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Ginecologia e Obstetrícia21 julho 2026

Bisfenóis estão associados à síndrome dos ovários policísticos?

Revisão sistemática avalia a associação entre níveis de bisfenol A e S e a síndrome dos ovários policísticos

A síndrome dos ovários policísticos (SOP) é uma das condições endócrinas e metabólicas mais comuns, afetando entre 11% e 13% das mulheres em idade reprodutiva globalmente. Caracterizada por hiperandrogenismo, disfunção ovulatória e morfologia ovariana policística, a SOP está associada a complicações em longo prazo, como resistência à insulina e síndrome metabólica.

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Por que os bisfenóis foram investigados na SOP?

Embora a predisposição genética e o estilo de vida desempenhem papéis importantes, o foco científico também tem se voltado para os fatores ambientais. Entre eles, os bisfenóis (BPs), como o bisfenol A (BPA) e o bisfenol S (BPS), destacam-se como disruptores endócrinos presentes em plásticos e revestimentos, capazes de mimetizar estrogênios e interferir na sinalização hormonal ovariana.

O estudo publicado em 2026 na revista Frontiers in Endocrinology teve como objetivo conduzir uma revisão sistemática integrada e metanálise para avaliar a associação entre a exposição a diferentes tipos de bisfenóis e a presença de SOP.

Como a revisão sistemática foi conduzida?

A revisão seguiu as diretrizes PRISMA e realizou buscas nas bases PubMed e Web of Science até dezembro de 2024. Foram selecionados 17 estudos observacionais, incluindo desenhos transversais, caso-controle e longitudinais, com um total de 3.010 mulheres. A qualidade metodológica foi avaliada pela escala de Newcastle-Ottawa (NOS).

Os critérios de inclusão consideraram estudos que mediram bisfenóis no soro ou na urina de pacientes com SOP diagnosticadas por critérios validados, como Rotterdam ou NIH. A análise estatística utilizou modelos de efeitos aleatórios para considerar a heterogeneidade dos dados e consolidar a associação entre a carga corporal de BPs e a presença da síndrome.

Níveis de BPA foram maiores em mulheres com SOP

A metanálise revelou associações positivas e estatisticamente significativas entre a SOP e os níveis de bisfenóis. Foram encontradas diferenças médias padronizadas (SMD) de 1,32 (IC 95%: 0,83–1,82) para o BPA sérico e de 2,69 (IC 95%: 1,41–3,97) para o BPA urinário.

Embora o estudo não tenha utilizado a razão de chances como principal medida de efeito, os resultados indicaram concentrações mais elevadas de BPA nos grupos com SOP.

O bisfenol S também apresentou associação com a síndrome

Além disso, o bisfenol S (BPS), frequentemente usado como substituto do BPA, também apresentou associação positiva com a SOP (SMD = 0,26; IC 95%: 0,07–0,46).

As análises de sensibilidade que excluíram estudos de menor qualidade confirmaram a persistência dos achados, indicando que a associação permaneceu após a exclusão desses estudos.

A discussão aponta que os BPs podem elevar a produção de andrógenos ao aumentar a expressão de enzimas como a CYP17A1 em células da teca, além de poderem contribuir para a resistência à insulina por meio das vias JNK/p38.

Limitações impedem estabelecer uma relação causal

O estudo apresenta limitações, como o viés geográfico, devido à concentração de estudos em populações da Ásia e da Europa, e o fato de medições urinárias únicas refletirem apenas exposições recentes.

Existe ainda a possibilidade de causalidade reversa, na qual o hiperandrogenismo da SOP poderia reduzir a depuração hepática do BPA. Dessa forma, os resultados demonstram associação, mas não permitem determinar se a exposição aos bisfenóis contribui diretamente para o desenvolvimento da síndrome.

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O que os achados acrescentam à prática clínica?

Na prática clínica, o estudo amplia a discussão sobre a possível participação de fatores ambientais na SOP. Medidas para reduzir o uso de plásticos, especialmente quando aquecidos, e evitar alimentos enlatados e o contato frequente com papéis térmicos podem ser discutidas com as pacientes, embora os dados apresentados não estabeleçam que essas medidas previnam ou tratem a síndrome.

O biomonitoramento de bisfenóis ainda depende de estudos adicionais antes que possa ser considerado uma ferramenta de avaliação clínica.

Autoria

Foto de Roberta Furtado Stivanin Rachid Novais

Roberta Furtado Stivanin Rachid Novais

Conteudista médica na Afya. Formada em medicina pela Faculdade Souza Marques, com residência médica em Medicina de Família pela Universidade Federal Fluminense e especialização em Ginecologia e Obstetrícia pela SOGIMA-RJ, Mestre em Saúde Materno Infantil pela UFF e Doutoranda em Ciências Médicas pela UFF. Além da atuação na Afya, é professora de Obstetrícia na UFF.

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