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Infectologia29 junho 2026

Dengue pediátrica: OMS define prioridades terapêuticas

Organização Mundial da Saúde divulga terapias e formulações infantis em desenvolvimento para dengue não grave e grave
Por Isabel Melo

A dengue pediátrica permanece como uma importante preocupação clínica, especialmente porque a maior parte das pessoas acometidas pela doença tem menos de 15 anos e crianças pequenas apresentam maior risco de complicações. Em um contexto em que não existem tratamentos licenciados para dengue e o manejo continua baseado em cuidados de suporte, a Organização Mundial da Saúde (OMS) realizou o primeiro exercício de otimização pediátrica de medicamentos (Paediatric Drug Optimization – PADO) voltado para a doença. O objetivo foi orientar o desenvolvimento de futuras terapêuticas para crianças e incorporar necessidades pediátricas desde as fases iniciais da pesquisa.

Saiba mais: Dengue grave pediátrica: estudo avaliou perfil epidemiológico nos últimos 5 anos

Dengue pediátrica: OMS define prioridades terapêuticas

O PADO para dengue orienta o desenvolvimento de medicamentos pediátricos

O PADO é um processo de definição de prioridades para pesquisa e desenvolvimento de medicamentos destinados à população pediátrica. Diferentemente de uma diretriz clínica, não tem como finalidade recomendar tratamentos, mas identificar produtos e formulações que merecem atenção prioritária.

Para a dengue, o exercício reuniu especialistas, pesquisadores, reguladores e representantes de organizações internacionais. A metodologia incluiu análise de documentos da OMS, revisão do rascunho do perfil-alvo de produto (Target Product Profile – TPP) para terapêuticas contra dengue, contribuições de consulta pública e avaliação de candidatos terapêuticos em desenvolvimento clínico.

Quais aspectos das formulações pediátricas receberam maior atenção?

As discussões concentraram-se nas características que podem influenciar a administração de medicamentos em crianças com dengue não grave e grave. Entre os fatores avaliados estiveram flexibilidade de dose, aceitabilidade, possibilidade de vômitos, estabilidade em clima tropical, tolerabilidade gastrointestinal e requisitos alimentares.

Para crianças sem vômitos persistentes, os participantes consideraram o comprimido orodispersível palatável como a formulação ideal. A escolha foi baseada na facilidade de administração, especialmente em pacientes com dificuldade para engolir, e na menor dependência de água para uso ambulatorial.

Formulações líquidas foram reconhecidas como úteis pela flexibilidade de dose, mas apresentaram limitações relacionadas à estabilidade química e microbiológica. Já as formulações bucais, sublinguais e retais não foram consideradas adequadas para compor as características preferenciais dos futuros produtos destinados à dengue pediátrica.

Priorize a terapêutica para dengue com foco na administração adequada

Para dengue não grave, o grupo definiu como características mínimas aceitáveis uma formulação oral sólida palatável administrável inteira ou dispersa, além da possibilidade de produtos injetáveis em dose única. Como característica ideal, foi apontado o uso de formulações orais, preferencialmente comprimidos orodispersíveis.

Nos casos de dengue grave, a via intravenosa foi considerada a principal alternativa para administração. Apesar disso, os especialistas observaram que algumas pessoas com doença grave ainda podem tolerar medicamentos por via oral, motivo pelo qual uma formulação sólida capaz de ser utilizada inteira ou dispersa também foi considerada desejável.

Outro ponto destacado foi a necessidade de investigar, durante o desenvolvimento clínico, a absorção de medicamentos administrados por via oral em pacientes com dengue grave.

Leia também: Terapias medicamentosas em casos de dengue: pontos de atenção

A maioria dos casos ocorre antes dos 15 anos, reforçando o manejo da dengue em crianças

Segundo o relatório, a maior parte das pessoas acometidas pela dengue é composta por crianças menores de 15 anos. O documento também destaca que crianças pequenas apresentam maior risco de evolução para formas graves e complicações.

Essas características reforçam a importância de incorporar precocemente a população pediátrica aos programas de desenvolvimento de novas terapias, reduzindo o atraso historicamente observado entre a investigação de medicamentos para adultos e para crianças.

Entenda: Dengue: apresentação clínica da doença

Se novos antivirais para dengue avançarem, estudos pediátricos deverão acompanhar o desenvolvimento

O grupo avaliou cinco candidatos terapêuticos em fases avançadas de desenvolvimento: SII Dengue mAb (VIS513), AV-1, EYU 688, Fenretinide (ISLA-001) e Mosnodenvir (JNJ-1802).

Os participantes concluíram que as evidências disponíveis ainda não permitem priorizar um único candidato em relação aos demais. Por isso, recomendaram que todos avancem para investigação pediátrica. O SII Dengue mAb (VIS513), por apresentar estágio mais avançado de desenvolvimento clínico, foi incluído na lista prioritária do PADO para os próximos três a cinco anos. Os demais candidatos passaram a integrar a lista de monitoramento.

A pesquisa clínica em dengue ainda demanda inclusão de crianças menores de dois anos

Entre as prioridades identificadas, destacou-se a necessidade de acelerar estudos pediátricos e ampliar a participação de crianças menores de dois anos. O grupo também ressaltou a importância de aperfeiçoar estratégias de recrutamento, desenho dos estudos e definição de desfechos clínicos.

Além disso, foi considerada relevante a inclusão de crianças e adolescentes com obesidade, desnutrição e doenças imunomediadas nos programas de investigação clínica.

Mensagem prática

O exercício PADO para dengue estabelece prioridades para que futuras terapêuticas sejam desenvolvidas considerando as necessidades específicas da população pediátrica. As discussões indicam preferência por formulações orais palatáveis para dengue não grave e mantêm a via intravenosa como principal alternativa para dengue grave.

Do ponto de vista clínico e regulatório, a principal mensagem é a necessidade de iniciar investigações pediátricas assim que dados suficientes de adultos estiverem disponíveis, favorecendo o acesso mais rápido de crianças às futuras inovações terapêuticas para dengue.

Este conteúdo foi elaborado com auxílio de IA e revisado pela equipe médica do Portal Afya.

Autoria

Foto de Isabel Melo

Isabel Melo

Editora médica na Afya. Formada em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com residência médica em Infectologia pela mesma instituição (2020). Além da atuação na Afya, é médica no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (UFRJ) e no Centro de Saúde Escola Germano Sinval Faria, na Escola Nacional de Saúde Pública/Fiocruz.

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