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Ginecologia e Obstetrícia26 maio 2026

A SOP mudou de nome: resumo dos motivos para esta mudança

Síndrome ovariana metabólica poliendócrina substitui SOP e reforça abordagem integrada das alterações endócrinas, metabólicas e reprodutivas.
Por Erik Trovão

Recentemente, tivemos a publicação, no The Lancet, de um artigo que propõe oficialmente a substituição do termo “síndrome dos ovários policísticos” (SOP) por “síndrome ovariana metabólica poliendócrina” (SOMP), a partir de um amplo processo internacional de consenso coordenado por especialistas, sociedades médicas e organizações de pacientes. O trabalho argumenta que o nome atual é cientificamente impreciso, uma vez que a condição não se caracteriza primariamente pela presença de cistos ovarianos patológicos, além de falhar em representar sua natureza multissistêmica endócrina e metabólica. Os autores destacam que essa nomenclatura histórica contribui para atraso diagnóstico, estigmatização, fragmentação do cuidado e limitações na formulação de políticas públicas e linhas de pesquisa.

Processo da mudança

A proposta foi construída por meio de um processo global rigoroso, envolvendo mais de 14 mil participantes entre pacientes e profissionais de saúde de diversas especialidades e regiões do mundo. Foram utilizados métodos Delphi modificados, workshops estruturados, análises de marketing e estratégias de implementação internacional. Os princípios norteadores da mudança incluíram: precisão científica, clareza de comunicação, redução de estigma, adequação cultural e viabilidade de implementação. A maioria dos participantes rejeitou a manutenção do acrônimo “SOP” e favoreceu um nome que refletisse melhor os mecanismos fisiopatológicos da doença.

O racional biológico para a nova nomenclatura baseia-se no entendimento contemporâneo da síndrome como uma condição predominantemente neuroendócrina e metabólica, e não apenas ginecológica. O termo “poliendócrina” foi escolhido para representar as múltiplas alterações hormonais envolvidas, incluindo hiperandrogenismo, disfunção neuroendócrina hipotalâmico-hipofisária, resistência insulínica e alterações ovarianas. O componente “metabólica” reconhece a forte associação da síndrome com obesidade central, intolerância à glicose, diabetes tipo 2, doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica e aumento do risco cardiovascular. Já o termo “ovariana” foi preferido em relação a “ovulatória” ou “reprodutiva” por abranger de maneira mais ampla as alterações foliculares, hormonais e ovulatórias, sem limitar a condição exclusivamente à fertilidade.

Leia mais: Síndrome ovariana metabólica poliendocrina (SOMP) – a nova nomenclatura da SOP

Efeitos na prática clínica

O artigo enfatiza ainda que a mudança de nomenclatura possui implicações clínicas relevantes. Segundo os autores, o termo atual frequentemente leva pacientes e até profissionais a interpretarem a síndrome apenas como um problema ovariano ou reprodutivo, minimizando suas repercussões metabólicas e cardiovasculares. Esse reducionismo favorece subdiagnóstico, especialmente em mulheres sem fenótipo clássico ultrassonográfico, além de dificultar abordagens multidisciplinares. A nova nomenclatura busca reforçar a necessidade de avaliação global dessas pacientes, incluindo rastreamento cardiometabólico, saúde mental e complicações reprodutivas ao longo de toda a vida reprodutiva e na pós-menopausa.

Outro aspecto importante discutido no trabalho é a dimensão sociocultural do nome. Diversos participantes relataram que o termo “ovários policísticos” gera ansiedade, estigma e confusão, sobretudo em contextos culturais nos quais a fertilidade feminina possui forte peso social. Houve preocupação particular em evitar termos excessivamente centrados em reprodução, considerados potencialmente estigmatizantes. Assim, o consenso priorizou uma nomenclatura mais neutra e biologicamente representativa. Os autores defendem que essa reformulação poderá melhorar a comunicação médico-paciente, aumentar a conscientização pública e fortalecer o financiamento em pesquisa.

Conclusão e mensagem prática

Por fim, o artigo descreve um plano global de implementação em múltiplas etapas, incluindo incorporação gradual do novo termo em diretrizes internacionais, prontuários eletrônicos, sistemas de classificação como CID/ICD, materiais educacionais e publicações científicas. Está previsto um período de transição de três anos, com atualização das diretrizes internacionais em 2028. Os autores consideram essa mudança um marco conceitual importante, alinhando a nomenclatura da síndrome à evolução do conhecimento científico atual e promovendo uma visão mais abrangente, integrada e moderna da condição.

 

Autoria

Foto de Erik Trovão

Erik Trovão

Formado em Medicina pela UFCG •Residência em Clínica Médica pelo HBLSUS/PE •Residência em Endocrinologia e Metabologia pelo HAM-SUS/PE •Titulo de especialista em Endocrinologia e Metabologia pela SBEM •Mestre em neurociências pela UFPE •Preceptor da Residência de Endocrinologia do HC/UFPE

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Referências bibliográficas

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