A endometriose é uma condição inflamatória crônica que afeta cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva, o que representa quase 190 milhões de pessoas no mundo. Embora a gravidez possa, em muitos casos, levar à decidualização das lesões e à melhora temporária dos sintomas, o impacto da doença nos desfechos obstétricos e neonatais tem sido motivo de crescente preocupação e debate clínico.
Historicamente, meta-análises sugeriram riscos aumentados para complicações como parto prematuro, pré-eclâmpsia e placenta prévia. No entanto, a condução dessas gestações muitas vezes carece de padronização, gerando dúvidas sobre se uma vigilância intensificada realmente se traduz em melhores resultados para a mãe e o bebê.
O estudo, publicado em maio de 2026 na revista European Journal of Obstetrics & Gynecology and Reproductive Biology, teve por objetivo desenvolver recomendações baseadas em evidências e consenso de especialistas para o manejo de gestações espontâneas em mulheres com endometriose.
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Metodologia do consenso Delphi sobre gestantes com endometriose
A metodologia baseou-se em um processo Delphi modificado, envolvendo duas rodadas de pesquisas estruturadas online e uma reunião final de consenso realizada em março de 2024. Participaram 23 especialistas de 21 centros franceses, a maioria atuando em hospitais universitários, todos com experiência reconhecida no manejo de gestações em pacientes com endometriose.
O comitê gestor definiu nove domínios clínicos, incluindo distúrbios hipertensivos, crescimento fetal e parto prematuro. As recomendações foram formuladas após uma revisão sistemática da literatura no PubMed e na Cochrane, sendo posteriormente classificadas pelo sistema GRADE para avaliar a certeza das evidências e a força das recomendações.
Vigilância pré-natal padrão versus intensificada
Os resultados indicam que, apesar de associações teóricas, o acompanhamento pré-natal padrão é suficiente. Para distúrbios hipertensivos, embora algumas análises apontem um aumento modesto de risco (OR 1,21), estudos de maior qualidade não confirmaram essa associação (OR 1,04 a 1,08), levando os especialistas a recomendarem apenas o monitoramento mensal convencional da pressão arterial.
No que tange ao peso fetal, a associação com bebês pequenos para a idade gestacional (PIG) foi observada (OR 1,16 a 1,28), mas o painel optou por manter as ultrassonografias de rotina (12, 22 e 32 semanas), sem exames adicionais sistemáticos.
Em relação ao parto prematuro, o risco parece elevado em estudos observacionais (OR 1,49 a 1,70), mas a evidência de benefício para intervenções preventivas, como progesterona ou repouso, é inexistente. Um achado robusto foi o risco aumentado de placenta prévia, especialmente em gestações espontâneas (OR 6,83), mas, ainda assim, não se recomenda ultrassom transvaginal extra além da rotina.
Por fim, o manejo ativo do terceiro estágio do parto (MATP) foi recomendado para reduzir o risco de hemorragia pós-parto (OR 1,76).
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Lacunas na evidência científica sobre endometriose na gestação
A principal limitação apontada é a baixa certeza das evidências, predominantemente baseadas em estudos observacionais sujeitos a fatores de confusão, como o uso de tecnologias de reprodução assistida e a presença de adenomiose associada. Além disso, a heterogeneidade dos fenótipos da endometriose (superficial, ovariana ou profunda) nem sempre é bem discriminada nos estudos, dificultando recomendações específicas para casos mais graves.
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Mensagem prática para o manejo obstétrico
A mensagem prática fundamental deste consenso é evitar a sobremedicalização. Na prática clínica, a endometriose isolada não deve ser motivo para transformar um pré-natal de risco habitual em pré-natal de alto risco.
O foco deve estar no cuidado individualizado, mantendo a vigilância padrão para pressão arterial e crescimento fetal, mas com atenção a sinais de placenta prévia e garantia do MATP para prevenir hemorragias.
O uso de anticoncepção hormonal precoce, até dois meses pós-parto, também agrega valor para evitar a recorrência precoce dos sintomas.
Autoria
Roberta Furtado Stivanin Rachid Novais
Graduação em Medicina pela Faculdade Souza Marques (2006), Residência Médica em Medicina de Família e Comunidade pela UFF (2008), Especialização em Ginecologia e Obstetrícia Pela SOGIMA/RJ (2012), Mestrado em Saúde Materno Infantil pela UFF (2016). Atualmente é Professora de Obstetrícia do Departamento Materno-Infantil da UFF e Doutoranda em Ciências Médicas também na UFF.
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