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Ginecologia e Obstetrícia24 março 2026

Histerectomia vaginal versus laparoscópica

Estudo avaliou a associação entre a via cirúrgica da histerectomia minimamente invasiva, vaginal ou laparoscópica/robótica, e os desfechos perioperatórios de curto prazo. 

Um estudo recentemente publicado no American Journal of Obstetrics & Gynecology, com o título “Vaginal hysterectomy vs laparoscopic hysterectomy for benign indications: complications and length of stay in a national analysis of contemporary data”, teve como objetivo avaliar a associação entre a via cirúrgica da histerectomia minimamente invasiva, vaginal ou laparoscópica/robótica, e os desfechos perioperatórios de curto prazo. 

A histerectomia é um dos procedimentos ginecológicos mais realizados nos Estados Unidos. Historicamente, a via vaginal tem sido recomendada como abordagem preferencial sempre que factível, com base em estudos mais antigos que demonstravam menor tempo operatório, menor custo e taxas de complicações semelhantes à laparoscopia. Essa recomendação é respaldada por diretrizes do ACOG. 

Entretanto, a incorporação crescente da laparoscopia e da cirurgia robótica na última década, associada ao aprimoramento técnico e maior volume cirúrgico, levanta a necessidade de reavaliar se a via vaginal permanece, de fato, superior no cenário contemporâneo. 

Metodologia 

Trata-se de um estudo de coorte utilizando dados prospectivamente coletados do banco nacional americano NSQIP (American College of Surgeons National Surgical Quality Improvement Program), abrangendo o período de 2012 a 2022. Foram incluídas mulheres submetidas à histerectomia vaginal ou laparoscópica/robótica por indicações benignas. Foram excluídos casos oncológicos, cirurgias de urgência, procedimentos supracervicais e histerectomias assistidas por via combinada. O desfecho primário foi a ocorrência de complicações em até 30 dias, classificadas segundo o sistema de Clavien-Dindo. Entre os desfechos secundários, foram avaliados tempo operatório, necessidade de internação noturna e tempo de permanência hospitalar. Para reduzir vieses de confusão, foi realizada análise por pareamento 1:1 por escore de propensão, incluindo variáveis demográficas e características cirúrgicas, como peso uterino e procedimentos concomitantes. Após o pareamento, foram analisadas 83.436 pacientes, sendo 41.718 em cada grupo. 

Resultados 

As taxas globais de complicações foram baixas em ambos os grupos. A ocorrência de qualquer complicação foi de 8,2% no grupo da histerectomia vaginal e de 6,4% no grupo laparoscópico, diferença estatisticamente significativa. A análise ajustada demonstrou que a via vaginal esteve associada a uma discreta elevação do risco de complicações totais, com odds ratio ajustado de 1,23 (IC 95% 1,15–1,31), além de aumento tanto de complicações maiores quanto menores. 

Especificamente, a via vaginal apresentou maior incidência de transfusão sanguínea (1,8% versus 0,8%), infecção do trato urinário (3,4% versus 2,6%), infecção de espaço profundo (1,4% versus 0,9%) e reoperação (1,6% versus 1,2%). Por outro lado, a via laparoscópica esteve associada a maior frequência de deiscência de cúpula vaginal (0,2% versus 0,1%) e embolia pulmonar (0,2% versus 0,1%), embora essas ocorrências tenham sido raras em ambos os grupos. 

Em relação ao tempo operatório, a histerectomia vaginal foi significativamente mais rápida, com média de 109,6 minutos, comparada a 137,0 minutos na via laparoscópica. A diferença ajustada foi de aproximadamente 27 minutos a menos para a via vaginal.  

Quanto à internação, a necessidade de pernoite hospitalar foi maior na via vaginal, ocorrendo em 35,5% dos casos, comparada a 27,2% na via laparoscópica. A análise ajustada mostrou odds ratio de 2,10 para internação noturna após histerectomia vaginal. Além disso, a permanência hospitalar de pelo menos um dia ocorreu em 77,9% das pacientes do grupo vaginal e 77,1% do grupo laparoscópico, enquanto permanência de dois dias ou mais foi observada em 13,2% e 10,1%, respectivamente, também com maior probabilidade na via vaginal. 

Ao longo do período analisado, houve redução progressiva das taxas de internação em ambos os grupos, refletindo a tendência contemporânea de maior manejo ambulatorial. 

Leia também: Volume institucional e desfechos da histerectomia por acretismo placentário

Conclusão 

Este estudo demonstra que tanto a histerectomia vaginal quanto a laparoscópica apresentam baixas taxas de complicações, confirmando que ambas são excelentes abordagens minimamente invasivas. Entretanto, a via vaginal não se mostrou claramente superior à laparoscópica no cenário contemporâneo. Apesar do menor tempo operatório, a histerectomia vaginal esteve associada a discreto aumento do risco de complicações e maior probabilidade de internação prolongada. 

Os achados reforçam que a escolha da via cirúrgica deve ser individualizada, considerando fatores clínicos, características uterinas, necessidade de procedimentos associados, experiência do cirurgião e preferência da paciente. À luz de dados mais recentes e robustos, talvez seja o momento de reavaliar recomendações tradicionais que colocam a via vaginal como automaticamente preferencial. 

Autoria

Foto de Ênio Luis Damaso

Ênio Luis Damaso

Doutor em Ciências Médicas pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP) ⦁ Professor no Curso de Medicina da Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo (FOB-USP) ⦁ Professor no Curso de Medicina da Universidade Nove de Julho de Bauru (UNINOVE).

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