Uma das maiores novidades do Consenso Roma V foi incluir formalmente a Migrânea Abdominal como uma categoria diagnóstica aplicável a adultos. Anteriormente reconhecida de forma predominante na literatura pediátrica, a condição é agora validada na prática clínica para pacientes adultos que apresentam episódios paroxísticos de dor abdominal, preenchendo uma lacuna diagnóstica importante para quadros de dor recorrente sem causa orgânica estrutural aparente.
Fisiopatologia
A fisiopatologia da migrânea abdominal é considerada multifatorial, apresentando sobreposição clínica e fisiopatológica substancial com a Síndrome dos Vômitos Cíclicos e a enxaqueca cefálica convencional. A evidência sugere uma base neuroendócrina e autonômica compartilhada, caracterizada por hipersensibilidade central ao processamento de estímulos viscerais. Observa-se uma forte associação pessoal e familiar com a enxaqueca cefálica, reforçando a hipótese de que a migrânea abdominal seja uma manifestação variante do mesmo espectro genético e neurobiológico.
Critérios Diagnósticos
Para o diagnóstico de migrânea abdominal no adulto, o paciente deve apresentar episódios que atendam aos critérios de frequência, intensidade e sintomas associados descritos abaixo:
| Critério | Descrição Detalhada |
| Padrão de Episódios | Episódios paroxísticos estereotipados de dor abdominal intensa com duração de 1 hora ou mais (podendo persistir por vários dias). |
| Frequência | Ocorrência de pelo menos 3 episódios por ano e no mínimo 2 episódios nos últimos 6 meses. |
| Intervalos | Os episódios são separados por períodos de completa normalidade, com duração de semanas a meses. |
| Impacto | A dor deve ser suficientemente intensa para interferir nas atividades cotidianas. |
| Sintomas Associados | Presença de 2 ou mais dos seguintes achados associados: história pessoal ou familiar de enxaqueca, anorexia, náusea, vômitos, fotofobia, palidez ou aura/pródromo. |
Avaliação Clínica
Clinicamente, os episódios de migrânea abdominal costumam durar entre 2 a 72 horas, com uma média registrada de 17 horas. A dor é de difícil qualificação, sem características de cólica, sendo mais frequentemente descrita como maçanta ou “surda” (dull pain), localizada preferencialmente na região periumbilical, epigástrica ou na linha média abdominal. A identificação de gatilhos é comum, destacando-se o estresse psicológico, a privação de sono, as infecções e a ingestão de alimentos ricos em histamina ou tiramina. Ao contrário da Síndrome do Intestino Irritável, ela não guarda relação necessária com alterações da função intestinal, embora possa haver diarreia.
Diagnóstico Diferencial
O diagnóstico requer a exclusão criteriosa de outras condições médicas orgânicas. A avaliação laboratorial inicial deve incluir hemograma completo, perfil metabólico e marcadores inflamatórios, como Proteína C-Reativa (PCR) e calprotectina fecal para descartar processos inflamatórios ou infecciosos. Caso ainda não tenham sido realizados, exames de endoscopia e imagem abdominal, como ultrassonografia, tomografia ou ressonância, devem ser realizados conforme suspeição médica. Entretanto, se o padrão clínico permanecer estável e os exames prévios forem normais, a repetição de imagens deve ser evitada.
Tratamento
O manejo terapêutico é dividido entre a abordagem das crises agudas e a prevenção de novos episódios (profilaxia).
Tratamento Agudo
O foco reside na interrupção do paroxismo e suporte sintomático:
- Hidratação intravenosa (IV) para reposição de perdas volêmicas.
- Analgesia com analgésicos simples (paracetamol, dipirona) e anti-inflamatórios não-esteroidais (AINEs)
- Uso de triptanos, que apresentam benefício empírico baseado na fisiopatologia migranosa.
- Administração de antieméticos e, se necessário, opioides para controle álgico refratário.
Profilaxia
Indicada para pacientes com episódios frequentes ou altamente incapacitantes. As principais opções abrangem:
- Neuromoduladores: Antidepressivos tricíclicos (TCA), como desipramina ou amitriptilina, e inibidores da recaptação de serotonina e norepinefrina (SNRI), como a duloxetina.
- Outros medicamentos: Betabloqueadores (propranolol), bloqueadores de canais de cálcio (flunarizina), antagonistas de serotonina (ciproheptadina, pizotifeno) e agonistas GABA (valproato).
- Terapias Complementares: Destaque para a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), almejando o controle de gatilhos e estresse.
Autoria

Filipe Justus
Editor médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Residências em Clínica Médica, Gastroenterologia e Hepatologia pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP). Mestrado em Ciências da Saúde pela UEPG. Além da atuação na Afya, trabalha como assistente de Gastroenterologia do Hospital Universitário da UEPG (HU-UEPG) e atende em consultório particular.
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