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Ginecologia e Obstetrícia1 junho 2026

Endometriose na gestação: consenso orienta manejo obstétrico

Estudo Delphi avalia o manejo obstétrico em gestantes com endometriose e reforça vigilância padrão na maioria dos casos.

A endometriose é uma condição inflamatória crônica que afeta cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva, o que representa quase 190 milhões de pessoas no mundo. Embora a gravidez possa, em muitos casos, levar à decidualização das lesões e à melhora temporária dos sintomas, o impacto da doença nos desfechos obstétricos e neonatais tem sido motivo de crescente preocupação e debate clínico. 

Historicamente, meta-análises sugeriram riscos aumentados para complicações como parto prematuro, pré-eclâmpsia e placenta prévia. No entanto, a condução dessas gestações muitas vezes carece de padronização, gerando dúvidas sobre se uma vigilância intensificada realmente se traduz em melhores resultados para a mãe e o bebê.

O estudo, publicado em maio de 2026 na revista European Journal of Obstetrics & Gynecology and Reproductive Biology, teve por objetivo desenvolver recomendações baseadas em evidências e consenso de especialistas para o manejo de gestações espontâneas em mulheres com endometriose. 

Saiba mais: Diretriz sobre endometriose: já podemos “bater o martelo” com base na clínica? 

Metodologia do consenso Delphi sobre gestantes com endometriose 

A metodologia baseou-se em um processo Delphi modificado, envolvendo duas rodadas de pesquisas estruturadas online e uma reunião final de consenso realizada em março de 2024. Participaram 23 especialistas de 21 centros franceses, a maioria atuando em hospitais universitários, todos com experiência reconhecida no manejo de gestações em pacientes com endometriose. 

O comitê gestor definiu nove domínios clínicos, incluindo distúrbios hipertensivos, crescimento fetal e parto prematuro. As recomendações foram formuladas após uma revisão sistemática da literatura no PubMed e na Cochrane, sendo posteriormente classificadas pelo sistema GRADE para avaliar a certeza das evidências e a força das recomendações. 

Vigilância pré-natal padrão versus intensificada 

Os resultados indicam que, apesar de associações teóricas, o acompanhamento pré-natal padrão é suficiente. Para distúrbios hipertensivos, embora algumas análises apontem um aumento modesto de risco (OR 1,21), estudos de maior qualidade não confirmaram essa associação (OR 1,04 a 1,08), levando os especialistas a recomendarem apenas o monitoramento mensal convencional da pressão arterial. 

No que tange ao peso fetal, a associação com bebês pequenos para a idade gestacional (PIG) foi observada (OR 1,16 a 1,28), mas o painel optou por manter as ultrassonografias de rotina (12, 22 e 32 semanas), sem exames adicionais sistemáticos. 

Em relação ao parto prematuro, o risco parece elevado em estudos observacionais (OR 1,49 a 1,70), mas a evidência de benefício para intervenções preventivas, como progesterona ou repouso, é inexistente. Um achado robusto foi o risco aumentado de placenta prévia, especialmente em gestações espontâneas (OR 6,83), mas, ainda assim, não se recomenda ultrassom transvaginal extra além da rotina. 

Por fim, o manejo ativo do terceiro estágio do parto (MATP) foi recomendado para reduzir o risco de hemorragia pós-parto (OR 1,76). 

Saiba mais: Endometriose pode causar maior risco de eventos perinatais adversos? 

Lacunas na evidência científica sobre endometriose na gestação 

A principal limitação apontada é a baixa certeza das evidências, predominantemente baseadas em estudos observacionais sujeitos a fatores de confusão, como o uso de tecnologias de reprodução assistida e a presença de adenomiose associada. Além disso, a heterogeneidade dos fenótipos da endometriose (superficial, ovariana ou profunda) nem sempre é bem discriminada nos estudos, dificultando recomendações específicas para casos mais graves. 

Saiba mais: Existe relação entre endometriose e parto prematuro? 

Mensagem prática para o manejo obstétrico 

A mensagem prática fundamental deste consenso é evitar a sobremedicalização. Na prática clínica, a endometriose isolada não deve ser motivo para transformar um pré-natal de risco habitual em pré-natal de alto risco. 

O foco deve estar no cuidado individualizado, mantendo a vigilância padrão para pressão arterial e crescimento fetal, mas com atenção a sinais de placenta prévia e garantia do MATP para prevenir hemorragias.

O uso de anticoncepção hormonal precoce, até dois meses pós-parto, também agrega valor para evitar a recorrência precoce dos sintomas.

Autoria

Foto de Roberta Furtado Stivanin Rachid Novais

Roberta Furtado Stivanin Rachid Novais

Graduação em Medicina pela Faculdade Souza Marques (2006), Residência Médica em Medicina de Família e Comunidade pela UFF (2008), Especialização em Ginecologia e Obstetrícia Pela SOGIMA/RJ (2012), Mestrado em Saúde Materno Infantil pela UFF (2016). Atualmente é Professora de Obstetrícia do Departamento Materno-Infantil da UFF e Doutoranda em Ciências Médicas também na UFF.

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Referências bibliográficas

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