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Ginecologia e Obstetrícia28 agosto 2026

Dissecção aórtica aguda na gestação e no puerpério: protocolo RCOG

Veja sinais de alerta, estabilização e manejo dos tipos A e B durante a gestação e o puerpério segundo o RCOG

A dissecção aórtica aguda é uma condição cardiovascular rara, porém potencialmente catastrófica, cuja ocorrência durante a gestação e o puerpério está associada a elevada morbimortalidade materna e fetal.

Dissecção aórtica aguda na gestação e no puerpério: protocolo RCOG

Como a dissecção aórtica é classificada pelo sistema Stanford?

A dissecção aórtica aguda é classificada pelo sistema de Stanford em dois tipos principais, definidos pela região da aorta afetada:

  • Dissecção tipo A: refere-se a qualquer acometimento da aorta ascendente, independentemente do ponto de origem da laceração íntima ou da extensão total da dissecção. É uma emergência de altíssima gravidade que exige cirurgia cardíaca aberta de urgência em um centro especializado, com suporte de circulação extracorpórea. A intervenção imediata é vital, pois o risco de mortalidade na dissecção tipo A não tratada aumenta em 1% a cada hora desde o momento do diagnóstico.
  • Dissecção tipo B: ocorre quando a dissecção acomete a aorta distalmente à origem da artéria subclávia esquerda, iniciando-se na aorta descendente. Na maioria dos casos estáveis, o tratamento inicial é estritamente médico e conservador, focado no controle rigoroso da pressão arterial e da frequência cardíaca. Contudo, cerca de 20% das pacientes desenvolvem complicações, como ruptura, isquemia ou hipotensão, necessitando de intervenção cirúrgica aberta ou de reparo aórtico endovascular torácico (TEVAR).

Saiba mais: Síndromes aórticas agudas: o que precisamos saber?

Quais sinais devem levantar suspeita de dissecção aórtica?

Sintomas de alerta relatados pela paciente

  • Dor súbita e excruciante no peito ou nas costas: é tipicamente descrita como lancinante ou dilacerante (tearing pain) e frequentemente irradia para a região interescapular. A dor também pode irradiar para o pescoço ou o abdômen.

Alerta clínico: essa dor pode ser transitória, mesmo sem a administração de analgésicos, devido à estabilização temporária da dissecção, o que não deve diminuir a suspeita clínica.

  • Perda inexplicável de consciência, desmaio ou colapso.
  • Eventos neurológicos novos e súbitos.
  • Dispneia ou hemoptise.
  • Sintomas decorrentes de isquemia visceral, neurológica ou de membros.

Sinais clínicos identificados no exame físico

  • Alterações cardiorrespiratórias: presença de taquicardia e taquipneia.
  • Diferença de pressão arterial entre os braços: discrepância de mais de 20 mmHg na pressão sistólica entre os braços. Este sinal é bastante específico para dissecção, mas só se manifesta se a lesão ocorrer distalmente à artéria subclávia direita; portanto, apresenta alta especificidade, mas baixa sensibilidade.
  • Novo sopro cardíaco: surgimento de um sopro diastólico precoce de regurgitação aórtica, indicando que uma dissecção tipo A comprometeu a válvula aórtica.
  • Manifestações de AVC ou infarto agudo do miocárdio (IAM): se a dissecção progredir distalmente para os vasos do pescoço ou proximalmente para as artérias coronárias, a paciente apresentará sinais de AVC ou de infarto agudo do miocárdio, respectivamente. No caso de envolvimento coronariano, o eletrocardiograma (ECG) pode mostrar supradesnivelamento do segmento ST, sendo o infarto de parede inferior (coronária direita) o mais comum devido à relação anatômica.
  • Hipotensão: pode ocorrer devido a tamponamento cardíaco, isquemia do miocárdio, insuficiência valvar aórtica ou à própria extensão do sangramento na parede arterial.

Saiba mais: Dissecção aórtica: quando suspeitar, o que fazer e como resolver

Estabilização materna é prioridade no manejo de emergência

A abordagem inicial deve priorizar de forma absoluta a ressuscitação e a estabilização materna, independentemente da idade gestacional, uma vez que a preservação da vida e a estabilização clínica da gestante constituem as prioridades imediatas. O monitoramento fetal deve ser instituído somente após a estabilização materna adequada.

O controle hemodinâmico deve ser realizado de forma intensiva, com instituição de terapia intravenosa e monitorização contínua, preferencialmente com acesso arterial invasivo, com o objetivo de reduzir a pressão arterial e o estresse sobre a parede aórtica. Nesse momento, podem ser utilizados agentes anti-hipertensivos intravenosos, como labetalol, hidralazina e nitroglicerina, conforme a resposta clínica e as condições hemodinâmicas da paciente.

O controle adequado da dor e dos sintomas associados também é fundamental, podendo ser empregados opioides para analgesia e antieméticos para reduzir náuseas e vômitos, contribuindo para a diminuição da ativação simpática e das elevações transitórias da pressão arterial e do estresse sobre a aorta.

O diagnóstico deve ser estabelecido de maneira rápida e precisa, sendo a tomografia computadorizada com contraste de toda a aorta o método de imagem de escolha para avaliação da extensão e da localização da lesão.

O ecocardiograma transtorácico pode ser realizado à beira do leito para avaliação de possíveis complicações, como derrame pericárdico, insuficiência valvar ou alterações da função cardíaca, desde que sua realização não retarde a obtenção da imagem definitiva.

Após a estabilização inicial, a paciente deve permanecer em ambiente de terapia intensiva e ser transferida imediatamente para um centro de referência com equipe especializada em cirurgia cardiovascular, garantindo acesso rápido ao tratamento definitivo e à abordagem multidisciplinar necessária.

A conduta cirúrgica depende do tipo de dissecção

Dissecção tipo A exige abordagem cirúrgica imediata

Trata-se de uma emergência cirúrgica extrema, em que o risco de mortalidade materna não tratada aumenta em 1% a cada hora. Exige cirurgia cardíaca aberta imediata com o uso de circulação extracorpórea. A abordagem obstétrica depende da viabilidade do feto:

  • Feto não viável (pré-viável): a cirurgia de correção aórtica materna é realizada de emergência, mantendo-se o feto in utero, sem realizar o parto ou esvaziamento uterino, aceitando-se um risco de mortalidade fetal estimado entre 20% e 40%.
  • Feto viável: realiza-se uma abordagem baseada em riscos individuais. Se a equipe multidisciplinar optar por antecipar o nascimento, a conduta recomendada é realizar o parto por cesariana de emergência dentro das salas de cirurgia cardíaca, prosseguindo-se imediatamente após o parto para a cirurgia de reparo da aorta.
  • Início da gestação: se a dissecção ocorrer no início da gravidez, a paciente deve ser aconselhada sobre a opção de interrupção médica da gestação devido ao altíssimo risco de prosseguir com a gravidez.

Dissecção tipo B pode ter manejo inicial conservador

Acomete a aorta distalmente à artéria subclávia esquerda e apresenta um manejo inicialmente diferente:

  • Caso estável (sem complicações): o tratamento inicial é estritamente clínico e conservador, focado no controle rigoroso da pressão arterial e da frequência cardíaca. Se a paciente responder bem, isso pode permitir a continuidade da gestação sob vigilância da equipe multidisciplinar, planejando-se o parto individualizado próximo ao termo.
  • Caso complicado (ruptura, isquemia de órgãos/membros ou hipotensão): cerca de 20% dos casos evoluem com complicações. Nessas situações, o tratamento cirúrgico é mandatório e realizado por meio de reparo endovascular da aorta torácica (TEVAR) ou cirurgia aberta. A equipe de especialistas deve decidir individualmente se o TEVAR será realizado antes, durante ou logo após o parto por cesariana.

Mensagem prática

Na suspeita de dissecção aórtica durante a gestação ou o puerpério, a prioridade descrita no protocolo é a estabilização materna e a definição rápida do diagnóstico. O manejo definitivo varia conforme o tipo de dissecção, a presença de complicações e, nos casos de dissecção tipo A, a viabilidade fetal.

Autoria

Foto de Roberta Furtado Stivanin Rachid Novais

Roberta Furtado Stivanin Rachid Novais

Conteudista médica na Afya. Formada em medicina pela Faculdade Souza Marques, com residência médica em Medicina de Família pela Universidade Federal Fluminense e especialização em Ginecologia e Obstetrícia pela SOGIMA-RJ, Mestre em Saúde Materno Infantil pela UFF e Doutoranda em Ciências Médicas pela UFF. Além da atuação na Afya, é professora de Obstetrícia na UFF.

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