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Infectologia28 julho 2026

Hantavírus: revisão sobre transmissão, diagnóstico, prevenção e desafios globais

Revisão resumiu o conhecimento atual sobre a transmissão, epidemiologia global, mecanismos, manifestações e abordagens para o hantavírus
Por Camila Rangel

As hantaviroses, zoonoses virais historicamente associadas a nichos ecológicos bem delimitados, passam por uma reconfiguração epidemiológica impulsionada por mudanças climáticas, expansão urbana e maior mobilidade global. Uma revisão publicada em julho de 2026 na revista Infection mostrou uma perspectiva atualizada e integrada sobre as infecções por hantavírus no contexto das transformações ambientais globais, destacando os desafios diagnósticos e terapêuticos.

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Hantavírus: revisão sobre transmissão, diagnóstico, prevenção e desafios globais

Linfócito atípico e aumentado encontrado em um esfregaço sanguíneo de um paciente com síndrome pulmonar por hantavírus (SPH). Imagem de CDC/ Dr. Sherif R. Zaki

Transmissão e epidemiologia

Os hantavírus são patógenos zoonóticos mantidos na natureza por reservatórios roedores específicos, com transmissão humana ocorrendo principalmente pela inalação de partículas virais aerossolizadas provenientes de urina, fezes ou saliva de roedores infectados. Duas grandes síndromes clínicas estão associadas à infecção: a febre hemorrágica com síndrome renal (FHSR), predominante na Europa e Ásia e a síndrome cardiopulmonar por hantavírus (SCPH), mais descrita nas Américas.

A FHSR cursa com febre, trombocitopenia, manifestações hemorrágicas e lesão renal aguda. Já a SCPH é caracterizada por um pródromo febril evoluindo com edema pulmonar não cardiogênico, choque circulatório e óbito. As taxas de letalidade variam amplamente conforme a cepa viral, de menos de 1% em casos leves de FHSR pelo vírus Puumala, a até mais de 30% nas formas graves de SCPH associadas ao vírus Andes.

Em ambas as formas, a chave fisiopatológica não é o dano citopático direto do vírus, mas uma disfunção endotelial imunomediada. A gravidade da doença é mediada principalmente por mecanismos inflamatórios e imunológicos do hospedeiro. A chamada “tempestade de citocinas“, com elevação de TNF-α, IL-6 e IFN-γ, contribui para as formas graves.

Um destaque da revisão é a epidemiologia crescente do vírus Seoul (SEOV), associado a ratos domésticos e de estimação, com distribuição global e potencial de ocorrência em regiões não endêmicas.

Diagnóstico e tratamento

O diagnóstico permanece desafiador pela apresentação inicial inespecífica, que se assemelha a outras doenças virais, como leptospirose, dengue e gripe. A sorologia por ELISA para detecção de IgM e IgG específicos continua sendo a base do diagnóstico, enquanto o RT-PCR permite identificar RNA viral na fase inicial da infecção.

Até o momento, não existe terapia antiviral universalmente aprovada para infecções por hantavírus e o manejo permanece sendo de suporte, focado em estabilização hemodinâmica, suporte respiratório e tratamento das complicações. A Ribavirina demonstrou benefício limitado na FHSR por cepas do Velho Mundo quando iniciada precocemente, mas não mostrou eficácia consistente na SCPH.

Perspectivas

Não existem vacinas disponíveis globalmente (vacinas inativadas são usadas de forma restrita em países como China e Coreia do Sul). Vacinas baseadas em mRNA estão em investigação e representam uma perspectiva promissora.

Os autores enfatizam que mudanças climáticas, desmatamento, urbanização e mobilidade mundial estão expandindo os limites epidemiológicos dos hantavírus. A abordagem One Health, integrando vigilância humana, animal e ambiental, é essencial para detecção precoce, resposta coordenada e previsibilidade de surtos.

Por fim, a mensagem prática é clara: suspeitar de hantavírus mesmo em regiões não endêmicas, incluir a exposição a roedores (inclusive de estimação) na anamnese e reconhecer que o diagnóstico precoce ainda é o principal determinante de desfecho favorável.

Autoria

Foto de Camila Rangel

Camila Rangel

Médica graduada pela Universidade Federal de Juiz de Fora em 2018. Infectologista pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais de 2019 a 2022. Mestra pela Faculdade de Medicina da UFMG em 2025. Infectologista do Controle de Infecção Hospitalar do HC-UFMG e Auditora Médica da Unimed Federação Minas.

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Referências bibliográficas

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