A publicação do Consenso de Roma V em 2026 consolida uma mudança de paradigma fundamental: os antigos “distúrbios funcionais” são agora formalmente classificados como Distúrbios da Interação Cérebro-Intestino (DICI). Este marco científico afasta o estigma de diagnósticos “por exclusão” ou puramente psicogênicos, reconhecendo que essas condições possuem substratos biológicos definíveis, como hipersensibilidade visceral e alterações no processamento central de estímulos.

O que é o globus faríngeo?
O Globus Faríngeo é uma condição benigna bastante comum, definida como a sensação não dolorosa, persistente ou intermitente, de um corpo estranho, aperto ou “bola” localizada na garganta. É uma percepção incômoda que ocorre de forma independente da deglutição, diferenciando-se claramente de processos obstrutivos mecânicos.
O eixo cérebro-intestino e a hipersensibilidade
Como ocorre com praticamente todos os transtornos descritos, a fisiopatologia do Globus no Roma V é multifatorial e reflete sua complexidade:
- Hipersensibilidade visceral: Percepção exacerbada de estímulos fisiológicos normais na orofaringe e esôfago proximal.
- Disfunção do esfíncter esofágico superior (EES): Alterações na pressão basal ou relaxamento incompleto, frequentemente exacerbadas pelo estímulo autonômico exacerbado.
- Modulação central: Fatores psicológicos como ansiedade e hipervigilância atuam como amplificadores da percepção sensorial, mas não são a causa primária.
- Gatilhos periféricos: A doença do refluxo gastroesofágico (DRGE) e outras condições que causam inflamação local podem sensibilizar as vias aferentes, deflagrando o fenômeno de hipersensibilidade.
Leia também: Dor biliar e vesícula disfuncional: critérios diagnósticos no Roma V
Critérios diagnósticos (Roma V – Categoria A4)
Para o diagnóstico de Globus Faríngeo segundo o Roma V, o paciente deve preencher todos os critérios abaixo nos últimos 3 meses, com início dos sintomas há pelo menos 6 meses:
- Sensação intermitente ou persistente de corpo estranho ou “bola” na garganta, sem dor associada e sem anormalidade estrutural no exame físico e na laringoscopia.
- Ocorrência da sensação também entre as refeições, não apenas durante a deglutição.
- Ausência de disfagia (dificuldade de engolir) ou odinofagia (dor ao engolir).
- Ausência de ectopia de mucosa gástrica no esôfago proximal.
- Ausência de evidências de que a DRGE ou outros tipos de esofagite sejam a causa primária.
- Ausência de distúrbios da junção esofagogástrica ou da peristalse esofágica.
Investigação clínica e sinais de alerta
O papel do médico generalista é identificar o DICI enquanto monitora sinais de patologia orgânica:
- Sinais de alerta: Disfagia progressiva, odinofagia, perda de peso, anemia ferropriva ou massas cervicais palpáveis exigem laringoscopia ou endoscopia digestiva alta imediata.
- Exame físico: Fundamental a palpação cervical e a oroscopia para afastar causas estruturais óbvias.
- Exames complementares: Em casos típicos e sem sinais de alerta, a investigação deve ser dirigida, evitando o excesso de procedimentos e seu potencial iatrogênico.
Saiba mais: Disfunção do esfíncter de Oddi na era do Roma V
Conduta terapêutica
O tratamento no Roma V foca na conscientização dos pacientes e em estratégicas de modulação sensorial:
- Conscientização (Educação): Assegurar a natureza benigna do transtorno é um passo fundamental.
- Teste Terapêutico: O uso de IBP por 8 semanas é aceitável se houver suspeita de refluxo gastroesofágico associado, mas deve ser interrompido se for ineficaz.
- Neuromoduladores: Doses baixas de agentes neuromoduladores (pregabalina, tricíclicos ou ISRS) são opções interessantes para reduzir a hipersensibilidade visceral em casos persistentes.
- Abordagem Multidisciplinar: Fonoterapia e Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) auxiliam no manejo da hipervigilância e na promoção do relaxamento muscular.
Prognóstico
O Globus Faríngeo é uma condição crônica com curso flutuante. Embora não apresente risco de malignidade, o impacto na qualidade de vida pode ser alto se o paciente não compreender adequadamente o diagnóstico e alinhar suas expectativas à real natureza do problema.
Autoria

Filipe Fernandes Justus
Conteudista de Gastroenterologia do Whitebook e Portal Afya. Médico especializado em Clínica Médica, Gastroenterologia e Hepatologia pelo HC-FMUSP. Atua em ensino médico e assistência ambulatorial e hospitalar.
Como você avalia este conteúdo?
Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.