Um estudo recentemente publicado no American Journal of Obstetrics & Gynecology, intitulado “Umbilical cord management in extremely preterm infants born by cesarean delivery”, avaliou os desfechos do clampeamento tardio do cordão umbilical em recém-nascidos extremamente prematuros submetidos à cesariana. O objetivo foi comparar mortalidade e desfechos neonatais de curto prazo entre prematuros que receberam clampeamento tardio após cesariana, após parto vaginal, e aqueles submetidos ao clampeamento precoce após cesariana.
O clampeamento tardio do cordão umbilical (≥30–60 segundos) é atualmente recomendado para prematuros por reduzir mortalidade e necessidade transfusional. Entretanto, há resistência à sua realização em cesarianas, devido à dúvida sobre a eficácia da transfusão placentária nessa via de parto, possivelmente influenciada pela ausência de contrações uterinas e por fatores hemodinâmicos maternos.

Metodologia
Trata-se de um estudo de coorte retrospectivo nacional baseado no Canadian Neonatal Network, incluindo prematuros extremos (<29 semanas) admitidos em UTIs neonatais entre 2015 e 2022. Foram analisados dados maternos, perinatais e neonatais de 6.137 recém-nascidos únicos, comparando três grupos: clampeamento tardio após cesárea, clampeamento tardio após parto vaginal e clampeamento precoce após cesárea. O desfecho primário foi composto por mortalidade hospitalar ou lesão cerebral grave (hemorragia intraventricular grau 3/4 ou leucomalácia periventricular).
A análise utilizou modelos multivariados com ajuste para fatores de confusão, como idade gestacional, uso de corticoide antenatal e hipertensão materna. Também foram avaliadas tendências temporais da adoção do clampeamento tardio e diversos desfechos neonatais secundários, incluindo sepse tardia, necessidade transfusional e displasia broncopulmonar.
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Resultados
Entre os 6.137 prematuros incluídos, 31,8% receberam clampeamento tardio após cesariana, 29,4% após parto vaginal e 38,8% clampeamento precoce após cesariana. Observou-se aumento progressivo do clampeamento tardio na cesariana, de 32% em 2015 para cerca de 50% em 2021–2022.
O clampeamento tardio após cesariana associou-se a menor risco do desfecho composto de mortalidade ou lesão cerebral grave (14%) em comparação ao clampeamento tardio no parto vaginal (19%) e ao clampeamento precoce na cesariana (23%). Após ajuste, houve redução significativa do risco em comparação ao parto vaginal (OR ajustado 0,69; IC95% 0,54–0,87) e ao clampeamento precoce na cesariana (OR ajustado 0,69; IC95% 0,57–0,83). Também foram observadas menores taxas de lesão cerebral grave, sepse tardia e transfusões quando comparado ao clampeamento precoce, sem aumento de eventos adversos relevantes.
Conclusões
Como conclusão, o clampeamento tardio do cordão em prematuros extremos submetidos à cesariana associou-se à redução de mortalidade e lesão cerebral grave, sem aumento de complicações neonatais importantes. Os resultados reforçam a recomendação de clampeamento tardio por pelo menos 30 segundos também em cesarianas de prematuros extremos, sempre que clinicamente viável.
Autoria

Ênio Luis Damaso
Doutor em Ciências Médicas pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP) ⦁ Professor no Curso de Medicina da Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo (FOB-USP) ⦁ Professor no Curso de Medicina da Universidade Nove de Julho de Bauru (UNINOVE).
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