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Gastroenterologia26 fevereiro 2026

Transtorno do uso de álcool: medicações reduzem óbitos e internações?

Apesar das evidências a prescrição de medicações para o manejo do transtorno associado ao álcool permanece alarmantemente baixa

O etilismo continua sendo a principal causa de hepatopatia crônica no mundo e a abstinência alcoólica é o único tratamento específico para o agravo, em todas as fases da doença. O manejo do transtorno por uso de álcool (TUA) engloba estratégias de abordagem psicossocial e farmacológica.  

Apesar das evidências robustas que apontam para uma melhoria significativa nos desfechos clínicos — incluindo menor risco de internação, readmissão hospitalar, descompensação clínica e mortalidade — a prescrição de medicações para o manejo desse transtorno permanece alarmantemente baixa, sobretudo em pacientes com doença hepática avançada.  

Esta falha decorre muitas vezes da falta de familiaridade com os agentes farmacológicos disponíveis e das particularidades do seu uso em pacientes complexos. O domínio técnico das medicações é, portanto, essencial para que o clínico possa ofertar o que há de mais eficaz e seguro.  

Entre as medicações oficialmente aprovadas para tratamento no Brasil, temos a naltrexona, o acamprosato e o dissulfiram. O dissulfiram está contraindicado em qualquer grau de hepatopatia e seu uso também é desencorajado em outros contextos, sendo descontinuado pela Anvisa em 2019, apesar de ser recomendado ainda por algumas referências. 

Manejo de transtornos associados ao álcool: O que o hepatopata deve saber? 

Naltrexona 

A naltrexona é um antagonista dos receptores opioides μ que atua reduzindo o prazer associado ao consumo de álcool e diminuindo a fissura (craving – desejo intenso de beber). Sua eficácia já foi constatada na melhora da sobrevida em pacientes com hepatopatia alcoólica grave, conforme observado no estudo de Sundaresh e colaboradores (2026). 

Considerações na hepatopatia 

A naltrexona oral é metabolizada primariamente no fígado, por isso requer algumas precauções. Apesar disso, um estudo americano publicado em 2023 revelou ótimo perfil de segurança em indivíduos hepatopatas. Ainda assim, o potencial teórico de toxicidade, raro em doses usuais, é um elemento a ser considerado, recomenda-se monitorização de níveis de enzimas e função hepática ao menos a cada 3 meses em pacientes com disfunção de base; 

Seu uso é liberado na doença hepática compensada e Child-Pugh A. Pelo risco de acúmulo de metabólitos mediante uso crônico, seu uso deve ser cauteloso em pacientes Child-Pugh B ou C, preferindo-se agentes alternativos no caso de disfunção hepática grave ou hiperbilirrubinemia significativa (> 3 mg/dL). 

Observações adicionais 

É contraindicada em pacientes que utilizam opioides ou que estão em síndrome de abstinência de opioides, devido ao risco de precipitar uma síndrome de abstinência grave e aguda. 

Acamprosato 

O acamprosato é um neuromodulador que age restaurando o equilíbrio de neurotransmissores (glutamatérgico e GABAérgico) alterado pelo uso crônico de álcool. Sua principal função é reduzir o desconforto pós-abstinência e o craving, auxiliando na manutenção da abstinência. Atualmente, no Brasil, é um agente de baixa disponibilidade e custo muito elevado. 

  • Considerações na Hepatopatia:  
    • O acamprosato não é metabolizado no fígado, sendo excretado inalterado pelos rins. É uma opção viável para tratamento em qualquer grau de hepatopatia, mesmo Child-Pugh B ou C; 
    • A principal preocupação é referente à função renal, contraindicado se taxa de depuração de creatinina < 30 mL/min. 

Leia também: Doença celíaca e o risco de evolução para doença hepática crônica

Agentes alternativos 

Existem agentes farmacológicos alternativos, que não foram oficialmente aprovados para manejo de TUA, mas que são frequentemente empregados na prática clínica, sobretudo em contextos de falha terapêutica ou contraindicação dos medicamentos principais. Todas as medicações abaixo podem ser usadas no contexto de hepatopatia, desde que tomados os devidos cuidados. 

Gabapentina 

  • Mecanismo de Ação: Modula a atividade dos canais de cálcio dependentes de voltagem e o sistema GABAérgico. É eficaz na redução da fissura, da insônia e da ansiedade pós-abstinência, sendo útil tanto no manejo da abstinência quanto na prevenção de recaídas. 
  • Considerações na Hepatopatia:  
    • Sua excreção é primariamente renal, com metabolismo hepático mínimo. Por isso, é considerada uma opção segura para pacientes com qualquer estágio de hepatopatia. A dose deve ser sempre corrigida pela função renal; 
    • Atenção! Seu uso deve ser evitado ou feito mais cautelosamente em pacientes com histórico de encefalopatia hepática ou maior risco dessa complicação (Child-Pugh B ou C), devido ao aumento do tônus GABAérgico. 

Baclofeno 

  • Mecanismo de Ação: Agonista GABA-B, que pode reduzir o craving por álcool e a ansiedade. Droga com alguns indícios de boa eficácia e segurança em hepatopatas. 
  • Considerações na Hepatopatia:  
    • É predominantemente excretado pelos rins, com metabolismo hepático mínimo. Considerado seguro em pacientes com cirrose hepática compensada (Child-Pugh A); 
    • Dados de vida real apontaram para maior risco de admissão hospitalar imprevista em pacientes Child-Pugh B ou C, devendo-se evitar a droga nesse grupo; 
    • Atenção! Da mesma forma que a gabapentina, em pacientes com histórico ou risco acentuado de encefalopatia, seu uso deve ser cauteloso e a titulação lenta. 

Topiramato 

  • Mecanismo de Ação: Anticonvulsivante que atua como modulador dos sistemas GABAérgico e glutamatérgico. Pode reduzir o craving por álcool e o consumo pesado. 
  • Considerações na Hepatopatia:  
    • Possui metabolismo hepático mínimo e é excretado principalmente pelos rins. Seu uso é teoricamente seguro em pacientes hepatopatas, mas há poucos dados práticos acerca de sua segurança; 
    • Por ora, recomenda-se restringir seu uso a pacientes com hepatopatia compensada (Child-Pugh A). 

Saiba mais: O que todo médico precisa saber sobre cirrose hepática descompensada?

Conclusão 

As medicações para o abordagem do transtorno de uso do álcool são ferramentas preciosas, mas negligenciadas na prática clínica, especialmente em hepatopatas. A integração precoce da farmacoterapia à abordagem psicossocial adequada é essencial para otimizar os resultados, reduzindo a morbimortalidade dos pacientes com transtornos associados ao consumo de álcool.

Autoria

Foto de Filipe Fernandes Justus

Filipe Fernandes Justus

Conteudista de Gastroenterologia do Whitebook e Portal Afya. Médico especializado em Clínica Médica, Gastroenterologia e Hepatologia pelo HC-FMUSP. Atua em ensino médico e assistência ambulatorial e hospitalar.

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Referências bibliográficas

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