As infecções sexualmente transmissíveis gonocócicas estão em um constante aumento desde 2014, segundo o CDC. Além disso, podem estar associadas a sequelas importantes a longo prazo, especialmente em mulheres, como gravidez ectópica e infertilidade.
Essas infecções também podem facilitar a transmissão do HIV, o que reforça a importância do diagnóstico e do tratamento adequados.
Nesse contexto, o CDC atualizou, em 18 de dezembro de 2020, suas recomendações para o tratamento das infecções gonocócicas.

Diretriz CDC 2020: principais mudanças no tratamento da gonorreia
No protocolo anterior, de 2010, a recomendação era:
- ceftriaxona 250 mg, em dose única;
- azitromicina 1 g, também em dose única, quando não fosse possível excluir infecção por Chlamydia trachomatis.
Na atualização de 2020, o CDC passou a recomendar, para gonorreia urogenital, retal ou faríngea:
- ceftriaxona 500 mg, em dose única intramuscular;
- associação com doxiciclina 100 mg, por via oral, duas vezes ao dia por 7 dias, quando a infecção por clamídia não puder ser excluída.
Quando a ceftriaxona não pode ser utilizada por alergia à cefalosporina, uma opção é dose única de gentamicina 240 mg intramuscular associada a azitromicina 2 g por via oral, também em dose única.
Tratamento de parceiros sexuais
O CDC orienta que os parceiros sexuais da pessoa diagnosticada também sejam tratados.
Nesses casos, é indicada dose oral única de cefixima 800 mg, associada a doxiciclina 100 mg por via oral, duas vezes ao dia, por 7 dias, se a infecção por clamídia não tiver sido excluída.
Evidências para a mudança na diretriz do CDC
As evidências apoiam a preocupação crescente com a eficácia da azitromicina no tratamento de infecções por clamídia, especialmente nas infecções retais.
Outros patógenos relacionados às ISTs também têm demonstrado resistência, como:
- Mycoplasma genitalium;
- Shigella;
- Campylobacter.
A ceftriaxona, por sua vez, é uma cefalosporina de terceira geração com farmacocinética amplamente variável. O aumento da dose se justifica porque a eficácia é melhor prevista pelo tempo em que a concentração do medicamento livre no sangue permanece acima da concentração mínima inibitória do organismo.
Para o tratamento eficaz da gonorreia urogenital, estima-se que a ceftriaxona precise manter concentrações acima da MIC por aproximadamente 20 a 24 horas
Uma dose de 250 mg não atinge de forma confiável os níveis séricos necessários por período prolongado. Os investigadores avaliaram a eficácia de várias doses de ceftriaxona (0,06-30 mg/kg de peso corporal). Em estudos com diferentes doses, a menor dose 100% eficaz na erradicação do organismo suscetível foi de 5 mg/kg de peso corporal.
Em humanos, 500 mg correspondem a aproximadamente 5 mg/kg em pessoas de 80 a 100 kg, enquanto 250 mg correspondem a apenas 3 mg/kg para uma pessoa de 80 kg.
Controle de cura após tratamento da gonorreia
O teste de cura não é necessário para pessoas com gonorreia urogenital ou retal não complicada, desde que tenham sido tratadas com os regimes recomendados.
Já em casos de gonorreia faríngea, o teste de cura é indicado independentemente do regime utilizado.
Nesses pacientes, deve-se realizar cultura ou teste de amplificação de ácido nucleico entre 7 e 14 dias após o tratamento inicial.
Reinfecção após tratamento da gonorreia
O CDC estima que a reinfecção em 12 meses varie de 7% a 12% entre pessoas previamente tratadas para gonorreia.
Por isso, recomenda-se nova testagem 3 meses após o tratamento, independentemente de a pessoa acreditar que seus parceiros sexuais também foram tratados.
Se a testagem em 3 meses não for possível, ela deve ser realizada em até 12 meses após o tratamento inicial.
Conclusão
A atualização do CDC reforça o impacto da resistência antimicrobiana nas recomendações de tratamento da gonorreia e de outras ISTs.
A monoterapia com ceftriaxona 500 mg intramuscular em dose única permanece recomendada porque N. gonorrhoeae ainda é altamente suscetível a esse antibiótico. Já o uso da azitromicina tornou-se mais limitado diante do aumento da resistência.
Além do tratamento inicial, o seguimento deve considerar tratamento de parceiros, teste de cura nos casos de gonorreia faríngea e nova testagem para identificar reinfecção.
*Este conteúdo foi atualizado em: 02/06/2026 pela equipe editorial do Portal Afya.
Referências bibliográficas:
- Cyr S, Barbee L, Workowski KA, et al. Update to CDC’s Treatment Guidelines for Gonococcal Infection, 2020. MMWR Morb Mortal Wkly Rep 2020;69:1911–1916. doi: 10.15585/mmwr.mm6950a6
Autoria

Juliana Olivieri
Graduada em Medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) ⦁ Ginecologista e Obstetra ⦁ Pós-graduanda em Endocrinologia Feminina e Climatério pelo Instituto Nacional de Saúde da Mulher da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira(IFF/Fiocruz)
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