Quem atende em emergência conhece a cena: o idoso que caiu no banheiro, sem fratura, com tomografia limpa, recebe alta com a orientação de voltar se piorar. Semanas depois, ele está de volta, agora por outro motivo. Tendemos a enxergar os dois atendimentos como eventos separados, e a revisão sistemática com metanálise publicada no Age and Ageing em 2026 sugere que essa leitura está errada.
Os autores quantificaram, ao longo do primeiro ano, quantos idosos atendidos no pronto-socorro por queda retornam ao serviço e quantos são reinternados. O achado central cabe em uma frase: mais de 4 em cada 10 voltam ao pronto-socorro e cerca de 1 em cada 3 é reinternado em 12 meses. O que torna o resultado mais interessante é a interpretação que ele autoriza.

Retornos ao pronto-socorro
A proporção acumulada de retornos foi de 3,9% em 3 dias, 8,8% em 7 dias, 15,0% em 30 dias, 37,5% em 6 meses e 41,3% em 12 meses. Aos 3 meses, um único estudo apontou 21,7%, valor que não entrou na análise agrupada.
Traduzindo para a prática, 1 em cada 7 idosos volta em um mês e 1 em cada 3 em seis meses. O que mais chama a atenção é o formato da curva: entre 30 dias e 6 meses, a proporção mais que dobra, de 15,0% para 37,5%, enquanto, entre 6 e 12 meses, o acréscimo é de menos de 4 pontos percentuais. O primeiro semestre concentra a maior parte do risco, o que define, na prática, a janela em que qualquer estratégia de acompanhamento teria mais a ganhar. Vale lembrar que cada ponto da curva vem de conjuntos diferentes de estudos, então ela indica uma tendência, e não a trajetória de uma coorte única.
Reinternações
As reinternações seguiram padrão semelhante, com 10,4% em 30 dias, 30,4% em 6 meses e 31,9% em 12 meses. Entre 6 e 12 meses, a curva praticamente se estabiliza, o que reforça a ideia de que o risco de novas hospitalizações se concentra logo após o evento índice.
A comparação entre os dois desfechos também é reveladora. Nas coortes que relataram ambos, a reinternação correspondeu a algo entre 63% e 73% das revisitas, ou seja, a maior parte dos idosos que voltam ao pronto-socorro não recebe apenas uma nova avaliação, e sim uma internação. Há sobreposição entre os desfechos, já que o mesmo paciente pode ser contado nos dois; portanto, os percentuais não devem ser somados.
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A queda como sinal clínico
O estudo não se propõe a explicar mecanismos, mas o referencial que os autores adotam dá sentido a todos esses números. A queda é tratada como a primeira manifestação visível de reserva fisiológica reduzida, fragilidade, multimorbidade e doenças subjacentes ainda não identificadas. Sob essa ótica, o retorno ao serviço de saúde não decorre apenas das consequências da queda, e sim da vulnerabilidade global do paciente.
Isso muda a pergunta feita à beira do leito. Além de “onde se machucou?”, precisamos perguntar “por que caiu agora?”. Se a resposta passa por medicações, comorbidades não reconhecidas ou declínio funcional, e nada disso é abordado no atendimento, a volta do paciente deixa de ser uma surpresa e passa a ser previsível.
Quem volta e por quê
Os fatores mais frequentemente associados a novas visitas e reinternações foram fragilidade, carga de comorbidades, polifarmácia, sexo masculino e fatores neuropsiquiátricos, com associação gradual quando se usaram índices de fragilidade e de comorbidade. Como os estudos avaliaram esses fatores de maneiras muito distintas, não foi possível realizar uma síntese quantitativa, e convém ler esses achados como um padrão consistente, mas não como estimativas de risco. Entre eles, a polifarmácia merece atenção especial por ser o único fator que podemos começar a modificar já no primeiro atendimento.
Outro dado ajuda a interpretar tudo isso. Quando os estudos separaram os retornos relacionados à queda dos retornos por qualquer causa, os primeiros foram sempre bem menores. Em um dos estudos, as revisitas por qualquer causa chegaram a 25,0% em um ano, enquanto as relacionadas à queda ficaram em 7,3%. Em outro, a revisita por queda em 30 dias foi de 2,0%, contra 11,5% por qualquer causa. Ou seja, a maioria dos idosos volta por motivos além de uma nova queda, e é isso que sustenta a tese de que a queda anuncia uma condição de base.
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Desafios diagnósticos e a janela do pronto-socorro
O principal desafio apontado pelos autores é organizacional. A maioria dos pacientes que recebe alta após uma queda não recebe os cuidados de prevenção preconizados, e as recomendações existentes se encaixam mal no tempo de que o pronto-socorro dispõe. O resultado é que comorbidades não reconhecidas, efeitos adversos de medicamentos e prejuízos funcionais seguem sem identificação.
Existe, porém, uma nota encorajadora: a adesão a medidas de prevenção é maior quando o paciente é abordado ainda no pronto-socorro do que quando é contatado posteriormente por telefone. O atendimento índice, muitas vezes tratado como banal, é uma oportunidade que raramente aproveitamos.
Sobre a conduta, o estudo não testou nenhum tratamento, então não há esquema terapêutico a descrever. O que os autores discutem são estratégias de cuidado: avaliação multifatorial do risco de queda e avaliação geriátrica ampla, quando factíveis, reconhecendo que intervenções abrangentes podem prolongar a permanência no pronto-socorro e têm efeito inconsistente sobre os retornos. Por isso, apontam como mais viáveis as ações que cabem no fluxo da emergência, como a revisão de medicamentos e a estratificação de risco pela fragilidade, ainda com evidência de efetividade limitada.
Como ler esses números
Há uma cautela essencial. As análises apresentaram heterogeneidade muito alta, e os intervalos de predição mostram o tamanho do problema: para revisitas em 12 meses, a média de 41,3% acompanha um intervalo de predição de 9,5% a 82,6%. Em outras palavras, o valor em um serviço específico pode ficar muito distante da média, e as taxas devem ser lidas como um retrato geral, e não como uma expectativa local.
Outros limites completam o quadro. A maioria dos estudos não tinha um grupo de comparação sem queda e, por isso, não sabemos quanto do uso de cuidados agudos se deve à queda em si e quanto à fragilidade que já existia. Os dados são observacionais, com definições variadas de queda e de retorno, e vêm predominantemente de países de alta renda, sem extrapolação segura para a nossa realidade. O estudo mostra, com clareza, o tamanho do problema, mas ainda não mostra se identificar e tratar a vulnerabilidade de base reduz os retornos.
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O que fazer no pronto-socorro para evitar uma nova queda?
Na mesma revista, em agosto de 2026, foi publicada uma revisão sistemática com metanálise que olha para o outro lado da moeda: em vez de medir os retornos, avalia estratégias iniciadas ainda no pronto-socorro para que o idoso não caia novamente. As intervenções foram, em sua maioria, multifatoriais, e as ações mais descritas foram:
- Avaliação multifatorial do risco de queda, com instrumentos estruturados e identificação dos fatores de risco;
- Revisão de medicamentos, com retirada ou ajuste daqueles que aumentam o risco de queda;
- Avaliação fisioterapêutica, incluindo marcha, equilíbrio e força, e prescrição de exercícios;
- Avaliação da terapia ocupacional, com orientações e visita domiciliar para segurança do ambiente;
- Investigação clínica e cardiovascular, como hipotensão ortostática, eletrocardiograma e exames de sangue;
- Encaminhamentos para clínica de quedas, geriatria, podologia, nutrição, oftalmologia e atenção primária;
- Educação do paciente e contatos telefônicos de acompanhamento.
Para o desfecho principal, o resultado foi favorável: a taxa de quedas caiu 31% no grupo intervenção (razão de taxas 0,69; IC 95% 0,54 a 0,88). As chances de queda com lesão diminuíram 18% (OR 0,82; IC 95% 0,61 a 1,10), as de fratura de quadril, 48% (OR 0,52; IC 95% 0,26 a 1,02), e as de revisita ao pronto-socorro por queda, 16% (OR 0,84; IC 95% 0,65 a 1,10), mas nenhuma dessas três reduções alcançou significância estatística. Ao excluir os estudos cujo grupo controle recebeu algum tipo de orientação, a redução das revisitas por queda chegou a 30% (OR 0,70; IC 95% 0,52 a 0,95) e a das quedas com lesão, a 29% (OR 0,71; IC 95% 0,52 a 0,97), agora com significância estatística.
A leitura pede cautela. Mais da metade dos ensaios tinha alto risco de viés, e a heterogeneidade foi grande. Ao retirar esses estudos, a redução na taxa de quedas caiu de 31% para 13% e deixou de ser significativa (razão de taxas 0,87; IC 95% 0,67 a 1,12). Os próprios autores concluem que há efeito favorável sobre a taxa de quedas, mas que as demais tendências não permitem conclusões definitivas.
O que muda na prática após uma queda em idosos
- Após uma queda que leva ao pronto-socorro, 15,0% dos idosos revisitam o serviço em 30 dias, 37,5% em 6 meses e 41,3% em 12 meses.
- As reinternações atingem 10,4% em 30 dias e cerca de 1 em cada 3 idosos em 6 a 12 meses, com risco concentrado no primeiro semestre.
- A queda deve ser lida como marcador de fragilidade, multimorbidade e perda de reserva fisiológica, e não como evento isolado.
- A maior parte dos retornos não decorre de uma nova queda, o que reforça a importância de investigar por que o paciente caiu.
- Fragilidade, comorbidades, polifarmácia, sexo masculino e fatores neuropsiquiátricos foram os fatores mais associados, e a polifarmácia é o mais acessível no atendimento inicial.
- As taxas são médias de estudos muito heterogêneos, sem grupo comparador na maioria dos casos, e não permitem afirmar causalidade nem eficácia das intervenções.
Autoria

Lavínia Barcellos
Médica pela Faculdade de Ciências Médicas e da Saúde de Juiz de Fora - FCMS/JF. Atua no setor de Emergência de Clínica Médica da Rede D'Or São Luiz no Rio de Janeiro. Durante a formação acadêmica participou de atividades relacionadas a ginecologia e obstetrícia, cuidados paliativos e oncologia clínica e cirúrgica, além de atuar na diretoria de ligas acadêmicas, diretório acadêmico, monitoria e projetos de extensão. Foi membro fundador (2018) e Presidente (2020) da Atrium Jr. - empresa junior de gestão e consultoria em saúde da FCMS/JF. Participante voluntária do projeto de extensão Policlínica Online durante a pandemia de COVID-19 com atendimento em telemedicina (2020).
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