Cânceres associados ao HPV provocaram, em média, 29.155 internações e 7.526 mortes por ano no Brasil entre 2011 e 2019, segundo um estudo observacional retrospectivo publicado em 2026 no periódico Human Vaccines & Immunotherapeutics. Os dados, extraídos do Sistema de Informações Hospitalares (SIH) e do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), reforçam que a carga de doença relacionada ao papilomavírus humano vai bem além do câncer cervical e impõe desafios assistenciais concretos para ambos os sexos.

O câncer de colo do útero lidera as hospitalizações por HPV no país
O câncer cervical dominou o cenário de internações atribuíveis ao HPV no período, com os seguintes destaques:
- 195.035 hospitalizações totais, todas atribuíveis ao HPV, representando 74,3% de todas as internações atribuíveis ao HPV em ambos os sexos
- Taxa média de 24.921 internações/ano entre mulheres (24,0 por 100.000)
- 52.383 óbitos (5,6 por 100.000 mulheres) por câncer cervical, correspondendo a 77,3% das mortesatribuíveis ao HPV em ambos os sexos.
As tendências temporais mostraram comportamento bifásico nas internações por câncer cervical:
- 2011–2016: queda de 4,7% ao ano (variação percentual anual: −4,7%)
- 2016–2019: reversão com alta de 3,9% ao ano (VPA: +3,9%)
- Mortalidade: elevação modesta, porém significativa, ao longo de todo o período (variação percentual anual média: +0,7%; p ≤ 0,05)
Esses dados são coerentes com a baixa cobertura do rastreamento citológico no país, estimada em cerca de 40% das mulheres elegíveis, e com o diagnóstico tardio em mais de 60% dos casos.
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Por que o câncer anal preocupa médicos em ambos os sexos?
O câncer anal emergiu como o achado de maior crescimento no período. Os números de mortalidade entre 2017 e 2019 foram especialmente expressivos:
- Internações: VPAM de 3,1% (IC 95%: 1,4–4,4; p ≤ 0,05) em ambos os sexos
- Mortalidade em mulheres: VPA de 26,2% entre 2017 e 2019
- Mortalidade em homens: VPA de 52,5% no mesmo período
- Mortalidade combinada: VPAM de 10,9% (IC 95%: 9,5–12,5; p ≤ 0,05) no período completo
- Total de óbitos: 4.099, todos classificados como atribuíveis ao HPV
O SUS ainda não dispõe de protocolo formal de rastreamento para câncer anal, e as diretrizes nacionais de manejo de infecção pelo HIV de 2024 recomendam vigilância clínica com citologia e anuscopia de alta resolução apenas como ferramentas diagnósticas, sem implementação padronizada. Na prática, pacientes de alto risco, como mulheres com histórico de lesão por HPV em outro sítio genital e homens que fazem sexo com homens vivendo com HIV, chegam frequentemente ao diagnóstico em estágios avançados.
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Identificar o perfil etário orienta a suspeita diagnóstica
O câncer cervical apresentou o perfil etário mais precoce entre as neoplasias analisadas:
- Mediana à internação: 47 anos
- Mediana ao óbito: 56 anos
Os demais cânceres em mulheres concentraram internações entre 58 e 65 anos, com o câncer vulvar exibindo a distribuição mais tardia (mediana de 65 anos). Nos homens, as medianas à internação variaram entre 57 e 61 anos para todos os tipos analisados.
Homens concentram a maior mortalidade por cânceres de cabeça e pescoço
As razões de taxas de mortalidade homens: mulheres evidenciam a desproporção do impacto nos homens para esses tipos de câncer:
- Câncer de laringe: razão de 7,6
- Câncer de orofaringe: razão de 5,5
- Câncer de cavidade oral: razão de 2,8
Apesar do alto volume total de hospitalizações por cânceres de cabeça e pescoço (235.815 no período), apenas 9,2% foram classificadas como atribuíveis ao HPV, refletindo as frações de atribuição mais baixas para cânceres de laringe e cavidade oral. Após aplicação dessas frações, o câncer de orofaringe emergiu como a principal neoplasia atribuível ao HPV em homens (12.399 internações; 1,4 por 100.000 homens), seguido pelo câncer peniano (8.843 internações; 1,0 por 100.000 homens).
Se a vacinação contra o HPV avançar, o cenário epidemiológico pode mudar
O programa nacional de imunização utiliza atualmente a vacina quadrivalente, que confere proteção contra os genótipos 6, 11, 16 e 18. Dados genotípicos indicam que outros tipos de alto risco respondem por cerca de 20% dos casos de câncer cervical invasivo no Brasil. Embora o genótipo 16 seja o principal em casos de câncer de orofaringe relacionados ao HPV, outros genótipos de alto risco não contemplados na vacina quadrivalente também são relevantes em outros tipos de neoplasias relacionadas ao HPV, como câncer de pênis e de canal anal. A vacina nonavalente cobriria os genótipos responsáveis por aproximadamente 90% dos casos cervicais no país, ampliando a prevenção também para esses cânceres.
Saiba mais: Indicações das vacinas contra o HPV no Brasil
O estudo apresenta algumas limitações:
- O uso de dados secundários, obtidos dos sistemas de informação de hospitalização e mortalidade, que podem ser afetados por subnotificação, classificação inadequada e heterogeneidade regional na qualidade dos dados.
- A atribuição dos tipos de câncer ao HPV foi estimada baseada em dados publicados na literatura e não em dados individuais de testagem. Esse fato pode introduzir incertezas, especialmente em cânceres com frações atribuíveis baixas.
- A exclusão de dados do setor privado pode levar a subestimação da carga total. Acredita-se que pacientes atendidos no setor privado têm maior probabilidade de serem diagnosticados em estágios mais precoces devido a melhor acesso a serviços diagnósticos e de rastreio, o que resultaria em menores taxas de hospitalização e mortalidade comparadas com as do sistema público.
- A interpretação das tendências dessas doenças ao longo do tempo exige consideração cuidadosa de fatores epidemiológicos, como prevalência de HPV (que é influenciada por padrões de comportamento, vacinação e coinfecções como com HIV) e acesso a métodos de rastreio e a serviços de tratamento de câncer. Todos esses fatores influenciam as taxas de hospitalização e mortalidade.
Mensagem prática
Para o clínico em atividade, os dados reforçam três condutas prioritárias:
- Ampliar a suspeita diagnóstica: orofaringe, ânus e pênis integram o espectro HPV-atribuível e demandam atenção em pacientes com fatores predisponentes, especialmente imunossuprimidos
- Vigilância anal ativa: considerar em mulheres com histórico de lesão cervical ou vulvar de alto grau e em homens que fazem sexo com homens vivendo com HIV, mesmo sem protocolo formal disponível no SUS
- Reforçar a vacinação: orientar pacientes elegíveis sobre a vacina disponível no programa público, priorizando coortes ainda não imunizadas
A identificação precoce dessas neoplasias, associada à expansão vacinal e ao fortalecimento do rastreamento, representa o caminho mais eficaz para reverter as tendências crescentes observadas.
Este artigo foi elaborado com auxílio de IA e revisado pela equipe médica do Portal Afya.
Autoria

Isabel Cristina Melo Mendes
Infectologista pelo Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (UFRJ) ⦁ Graduação em Medicina na Universidade Federal do Rio de Janeiro
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