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Infectologia10 julho 2026

Bictegravir/entricitabina/TAF: segurança renal no HIV e na doença renal crônica

Estudo avaliou a segurança renal do tratamento com bictegravir/entricitabina/TAF em pessoas vivendo com HIV (PVHIV)
Por Isabel Melo

Com o envelhecimento da população, o número de pessoas vivendo com HIV (PVHIV) com outras comorbidades tende a aumentar cada vez mais. Dentre essas comorbidades, a doença renal crônica (DRC) chama a atenção por sua prevalência e por suas repercussões na escolha da terapia antirretroviral.

Uma opção recente que surgiu como alternativa para o tratamento de PVHIV consiste na combinação de bictegravir/entricitabina/TAF (B/F/TAF). Como TAF é uma formulação de tonofovir com um perfil renal e ósseo mais seguro do que o tradicional TDF, é recomendado em alguns guidelines para início de tratamento. Entretanto, o perfil de segurança renal em pessoas vivendo com HIV com disfunção renal prévia de leve a moderada ainda é pouco conhecido.

Um estudo publicado na Open Forum Infectious Diseases avaliou a segurança renal de B/F/TAF em PVHIV com ClCr ≥ 30 e < 90 mL/min.

Bictegravir/entricitabina/TAF: segurança renal no HIV e na doença renal crônica

Materiais e métodos

O estudo incorporou dados de 9 ensaios clínicos de fase 3 em adultos vivendo com HIV e com disfunção renal leve a moderada (ClCr ≥ 30 e < 90 mL/min), virgens de TARV ou com supressão virológica, tratados com B/F/TAF por até 240 semanas. Pacientes com ClCr ≥ 90 mL/min também foram incluídos como grupo de comparação.

Os desfechos primários foram os valores do ClCr ao longo do tempo e alterações em relação ao valor basal. Desfechos secundários incluíram incidência e tipo de eventos adversos renais relacionados a tratamento e descontinuação de tratamento devido a esses eventos adversos.

Disfunção renal foi estratificada de acordo com função renal de base: estágio 2 (ClCr ≥ 60 e < 90 mL/min) e estágio 3 (ClCr ≥ 30 e < 60 mL/min).

Quais são as implicações clínicas dos resultados?

Dados de 1.069 participantes foram incluídos na análise. A mediana de idade foi de 53 anos (IQR = 44 – 60), 31% eram mulheres, 51% eram brancos e 8% eram virgens de TARV. A maioria (91,2%) tinha disfunção renal estágio 2.

Ao longo do tratamento, a função renal dos participantes permaneceu estável. Com 96 semanas de tratamento, a mediana de alteração de função renal foi de +0,6 mL/min (IQR = – 5,4, 6,6), sendo +0,1 ml/min nos com estágio 2 (IQR = -5,8, 6,6) e +2,0 ml/min nos com estágio 3 (IQR = -3,6, 5,7).

Na semana 120, a mediana de alteração foi de -9,4 mL/min (IQR = -19,2, 1,8) nos participantes sem disfunção renal prévia e de -0,9 mL/min (IQR = -8,4, 5,8) nos com DRC estágio 2 e de +2,2 mL/min (IQR = -3,5, 7,8) nos com estágio 3a (ClCr ≥ 45 e < 60 mL/min).

O seguimento de 240 semanas mostrou um declínio modesto nos pacientes com doença renal crônica estágio 2 de -6,5 ml/min (IQR = -13,2, 0,6), com um padrão similar sendo visto nos pacientes com função renal de base normal.

Em uma comparação entre B/F/TAF e abacavir/dolutegravir/lamivdina (ABC/DTG/3TC), a mediana de mudança no ClCr na semana 48 foi de + 1,0 mL/min (IQR = -5,0, 6,6) para B//TAF e de + 0,7 ml/min (ABC/DTG/3TC). A diferença entre os grupos não apresentou significância estatística. Também não houve diferença quando se fez análise estratificadas por regimes anteriores de TARV.

Eventos adversos renais relacionados ao tratamento foram reportados em 28 participantes com disfunção renal prévia. Os mais frequentes foram lesão renal aguda e diminuição do ClCr. Um participante teve a TARV descontinuada devido à lesão renal aguda que foi considerada como não relacionada ao tratamento com B/F/TAF. Não foram registrados casos de síndrome de Fanconi ou tubulopatia proximal renal.

Mensagens práticas

  • Os resultados do estudo apontam para um perfil renal favorável do esquema B/F/TAF em pacientes com infecção pelo HIV e disfunção renal leve a moderada.
  • A incidência de eventos adversos renais foi baixa (2,6%) e eventos classicamente associados ao uso de TDF – como tubulopatia proximal renal e síndrome de Fanconi – foram relatados.

Autoria

Foto de Isabel Melo

Isabel Melo

Editora médica na Afya. Formada em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com residência médica em Infectologia pela mesma instituição (2020). Além da atuação na Afya, é médica no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (UFRJ) e no Centro de Saúde Escola Germano Sinval Faria, na Escola Nacional de Saúde Pública/Fiocruz.

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