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Ginecologia e Obstetrícia28 junho 2026

Comprimento cervical e risco de prematuridade em gestação única

Estudo avalia como o comprimento cervical se relaciona ao risco de parto prematuro espontâneo em gestações únicas assintomáticas.

O parto prematuro espontâneo (PPE) continua sendo uma das principais causas de mortalidade e morbidade infantil em todo o mundo, gerando impactos psicossociais e econômicos significativos. Identificar precocemente mulheres sob risco é fundamental para a implementação de intervenções profiláticas eficazes, como a progesterona vaginal ou a cerclagem cervical. 

Saiba mais: Progesterona vaginal pode prevenir parto prematuro em mulheres com colo do útero encurtado? 

Tradicionalmente, a ultrassonografia transvaginal no segundo trimestre para medir o comprimento cervical tem sido um dos principais recursos para a predição de risco. Contudo, a prática clínica muitas vezes se baseia em pontos de corte arbitrários, como o limite de 25 mm, o que pode limitar uma avaliação de risco mais precisa e contínua das pacientes. 

O estudo publicado na revista PLOS Medicine, em 2026, teve por objetivo quantificar o valor prognóstico do comprimento cervical no meio da gestação para o PPE em gestações únicas assintomáticas. A pesquisa buscou superar as limitações de metanálises de dados agregados ao utilizar uma metanálise de dados individuais de participantes. 

Saiba mais: Comprimento do colo do útero como preditor de parto prematuro subsequente 

Como a metanálise avaliou gestantes assintomáticas 

O trabalho utilizou o modelo de metanálise de dados individuais, considerado a abordagem mais robusta para este tipo de evidência. Foram analisados 27 conjuntos de dados originais, totalizando 91.404 gestantes de 12 países, com dados coletados entre 2001 e 2019. 

A seleção incluiu mulheres assintomáticas com gestação única que realizaram ultrassonografia cervical entre 16 e 26 semanas de gestação. O desfecho primário analisado foi o parto prematuro espontâneo antes das 37 semanas, enquanto partos antes de 34 e 30 semanas serviram como desfechos secundários. A análise estatística empregou modelos de regressão logística e splines cúbicos restritos para identificar associações não lineares. 

Risco de parto prematuro aumenta de forma não linear 

Os resultados revelaram associação não linear em formato de “L” entre o comprimento cervical e o risco de PPE. Observou-se que o risco de parto prematuro aumenta de forma acentuada e progressiva quando o colo uterino mede menos de 40 mm. Acima desse patamar de 40 mm, a probabilidade de parto a termo é alta e o risco permanece estável. 

Em termos estatísticos, utilizando 40 mm como ponto de referência, mulheres com colo de 20 mm apresentaram uma razão de chances (OR) de 6,22 (IC 95% 4,76–8,13) para PPE antes das 37 semanas. Para aquelas com colo de 30 mm, o OR foi de 2,10 (IC 95% 1,85–2,38), demonstrando que mesmo colos acima do tradicional corte de 25 mm já carregam um risco aumentado. 

Fatores que modificam a associação entre colo uterino e prematuridade 

Diferentemente de gestações gemelares, nas quais a relação entre colo e parto é linear, em gestações únicas o valor protetor de um colo longo estabiliza após os 40 mm. O valor prognóstico da medida mostrou-se ainda mais forte para partos muito prematuros, ocorridos antes de 30 semanas. Histórico de cirurgia cervical e prematuridade anterior também foram identificados como fatores que modificam a força dessa associação. 

Como limitações, os autores apontam que apenas cerca de 50% dos dados potencialmente elegíveis foram recuperados para análise, além da falta de dados consistentes sobre outras covariáveis importantes, como tabagismo, e informações detalhadas sobre desfechos neonatais. 

Saiba mais: Cerclagem eletiva versus vigilância ultrassonográfica 

O que muda na leitura clínica do comprimento cervical 

Esta metanálise robusta sugere que a obstetrícia moderna deve reavaliar a visão simplista do “tudo ou nada” baseada no limite fixo de 25 mm. Na prática clínica, isso implica que uma paciente com colo de 28 mm, por exemplo, já apresenta um risco significativamente maior do que uma com 40 mm, o que justifica um aconselhamento mais individualizado e, possivelmente, uma vigilância ultrassonográfica mais estreita. 

O estudo agrega valor ao transformar o comprimento cervical em uma escala contínua de risco, permitindo que o clínico selecione limiares de intervenção baseados no efeito esperado do tratamento e no perfil de risco histórico da gestante. 

Autoria

Foto de Roberta Furtado Stivanin Rachid Novais

Roberta Furtado Stivanin Rachid Novais

Conteudista médica na Afya. Formada em medicina pela Faculdade Souza Marques, com residência médica em Medicina de Família pela Universidade Federal Fluminense e especialização em Ginecologia e Obstetrícia pela SOGIMA-RJ, Mestre em Saúde Materno Infantil pela UFF e Doutoranda em Ciências Médicas pela UFF. Além da atuação na Afya, é professora de Obstetrícia na UFF.

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