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Gastroenterologia22 julho 2026

Qual a eficácia do rastreio combinado de H.Pylori e câncer colorretal?

A inclusão de um teste de antígeno fecal para Helicobacter Pylori é custo-efetiva em comparação com o FIT isolado?
Por Filipe Justus

O câncer gástrico e o câncer colorretal figuram entre as principais causas de mortalidade oncológica na população mundial. O rastreio de neoplasia colorretal está bem estabelecido como estratégia universal para adultos entre 50 e 75 anos de idade, por meio da pesquisa de sangue oculto nas fezes por teste imunoquímico (FIT) e da colonoscopia. Em contrapartida, as estratégias de rastreio da neoplasia gástrica persistem fragmentadas, irregulares e restritas a populações de alto risco. A infecção pela bactéria Helicobacter pylori (H. pylori) é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde como um carcinógeno do Grupo 1, sendo responsável por até 90% dos casos de adenocarcinoma gástrico não cárdico, tipo que corresponde a aproximadamente 80% dos cânceres de estômago. A erradicação do patógeno está comprovadamente associada a reduções significativas da incidência dessa condição. Apesar disso, mesmo em países com alta prevalência de infecção, como é o caso do Brasil, a implementação de um programa de rastreio populacional para H. pylori enfrenta barreiras logísticas e financeiras, além de carecer de evidências científicas robustas que comprovem sua custo-eficácia.

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Qual a eficácia do rastreio combinado de h.Pylori e câncer colorretal?

Estudo de custo-eficácia

Um estudo de modelagem médico-econômica publicado no Journal of the American Medical Association (JAMA) em 2026 trouxe evidências muito interessantes ao propor a integração do rastreio de câncer colorretal (CCR) ao rastreio de H. pylori utilizando métodos de pesquisa fecal realizados em uma única amostra (FIT + pesquisa do antígeno de H. pylori – HpSA). A pesquisa baseou-se em uma grande coorte taiwanesa, envolvendo aproximadamente 240.000 indivíduos. A metodologia empregou um modelo de Markov de microssimulação para projetar os resultados a longo prazo de diferentes estratégias de rastreio.

O trabalho adotou um horizonte temporal de 30 anos, permitindo capturar a progressão das lesões pré-neoplásicas e o impacto real na mortalidade. A análise foi conduzida sob uma perspectiva societária, o que significa que foram contabilizados não apenas os custos diretos dos testes e tratamentos, mas também os custos indiretos relacionados à perda de produtividade e anos de vida ajustados pela qualidade (QALY). As estratégias comparadas incluíram:

  • Ausência de rastreio;
  • Rastreio isolado de CCR com FIT anual;
  • Coteste anual utilizando FIT associado ao HpSA.

Outro aspecto pertinente foi que a análise considerou as taxas de adesão a cada uma das etapas dos rastreios, baseando-se em dados de vida real disponíveis na literatura.

Resultados: Uma Estratégia Dominante

Os resultados do estudo foram categóricos ao demonstrar o que em economia da saúde se denomina “estratégia dominante”, um cenário em que o acréscimo da intervenção reduz custos e promove ganho de utilidade. O coteste (FIT + HpSA) não apenas foi mais eficaz que o rastreio isolado, mas também resultou em economia líquida de recursos ao sistema de saúde. O Índice de Custo-Efetividade Incremental (ICER) foi de -$2.094 por QALY ganho. O valor negativo indica que a intervenção economiza dinheiro enquanto melhora a saúde da população.

A análise de retorno sobre investimento (ROI) revelou que para cada dólar investido na estratégia de coteste e erradicação subsequente, houve um retorno de 5 vezes o valor aplicado, considerando a redução de gastos com tratamentos oncológicos complexos, cirurgias e hospitalizações. Em termos de desfechos clínicos, a estratégia integrada promoveu uma redução de 13,5% na mortalidade por câncer gástrico e de 31,3% na mortalidade por câncer colorretal em comparação ao grupo sem rastreio. A eficácia do FIT na detecção precoce de CCR foi mantida, enquanto a adição do HpSA permitiu a identificação de reservatórios de H. pylori em indivíduos assintomáticos que, de outra forma, nunca seriam testados.

Na análise de sensibilidade, observou-se que a viabilidade da estratégia é influenciada principalmente pela prevalência do H. pylori, quanto maior sua prevalência, melhor a margem de custo-eficácia. Além disso, a eficácia da terapia de erradicação de primeira linha e a adesão do paciente ao tratamento antibiótico são variáveis críticas. O estudo reforça que o rastreio não termina no diagnóstico; o benefício clínico e econômico só se concretiza se a erradicação for confirmada, preferencialmente por testes não invasivos após 4 a 8 semanas do término da terapia.

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Reflexões sobre o cenário brasileiro

A transposição desses dados para a realidade brasileira exige cautela e uma visão crítica. Segundo o V Consenso Brasileiro de Helicobacter pylori, a prevalência da infecção no Brasil apresenta uma tendência de queda nas últimas décadas, acompanhando a melhoria das condições de saneamento básico. Entretanto, ainda observamos taxas elevadas, frequentemente superiores a 50% em regiões de maior vulnerabilidade socioeconômica e em bolsões de pobreza nas grandes metrópoles.

No Sistema Único de Saúde (SUS), o rastreio de CCR via FIT é uma das grandes prioridades pautadas recentemente pelo Ministério da Saúde, mas ainda está em vias de implementação e enfrentará muitos desafios até sua concretização, sobretudo na realização da colonoscopia após um exame fecal positivo. De toda forma, a proposta trazida pelo estudo taiwanês de implementar o HpSA acoplado ao FIT parece logicamente atraente para o cenário nacional, dado o custo irrisório do teste em comparação ao valor investido no tratamento do adenocarcinoma gástrico e suas amplas repercussões clínicas na população brasileira.

Resumindo

  • Estratégia integrada: A proposta do coteste FIT + HpSA utiliza a mesma amostra fecal para rastrear câncer colorretal e pylori simultaneamente.
  • Custo-efetividade: O estudo do JAMA 2026 demonstra que a estratégia é “dominante”, com ICER negativo e ROI de 5:1.
  • Impacto clínico: Redução significativa na mortalidade por câncer gástrico (13,5%) e colorretal (31,3%).
  • Limiar de prevalência: Para parâmetros norte-americanos de custo-eficácia, estratégia é eficaz em populações com prevalência de pylori acima de 21,9%.
  • Desafio brasileiro: A alta prevalência no Brasil favorece a custo-efetividade teórica, mas falhas na linha de cuidado, resistência antibiótica e dificuldades de adesão são barreiras reais à implementação no SUS.

Autoria

Foto de Filipe Justus

Filipe Justus

Editor médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Residências em Clínica Médica, Gastroenterologia e Hepatologia pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP). Mestrado em Ciências da Saúde pela UEPG. Além da atuação na Afya, trabalha como assistente de Gastroenterologia do Hospital Universitário da UEPG (HU-UEPG) e atende em consultório particular.

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