Os esquemas baseados em inibidores da integrasse de segunda geração são a base da terapia antirretroviral (TARV) de primeira linha. Nesse contexto, o dolutegravir/lamivudina (DTG/3TC) é o único regime de dois fármacos indicado até o momento para o início do tratamento do HIV, com eficácia comparável a esquemas de três ou quatro fármacos em ensaios randomizados e com ampla evidência de vida real. No entanto, faltava a comparação entre esse fármaco e o bictegravir/entricitabina/tenofovir alafenamida (BIC/FTC/TAF), sendo um dos esquemas com três fármacos mais utilizados no tratamento. O esquema bictegravir/entricitabina/tenofovir alafenamida começou a ser distribuído no Brasil via SUS em agosto de 2026. O estudo VOGUE é o primeiro ensaio randomizado que analisa essas duas terapias em pacientes virgens de tratamento.

Como foi realizado o estudo VOGUE sobre terapia antirretroviral inicial?
Trata-se de ensaio de fase 3b, randomizado 1:1 (carga viral < 100.000 vs ≥ 100.000 cópias/mL e CD4 <200 vs ≥ 200 células/mm³), aberto, multicêntrico e de não inferioridade. Foram incluídos adultos com HIV-1 sem uso prévio de TARV, sem exames de carga viral ou CD4 na admissão. A genotipagem era coletada na triagem, mas a randomização e o início do tratamento foram realizados antes do resultado. Os participantes com mutações maiores para inibidores da integrasse ou ITRN descontinuavam o estudo assim que resultado estivesse disponível. A infecção ativa pelo vírus da hepatite B (HBV) era critério de exclusão (pacientes com anti-HBc positivo, mas com carga viral do HBV indetectável podiam participar). O desfecho primário avaliado foi a proporção de paciente com carga viral abaixo de 50 cópias na semana 48 do estudo.
DTG/3TC é não inferior ao esquema triplo BIC/FTC/TAF?
509 pacientes foram randomizados, sendo 254 no grupo DTG/3TC e 255 no grupo BIC/FTC/TAF. Considerando o limiar de < 50 cópias/mL na semana 48, as taxas encontradas foram, de 89 e 92%, respectivamente. O tempo mediano de supressão da carga viral foi de 4,1 semanas em ambos os braços, com razão de risco ajustada de 1,23 (IC 95% 1,03-1,47; P 0,0357), evidenciando favorabilidade ao grupo DTG/3TC. Nos estratos de carga viral alta, as respostas foram de 85 vs 89%; com CD4>200, de 78% vs 85%. A retirada por falha virológica confirmada ocorreu em sete participantes de cada grupo, sem resistência emergente identificada nas amostras avaliáveis. Mutações de resistência foram encontradas em 1% dos participantes avaliados.
O que o estudo VOGUE muda na prática do tratamento inicial do HIV?
O estudo apoia o uso de DTG/3TC como opção inicial robusta mesmo em cenários antes vistos com cautela: CV elevada, CD4 baixo e início do tratamento antes do resultado da genotipagem para avaliação de resistência. Por fim, deve-se manter os cuidados já conhecidos: excluir infecção ativa por HBV e reavaliar o genótipo assim que disponível. Vale ressaltar o desenho aberto, o seguimento de 48 semanas (com os dados de 96 semanas ainda pendentes) e o financiamento pelo fabricante.
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Autoria

Camila Rangel
Médica graduada pela Universidade Federal de Juiz de Fora em 2018. Infectologista pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais de 2019 a 2022. Mestra pela Faculdade de Medicina da UFMG em 2025. Infectologista do Controle de Infecção Hospitalar do HC-UFMG e Auditora Médica da Unimed Federação Minas.
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