Recentemente, foi publicado um artigo na renomada revista The Lancet sobre a mudança de nome da Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) para Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (SOMP). Vamos ver como essa mudança foi escolhida e como ela será implementada.

Introdução:
A Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (SOMP), anteriormente conhecida como Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) afeta 1 em 8 mulheres ao redor do mundo. No entanto, o termo SOP é inapropriado, visto que restrige a síndrome apenas aos ovários, escondendo diversos traços metabólicos e endocrinológicos da doença, o que pode retardar o seu diagnóstico.
Para mulheres adultas com idade ≥ 20 anos,os critérios clínicos que precisam ser preenchidos para o diagnóstico são pelo menos 2 dos 3 a seguir: 1: oligo-anovulação, 2: hiperandrogenismo clínico ou laboratorial; 3: micropolicistos nos ovários ao exame de imagem (usg) ou elevação do hormônio anti-mulleriano (AMH). Para adolescentes, os critérios 1 e 2 devem estar presentes para o diagnóstico.
Outros traços da condição podem ser metabólicos tais como: obesidade, disglicemia, hipertensão arterial, dislipidemia, esteatose hepática, síndrome de apnéia obstrutiva do sono. Podem ser também reprodutivos como: infertilidade, complicações na gestação, irregularidade menstrual e câncer de endométrio. Também dermatológicos a saber: acne, alopecia e hirsutismo; e psicológicos como depressão, ansiedade e transtornos alimentares.
Tantos achados tornam a antiga SOP uma doença multissistêmica que merecia ter seu nome modificado. No entanto, como isso ocorreu?
Leia mais: SOMP substitui SOP: nova nomenclatura da síndrome dos ovários policísticos
O processo da troca de nome:
Em um consenso global, envolvendo pacientes, profissionais da área da saúde e organizações, ocorreram diversas reuniões com intuito de chegarem em um denominador comum do nome.
Em setembro de 2024, foram obtidos dados referentes ao processo de mudança de nome e sua tradução. Em dezembro de 2024, com auxílio governamental de diversos países, foram recrutados organizações, sociedades médicas, profissionais da área de saúde e pacientes que vivenciam a condição para participarem do processo.
A pesquisa para um novo nome ocorreu então de abril de 2025 a fevereiro de 2026. Em novembro de 2025 e fevereiro de 2026, foram realizados workshops com os envolvidos para teste de novos nomes com base em acurácia, aceitabilidade e apropriação cultural do termo em diversos locais. A equipe de marketing e comunicação atuou averiguando a clareza e a viabilidade de novos possíveis nomes candidatos em dezembro de 2025.
Um acordo sobre o novo nome entre pacientes e os profissionais de saúde ocorreu em fevereiro de 2026. A transição feita em agora em maio de 2026 visa suportar a adoção do novo nome de maneira funcional na prática clínica, nas pesquisas e na educação/comunicação públicas a nível de saúde.
Quais foram os princípios que guiaram a troca do nome?
- O novo nome deveria facilitar o diagnóstico, melhorar a conscientização e o cuidado com a paciente, aprimorar pesquisas e o entendimento da condição de modo a melhorar os desfechos da síndrome.
- O novo nome deveria envolver a síndrome como condição metabólica e endócrina e não apenas ovariana.
- O novo nome também deveria ser claro e de fácil comunicação para todo o público: pacientes, médicos, pesquisadores e público em geral.
- O novo nome também deveria ser versátil, se adaptando a diversas línguas, culturas e contextos regionais.
- Por fim, o novo nome deveria ser pensado em um nome fácil para a transição tendo em vista o contexto clínico, de pesquisa e de burocracia da transição.
Quais foram os 8 passos para implementação do novo nome?
- Disseminação acadêmica: Políticas de Saúde Pública devem realizar atualizações em ensaios clínicos, editoriais, livros-textos e outros materiais acadêmicos relacionados à SOMP.
- Desenvolvimento dos recursos: Desenvolvimento dos recursos a nível de paciente e profissionais de saúde em diversas línguas e plataformas.
- Engajamento e comunicação global: Há a necessidade de implementação de uma estratégia de comunicação bem estruturada, incluindo sociedades médicas e de pacientes, disseminação multimídia, programas profissionais educacionais e eventos para população da área de saúde e de pacientes a nível global.
- Integração entre o sistema de saúde e sistemas de informação: A nova terminologia precisa ser incorporada em bases de dados eletrônicas em diversos ambientes da área de saúde.
- Alinhamento entre política e pesquisa do novo nome: Governos, fundos de pesquisa, editorais de jornais e indústrias farmacêuticas precisam estar unidos e cientes para adotar o novo nome em suas políticas de divulgação.
- Classificação internacional: É preciso que organizações internacionais, principalmente a Organização Mundial de Saúde (OMS), estejam engajados no novo nome, inclusive para alterar os sistemas classificatórios de doenças, sendo o mais o comum o CID.
- Transição futura: É estimado que um período de 3 anos seja necessário para a monitorização e evolução da transição do nome e que ela seja concluída de modo eficaz em todas as esferas citadas.
- Guidelines: A integração do novo nome deve ser realizada no Guideline Internacional que será atualizado no ano de 2028.
Conclusão:
A transição do nome de uma condição clínica que afeta mais de 170 milhões de mulheres no mundo ocorreu com o intuito de não limitá-la aos ovários, e sim, refletir o caráter multissitêmico da mesma.
A SOP então, recebe um novo e abrangente nome: Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina.
Tal mudança é sustenta por uma estratégia global de implementação e avaliação integrada com intuito de maior conscientização da síndrome, diagnóstico aprimorado, melhoria na qualidade do atendimento e satisfação da paciente; tudo com com intuito final e mais importante de melhora de seu tratamento.
Que o novo desafio possa de fato ser implementado e permanecer na cultura dos profissionais de saúde e pacientes que lidam com essa condição.
Autoria

Juliane Braziliano
Médica formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Residência de Clínica Médica pelo Hospital Federal dos Servidores do Estado (HFSE) Residência de Endocrinologia e Metabologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF) Editora Médica de Endocrinologia do Portal Afya e Whitebook
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