O manejo da dor e da febre durante a gestação é um pilar fundamental para a saúde materno-fetal, prevenindo complicações graves como anomalias congênitas, aborto espontâneo e parto prematuro. Tradicionalmente, o acetaminofeno (paracetamol) tem sido o analgésico de primeira escolha devido ao seu perfil de segurança superior em relação aos anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) e opioides.
Recentemente, no entanto, declarações políticas impactantes e a cobertura midiática sugerindo vínculo direto entre o uso materno de “Tylenol” e o risco de autismo geraram uma onda de insegurança clínica. Essa desinformação, muitas vezes desprovida de rigor científico, exige que os profissionais da saúde dominem os dados mais recentes para oferecer um aconselhamento seguro e baseado em evidências às suas pacientes.
O estudo de revisão, aceito para publicação em maio de 2026 na revista Obstetrics & Gynecology Science, teve como objetivo separar as evidências científicas das controvérsias públicas recentes, analisando o real impacto da exposição pré-natal ao acetaminofeno nos desfechos de neurodesenvolvimento infantil.
Como a revisão avaliou estudos de base populacional
Este trabalho caracteriza-se como uma revisão narrativa que avaliou criticamente evidências metodológicas de estudos de base populacional. O diferencial técnico desta análise foi o foco em estudos que utilizaram o design de controle de irmãos (sibling-comparison), uma estratégia que permite anular fatores genéticos e ambientais compartilhados, os quais frequentemente atuam como variáveis de confundimento em pesquisas observacionais comuns.
Os autores revisaram dados de uma coorte sueca abrangendo mais de 2,48 milhões de crianças, além de estudos japoneses com 200.000 participantes. Foram monitorados diagnósticos de Transtorno do Espectro Autista (TEA), Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) e deficiências intelectuais ao longo de décadas.
Saiba mais: Febre materna intraparto: o que há de mais recente sobre manejo clínico
O que os dados sugerem sobre causalidade
Os resultados demonstram que, ao ajustar a análise para o contexto familiar, o risco desaparece. No estudo sueco de maior impacto, os hazard ratios (HR) — medida de risco similar ao odds ratio neste contexto — foram de 0,98 (IC 95%, 0,94-1,02) para TEA e 0,98 (IC 95%, 0,95-1,01) para TDAH. Tais valores, próximos de 1,0, indicam que não há aumento estatisticamente significativo de risco atribuível ao medicamento.
Em contrapartida, estudos anteriores que sugeriam riscos duas a três vezes maiores foram criticados por falhas metodológicas graves, como o uso de biomarcadores no sangue do cordão umbilical que refletiam apenas o uso do medicamento no momento do parto, e não a exposição durante toda a gravidez.
A discussão reforça que o aumento global na prevalência de autismo reflete critérios diagnósticos mais amplos e maior conscientização, e não o uso de analgésicos. Embora o artigo seja uma revisão narrativa, ele ecoa as recomendações da OMS e do ACOG.
Mensagem Prática
O acetaminofeno permanece como a opção mais segura. O risco de não tratar uma febre alta materna é comprovadamente superior a qualquer risco teórico de neurodesenvolvimento. A orientação deve ser clara: o medicamento deve ser usado na menor dose eficaz e pelo menor tempo necessário, respeitando o limite máximo de 4.000 mg diários, sempre sob supervisão médica.
Autoria
Roberta Furtado Stivanin Rachid Novais
Graduação em Medicina pela Faculdade Souza Marques (2006), Residência Médica em Medicina de Família e Comunidade pela UFF (2008), Especialização em Ginecologia e Obstetrícia Pela SOGIMA/RJ (2012), Mestrado em Saúde Materno Infantil pela UFF (2016). Atualmente é Professora de Obstetrícia do Departamento Materno-Infantil da UFF e Doutoranda em Ciências Médicas também na UFF.
Como você avalia este conteúdo?
Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.