional de Saúde Pública/Fiocruz.
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