A endometriose é uma condição crônica que afeta negativamente diversas dimensões da qualidade de vida das mulheres, não apenas no aspecto da dor, mas também em alterações do humor e da sexualidade. Já é bem estabelecido que a contracepção hormonal pode impactar positivamente a vida de mulheres cis com diagnóstico de endometriose, reduzindo cólica e sangramento. Entretanto, ainda se avalia pouco a questão do bem-estar psicológico e da função sexual.
Nesse sentido, uma revisão sistemática publicada na Acta Obstetricia et Gynecologica Scandinavica avaliou o impacto dos contraceptivos orais combinados (COC) e dos progestagênios isolados em pílula (POP) sobre fatores psicológicos, como ansiedade e depressão, além da função sexual em mulheres com endometriose. O artigo descreve COCs e POPs como tratamentos de primeira linha para a doença e informa que a revisão buscou avaliar se esses métodos afetam negativamente o bem-estar psicológico ou a função sexual.
Metodologia
Desenho do estudo
A revisão sistemática seguiu as diretrizes do PRISMA. Segundo o resumo indexado, os autores pesquisaram estudos em PubMed, Embase e Scopus até 1º de agosto de 2025 para avaliar os efeitos de COCs e POPs sobre bem-estar psicológico e função sexual em mulheres com endometriose.
População e comparadores
Foram incluídos estudos com mulheres em idade reprodutiva com diagnóstico de endometriose em uso de COC ou POP, em comparação com placebo ou ausência de contracepção hormonal, conforme descrito no texto-base.
Desfechos avaliados
Os desfechos avaliados foram:
- depressão;
- ansiedade;
- qualidade de vida mental;
- função sexual, por meio de questionários validados e queixas sexuais.
Os estudos incluídos também foram avaliados quanto à qualidade metodológica pelos sistemas RoB 2 e ROBINS-I. Segundo os autores, não foi possível realizar meta-análise por causa da heterogeneidade dos estudos incluídos. Essas características são compatíveis com o resumo do artigo, que relata síntese qualitativa devido à heterogeneidade dos dados.
Resultados com exemplos
Número e tipo de estudos incluídos
Foram avaliados 7 estudos, sendo 4 ensaios clínicos randomizados e 3 estudos observacionais, conforme o texto-base.
Bem-estar psicológico
Em 6 dos 7 estudos, não foi observado aumento de disfunção psicológica. Os resultados sugeriram que a melhora psicológica esteve associada ao controle da dor. O resumo do artigo também aponta que as evidências disponíveis não demonstraram efeito deletério consistente de COCs ou POPs sobre o bem-estar psicológico.
Função sexual
Nenhum estudo identificou piora da função sexual, e houve melhora da dispareunia em todos os estudos avaliados, segundo o texto-base.
Veja também: Diretriz sobre endometriose: já podemos “bater o martelo” com base na clínica
Mensagem prática
Apesar da heterogeneidade dos estudos e do risco de conclusões influenciadas por tamanho amostral e tempo de seguimento reduzidos, a revisão aponta dados relevantes ao mostrar melhora de qualidade de vida e ausência de piora da função sexual com o uso de contraceptivos orais em mulheres com endometriose.
O que se pode concluir, com base no texto apresentado, é que o controle da dor com contracepção oral esteve associado à melhora em domínios de saúde mental e à ausência de impacto negativo sobre a resposta sexual. O estudo também reforça que a contracepção hormonal não deve ser evitada apenas por receio de prejuízo à saúde mental ou à função sexual nessa população. Pelo contrário, ao promover melhor controle da dor, especialmente da dispareunia, ela pode contribuir para melhora global do bem-estar. Esse raciocínio é coerente com conteúdos do Portal Afya que descrevem a endometriose como condição que compromete dor, sexualidade e qualidade de vida, e que apontam os contraceptivos hormonais como parte importante do arsenal terapêutico.
Por outro lado, a própria revisão não permite concluir, com os dados apresentados, se alguma formulação específica teria maior ou menor impacto sobre os desfechos avaliados. Também não houve avaliação do uso de análogos de GnRH, conforme informado no texto-base.
Autoria
Sérgio Okano
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