Janaina Janine, doutora em enfermagem pela Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) conduziu uma revisão sistemática com mais de 80 casos de tumores em neovaginas ligados ao HPV. Através do estudo, a pesquisadora correlacionou a falta de protocolos à dificuldade de detecção do HPV em pessoas trans.
Saber mais sobre como esse tema ajuda a ampliar o debate sobre acolhimento no sistema de saúde como um todo.
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A luta do movimento transexual no Brasil e como o preconceito compromete o atendimento trans
A transexualidade ou transgeneridade, representada pela letra T na sigla LGBTQIAPN+, se refere às pessoas que não se identificam com o gênero que lhes é atribuído pela genitália de nascimento. Vale pontuar que se identificar como uma pessoa trans não tem relação com a orientação sexual, mas sim com a identidade de gênero.
Entenda na linha do tempo os direitos e garantias reconhecidos por esse grupo demográfico no país:

No Brasil, o STF decidiu também em 2020 que consultas e exames devem ser agendados e realizados para todas as especialidades sem considerar o sexo biológico registrado, decisão essa que foi confirmada pela Suprema Corte em 2024. Apesar disso, uma pesquisa realizada pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), em 2023, apontou que mais de 90% das 1.100 pessoas entrevistadas em todo o país já sofreram algum tipo de discriminação durante um atendimento de saúde e 36% tiveram atendimento recusado.
Vale mencionar, ainda de acordo com a ANTRA, que o Brasil permaneceu, pelo 18º ano consecutivo, como o país com o maior número registrado de assassinatos de pessoas trans e travestis no mundo. Entre 1º de outubro de 2024 e 30 de setembro de 2025, foram registrados 281 assassinatos de pessoas trans e de gênero diverso no mundo, sendo que aproximadamente 30% ocorreram no Brasil.
Corroborando esses dados, um estudo promovido pela Faculdade Federal de Alfenas envolvendo 36 profissionais mostrou que 27 dos ginecologistas entrevistados, todos cisgêneros, não se sentiam preparados para atender homens trans. Sem acesso ao especialista, o cuidado passa a médicos de família ou endocrinologistas, nem sempre aptos a detectar o HPV.
Prevalência do HPV é 53% maior em pessoas trans
O preconceito associado à falta de pesquisas específicas relacionadas a esse grupo demográfico torna o cuidado integral da saúde para as pessoas trans ainda mais desafiador.
Embora já seja possível detectar inflamações ligadas ao HPV de alto risco em neovaginas, falta uma padronização de atendimentos pelos órgãos reguladores. Ademais, a literatura médica não especifica quais os primeiros sinais de alerta o médico deve se atentar.
No mesmo sentido, uma pesquisa nacional desenvolvida em 2025 pela MSD constatou que o HPV é 53,3% mais prevalente entre pessoas trans em comparação a pessoas cisgênero. O dado reforça o risco oncológico ligado ao vírus nessa população, incluindo os casos em neovaginas identificados por Janine.
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Vacinação gratuita contra HPV permanece restrita a grupos específicos
O SUS oferece a vacina tetravalente a crianças de 9 a 14 anos, independentemente do gênero, que cobre os subtipos 16 e 18, considerados de alto risco, além dos subtipos 6 e 11, de baixo risco. Já para os demais grupos etários, o SUS reserva doses gratuitas apenas a pessoas imunossuprimidas, pessoas com HIV, pessoas com papilomatose respiratória recorrente, transplantados, pacientes oncológicos, vítimas de violência sexual e usuários de PrEP.
Na rede particular, por outro lado, é possível encontrar a versão nonavalente que oferece cobertura a mais cinco tipos de HPV de alto risco, além dos três cobertos pela tetravalente. O custo da vacina, porém, se apresenta como mais uma barreira de acesso à saúde a pessoas trans.
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Uma das propostas de Janine é o desenvolvimento de políticas públicas que priorize um protocolo de detecção precoce do HPV em neovaginas. Já Camila Toffoli, ginecoendocrinologista, defende que a vacina seja aplicada após o tratamento do HPV para reforçar a resposta imunológica, prática já usada em mulheres cis. Segundo ela, a ausência de um protocolo definido de vacinação contra HPV para mulheres trans reforça a importância de aprimorar a detecção da doença nessa população na prática clínica.
Priscila Maria Teixeira Aroucha, médica endocrinologista da Afya, alerta ainda: “Homens trans que mantém o colo uterino e pratiquem atividade sexual penetrativa devem fazer o rastreio de câncer de colo de útero seguindo o mesmo protocolo das mulheres cis. Obviamente, quando se está diante de uma mulher trans com neovagina, a gente sabe que ainda não tem protocolo de rastreamento tão bem estabelecido, mas deve ser feito anamnese e exame físico de forma regular, procurando sintomas como sangramento, corrimento, lesões e verrugas.”
A especialista reforça: “Só assim é que a gente vai conseguir fazer com que a prevenção realmente seja efetiva, incluindo a vacina para o HPV, que é essencial no cuidado de todas as pessoas, […] e a orientação em relação ao uso de preservativos e cuidados periódicos de saúde sexual. Um profissional de saúde que tem um atendimento que é acolhedor, que vem sem julgamentos agregados, que abre espaço para dúvidas faz com que as orientações possam ocorrer de forma muito mais direcionada e mais eficaz no cuidado de cada paciente.”
Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão da Equipe Afya.
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