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Ginecologia e Obstetrícia30 julho 2026

Doulas no parto: recomendações do ACOG para equipes clínicas

Documento do ACOG orienta a integração de doulas às equipes clínicas, com foco em comunicação, autonomia e organização da assistência.
Por Sérgio Okano

O fortalecimento de parcerias positivas e consistentes entre profissionais clínicos e doulas é essencial e pode trazer benefícios para pacientes, profissionais e ambientes de trabalho. As evidências sugerem que, quando as doulas integram as equipes de saúde, melhoram as experiências e os desfechos das pacientes. 

O termo doula tem origem em uma palavra grega que reflete uma função de cuidado e serviço direcionada à pessoa durante a gestação ou o período pós-parto. Historicamente, as mulheres eram acompanhadas durante o nascimento por outras mulheres de suas comunidades, que ofereciam apoio emocional contínuo, conforto físico e auxílio prático. Esse suporte, embora profundamente pessoal, não possuía caráter médico. 

Recentemente, o Colégio Americano de Ginecologistas e Obstetras (ACOG) publicou um documento com o objetivo de orientar obstetras sobre como construir relações colaborativas e respeitosas com doulas nos ambientes clínicos. 

Saiba mais: Parto humanizado: como construir uma relação positiva com as doulas? 

Como o posicionamento do ACOG foi elaborado? 

Trata-se de um posicionamento desenvolvido pelo ACOG em colaboração com especialistas e representantes da atuação profissional das doulas. Não se trata de um estudo original, de uma revisão sistemática nem de uma diretriz elaborada com metodologia GRADE. Da mesma forma, não há estratégia PICO formulada, busca detalhada, critérios explícitos de inclusão e exclusão ou avaliação padronizada da certeza da evidência. 

Quais funções o documento atribui às doulas? 

O documento apresenta recomendações sobre os tipos de trabalho e as estratégias para promover a comunicação e fortalecer a parceria entre essas profissionais e a equipe médica. Destaca papéis clássicos, como acompanhar a pessoa gestante e parturiente durante a gravidez, a preparação para o trabalho de parto e o nascimento. Também classifica as doulas como profissionais que podem atuar em outros momentos da vida reprodutiva, como aconselhamento pré-concepcional, transição familiar em casos de adoção, ciclo menstrual e menopausa, além de situações como aborto, perda gestacional e luto familiar. 

A presença da doula tem função complementar ao cuidado médico, por meio da oferta de apoio físico e emocional. As doulas podem expressar preferências da paciente, mediar a compreensão de informações, oferecer medidas não farmacológicas de conforto, entre outros cuidados; porém, não devem realizar diagnósticos, prescrições, procedimentos clínicos ou exames, nem tomar decisões pela paciente, como já é bem compreendido nos cuidados obstétricos. 

Como integrar doulas aos ambientes clínicos? 

O documento propõe que as instituições reconheçam formalmente as doulas como integrantes da equipe de cuidado. Como medida prática, sugere o fornecimento de crachás de identificação, evitando que sejam tratadas apenas como visitantes, além do acesso prévio à estrutura física do hospital ou centro de parto, por meio de visitas e orientações. Também devem ser produzidos conteúdos específicos para as doulas, explicando o funcionamento dos diferentes ambientes clínicos e hospitalares. As políticas institucionais devem buscar reduzir exigências burocráticas e outras barreiras administrativas que possam limitar o acesso das pacientes ao acompanhamento de uma doula. 

Saiba mais: Ministério da Saúde publica nota técnica sobre atuação de doulas 

O ACOG recomenda, ainda, que os obstetras perguntem rotineiramente se a paciente conhece os cuidados oferecidos por doulas, se gostaria desse suporte e quais recursos financeiros estão disponíveis para viabilizar a presença dessa profissional. O documento destaca que desigualdades econômicas dificultam o acesso, sobretudo entre pessoas de baixa renda e grupos marginalizados. 

Outra recomendação é manter listas ou diretórios confiáveis de doulas, preferencialmente representativos da diversidade da comunidade, para compartilhamento com as pacientes interessadas. O documento recomenda que as pacientes sejam estimuladas a refletir sobre o tipo de apoio que desejam receber e sobre os aspectos a considerar na escolha dessa profissional. Entre os pontos que podem ser discutidos estão formação, experiência, disponibilidade, serviços oferecidos, formas de comunicação, valores cobrados, modalidades de pagamento e locais onde os encontros serão realizados. 

Comunicação, autonomia e atuação em situações críticas 

Em situações críticas, como emergências, o documento recomenda permitir a permanência da doula, quando isso for seguro e compatível com as normas assistenciais. Quando houver comunicação adversarial entre a equipe e a doula durante uma emergência, recomenda-se uma conversa após o nascimento. 

Quando a doula comunica uma preferência em nome da paciente, o ACOG recomenda que o profissional reconheça sua participação, mas ressalta a importância de avaliar por que a paciente não está se comunicando diretamente, reforçando sua autonomia e sua participação na decisão. 

Por fim, o documento recomenda estudos mais robustos sobre os efeitos da presença dessas profissionais e os desfechos em saúde. O próprio ACOG reconhece que há pouca evidência quantitativa sobre mortalidade materna e morbidade materna grave. 

O que muda na prática clínica? 

O posicionamento do Comitê nº 31 do ACOG apresenta uma defesa institucional consistente da parceria entre doulas e equipes clínicas. A mensagem central é que as doulas podem melhorar a experiência da paciente, a comunicação, a continuidade do cuidado e alguns desfechos obstétricos. Sua principal contribuição não está em demonstrar um novo efeito quantitativo, mas em transformar evidências previamente disponíveis sobre suporte contínuo em recomendações práticas para a organização da assistência. 

Saiba mais: Confira diretriz da ACOG para minimizar intervenções no trabalho de parto 

Entretanto, a força retórica do posicionamento é maior do que a robustez de parte das evidências apresentadas. Os benefícios relacionados à satisfação, ao suporte, ao aleitamento e à frequência de cesarianas são mais bem sustentados do que os efeitos sobre saúde mental pós-parto, morbidade materna grave ou mortalidade. Além disso, parte da evidência refere-se ao suporte contínuo em geral, e não exclusivamente a doulas profissionais. 

Autoria

Foto de Sérgio Okano

Sérgio Okano

Conteudista médico na Afya. Formado em Medicina pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP), com residência médica em Ginecologia e Obstetrícia e na área de atuação em Sexologia. Possui mestrado e doutorado pela mesma instituição. Atende no serviço público, particular e trabalha com graduação médica e residência.

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