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Ginecologia e Obstetrícia3 junho 2026

Plasma rico em plaquetas pode melhorar a função sexual feminina?

Estudo avalia PRP vaginal em mulheres sexualmente ativas e discute efeitos no FSFI, segurança e limites para uso clínico.
Por Sérgio Okano

O plasma rico em plaquetas (PRP) é um derivado do sangue autólogo obtido após o processo de centrifugação. Acredita-se que esse material possa liberar alguns fatores de crescimento relacionados à regeneração tecidual, à formação de novos vasos e à proliferação celular. 

As terapêuticas medicamentosas para melhora da função sexual feminina ainda são limitadas. Alguns estudos não controlados em mulheres na pós-menopausa avaliaram o uso de PRP na parede vaginal anterior, com resultados limitados. 

Saiba mais: Como tratar disfunção sexual feminina no consultório de ginecologia? 

Diante dessa lacuna, foi publicado na Obstetrics & Gynecology, revista do American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG), um ensaio clínico que avaliou a eficácia e a segurança da injeção de PRP na função sexual feminina. 

Ensaio clínico randomizado avaliou PRP vaginal 

Foi conduzido um ensaio clínico randomizado, controlado com placebo, unicêntrico e cego para as participantes, que incluiu mulheres entre 18 e 50 anos, sexualmente ativas e sem disfunção sexual grave. As pacientes foram randomizadas para aplicação única de PRP ou solução salina, com avaliação do FSFI em seis semanas. 

FSFI indicou melhora modesta nos desfechos avaliados 

Cinquenta e duas participantes foram randomizadas, sendo 26 (50,0%) para o grupo PRP e 26 (50,0%) para o grupo controle. Nas mulheres tratadas com PRP, o escore total mediano do FSFI apresentou um aumento maior em seis semanas em comparação ao grupo controle: PRP 2,2 [IC 95%, 0,6–4,8] vs controle 0,3 [IC 95%, −1,7 a 2,3]; e em seis meses após a injeção: PRP 1,6 [IC 95%, −0,2 a 4,1] vs controle 0,8 [IC 95%, −1,1 a 2,7]; P≤0,05. 

As mulheres tratadas com PRP apresentaram melhora nos escores dos domínios do FSFI para desejo, com variação em seis semanas de 0,6 [IC 95%, 0,1–1,1]; excitação, 0,8 [IC 95%, 0,2–1,2]; lubrificação, 0,7 [IC 95%, 0,2–1,2]; e orgasmo, 1,0 [IC 95%, 0,1–1,5], embora essas diferenças não tenham sido estatisticamente significativas quando comparadas ao grupo controle. 

A proporção de participantes que relataram melhora da função sexual com base no escore PGI-I, sigla para Impressão Global de Melhora do Paciente, foi maior no grupo PRP tanto em seis semanas, com 69,2% no PRP vs 42,3% no controle; P≤0,05, quanto em seis meses, com 69,2% vs 34,6%; P≤0,01. Não foram relatados eventos adversos graves. 

Saiba mais: Ciclo da resposta sexual 

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Como interpretar os achados sobre PRP e função sexual feminina? 

O estudo levanta algumas hipóteses interessantes acerca da intervenção para melhora da função sexual, embora seja baseado em conceitos ainda conflitantes na literatura, como a presença de pontos sensíveis intravaginais associados à libido. 

Apesar dessas limitações, o estudo utilizou instrumentos validados e não apresentou perdas durante o seguimento. Ainda assim, é importante destacar que a melhora observada no Female Sexual Function Index (FSFI) foi modesta; em ensaios clínicos, a magnitude do efeito é tão importante quanto, ou até mais relevante que, o valor de p isoladamente. Além disso, não houve melhora consistente quando os domínios do FSFI foram analisados separadamente. Os autores também não apresentaram as comparações dos escores absolutos totais, apenas a variação, o que pode superestimar o efeito observado. Soma-se a isso o tamanho reduzido da amostra, a condução em um único centro e o fato de que, embora a intervenção tenha sido cega para as participantes, não houve cegamento do aplicador, o que pode introduzir viés. 

Em relação à amostragem, o estudo trabalhou com mulheres entre 18 e 50 anos, uma grande amplitude para um trabalho com amostragem pequena. A análise comparativa foi estratificada por década de vida, o que pode não refletir corretamente a homogeneidade dos grupos, apesar do p de 0,2. Por fim, o cálculo amostral foi realizado para uma diferença de 4,2 pontos no FSFI total, o que foi muito distante do observado entre os grupos, aumentando a possibilidade de erro tipo II, ou seja, de não detectar diferenças reais nos domínios, e de superinterpretação de achados marginais. 

Saiba mais: Manejo da Síndrome Geniturinária da Menopausa (GSM) – Novo Guideline 

Mensagem prática sobre função sexual feminina e PRP 

Na prática, o estudo sugere que o PRP pode ser seguro e potencialmente promissor para melhora da função sexual feminina, mas ainda está claramente em fase exploratória. Antes de qualquer incorporação clínica, são necessários estudos maiores, multicêntricos, com populações mais representativas e comparação com tratamentos estabelecidos.

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Sérgio Okano

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